PS-Madeira: a história do militante que não queria deixar de o ser

André Escórcio, antigo secretário-geral e vice-presidente dos socialistas madeirenses diz que foi afastado. Direcção regional responde que foi ele que pediu para sair.

Foto
Anfré Escórcio Cortesia JM-Madeira

Afastado ou afastou-se? André Escórcio, um dos históricos do PS-Madeira, que foi secretário-geral, vice-presidente, deputado e candidato à presidência da Câmara do Funchal, já não é militante do partido.

A desvinculação foi comunicada na semana passada em carta enviada pelo Gabinete de Organização de Dados (GOD) do partido, e surpreendeu o agora antigo militante. Escórcio tinha escrito em Dezembro à direcção regional do PS-Madeira pedindo a “anulação” do cartão de militante, enquanto não fossem tomadas medidas face a um episódio que envolveu um deputado e vice-presidente dos socialistas madeirenses, Avelino da Conceição.

Em causa, esteve um vídeo de cariz sexual, gravado na sede da junta de freguesia de Água de Pena, concelho de Machico (a leste do Funchal), onde o deputado era vice-presidente, e que foi divulgada nas redes sociais na semana em que o parlamento madeirense debatia o orçamento regional para 2019. Conceição acabaria por desculpar-se, admitindo que a divulgação das imagens poderia acarretar uma “condenação moral”, mas nunca um aproveitamento político. A divulgação foi, disse na altura em comunicado, uma “violação do direito de privacidade”, que motivou já a apresentação de uma queixa na Polícia Judiciária.

André Escórcio achou pouco. “O presidente do PS-Madeira só tem um caminho possível: abrir um inquérito sumário, averiguar, levar o assunto à comissão de jurisdição propondo a sua demissão”, escreveu no blogue pessoal, onde tem procurado manter uma voz activa na política regional, defendendo que Avelino da Conceição deveria deixar a assembleia madeirense e todos os cargos políticos.

Escórcio, que esteve ao lado de Carlos Pereira nas internas de Janeiro do ano passado, em que o partido elegeu Emanuel Câmara para a liderança e legitimou a escolha de Paulo Cafôfo como candidato à presidência do governo madeirense, fez questão de pagar as quotas até Dezembro, e formalizou junto da direcção regional socialista o descontentamento com o caso. Numa carta citada pelo DN-Madeira, o antigo dirigente socialista diz não poder “pactuar” com actos que coloquem em causa o “bom nome e prestígio” do partido, e pede que a filiação seja “suspensa”. A resposta, chegou esta semana, numa carta do GOD: o partido aceita a desfiliação.

“Pedi a suspensão (tratou-se de um acto simbólico para quem está de boa fé), não pedi a demissão”, clarificou esta quarta-feira, depois do caso ter sido divulgado. “No exercício da política não existe memória, existe atropelo, em muitos casos, a lógica do salve-se quem puder e a oportunidade para subir, pelo menos temporariamente, no elevador do salário e das ligações tendencialmente prósperas”, escreveu, recusando mais comentários sobre o caso.

Carlos Pereira, antigo líder do partido e vice-presidente da bancada socialista em São Bento, fala em “perseguição” e pede que o PS volte atrás no que considera ser um “absurdo disparate”. Já o secretário-geral dos socialistas madeirenses diz que foi Escórcio quem se afastou. “André Escórcio afastou-se do PS, remetendo uma carta ao PS-Madeira, acompanhada do respectivo cartão de militante, em que solicitava, logo no assunto, a ‘anulação da inscrição como militante’”, argumentou João Pedro Vieira, dizendo que, “respeitando a vontade”, a carta e o cartão foram remetidos, “sem mais observações”, à direcção nacional do partido.