Charlotte Corman

A última hora de vida de André e Doreen

De 13 a 17 de Fevereiro, André Gorz e Doreen Keir vão morrer todas as noites no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Doreen, de David Geselson, é uma delicada e comovente visita a uma história de amor pintada sobre fundo político.

Em Setembro de 2007, o Le Monde noticiava a morte do filósofo André Gorz, encontrado de véspera, ao lado do corpo da sua mulher, Doreen Keir. Junto aos dois, havia uma série de cartas endereçadas aos amigos mais íntimos, explicando a razão pela qual se privavam da vida aos 84 e 83 anos, respectivamente. André Gorz, de seu verdadeiro nome Gérard Horst, fora um dos fundadores do semanário Le Nouvel Observateur e tornara-se uma figura destacada da intelectualidade esquerdista francesa, tendo publicado obras fundamentais como Ecologie et Politique, Adieux au Prolétariat ou Metamorfose do Trabalho. Mas o grande sucesso da sua produção literária havia de ser um pequeno volume intitulado Lettre à D. Histoire d’un Amour (Carta a D., publicado em Portugal pela Pianola), declaração de amor dirigida à sua companheira de vida – e de morte, saberíamos depois.

Publicado cerca de um ano antes do desaparecimento dos dois, Carta a D. lia-se já como uma despedida de Gorz. Mas uma despedida não apenas da sua companheira de mais de meio século; era também uma anunciada despedida da própria vida, numa altura em que a doença rara (aracnoidite) de Doreen levara o jornalista e filósofo a reformar-se para cuidar dela numa casa de campo a 35 quilómetros de Troyes. Nessas páginas, Gorz escrevia: “Manténs-te bela, graciosa e desejável. Há 58 anos que vivemos juntos e amo-te mais do que nunca. Recentemente voltei a apaixonar-me por ti e carrego em mim de novo um vazio devorador que apenas se preenche com o teu corpo estreitado contra o meu.” Algumas linhas adiante, Gorz anunciava o desfecho futuro, ao revelar que os dois se haviam prometido não sobreviver um ao outro.

PÚBLICO - O público é recebido com bebidas e aperitivos. Pode deslocar-se ao palco para encher um copo de vinho  ou trincar um salgado, enquanto André e Doreen dão as boas-vindas sem explicar que dentro de uma hora estarão mortos
O público é recebido com bebidas e aperitivos. Pode deslocar-se ao palco para encher um copo de vinho ou trincar um salgado, enquanto André e Doreen dão as boas-vindas sem explicar que dentro de uma hora estarão mortos Isabelle Jouvante
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Quando o livro lhe foi parar às mãos, ainda em 2006, oferecido por uma amiga, David Geselson era um actor provisoriamente desempregado. A leitura do texto comoveu-o a tal ponto que quis, de imediato, fazer alguma coisa com aquelas palavras e arriscar pela primeira vez montar um espectáculo da sua autoria (este que agora apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, de 13 a 17 de Fevereiro). Ainda limpou o texto até reduzir as 76 páginas originais para 40, mas ao testar a leitura com um amigo actor rapidamente percebeu que “ao fim de 15 minutos tornava-se chato”. “É o tipo de texto que queremos ler para nós, sozinhos, no nosso quarto ou no nosso apartamento, sem as vozes de terceiros a estragar a voz imaginária que escutamos.” E então desistiu da ideia, convencido da impossibilidade de dramatizar a prosa passional de André Gorz.

Até porque, em 2009, com a morte do avô, David Geselson descobriu uma outra história de amor intensíssima mais à mão, dentro do seu núcleo familiar. “Quando o meu avô morreu, a minha mãe contou-me que ele tivera uma história de amor escondida durante 60 anos, com uma mulher que tinha conhecido aos 19 e por quem esteve loucamente apaixonado”, conta ao Ípsilon. “Muito embora eles tivessem estado juntos, ela depois deixou-o por outro homem. Anos depois ele conheceu a minha avó e, ainda assim, continuou a ver essa mulher de tempos a tempos: 20 anos depois da separação e 20 anos depois desse encontro. Alguns meses antes de morrer ligou-lhe ainda, mas ela sim já tinha morrido.” Foi esse o ponto de partida para a criação de En Route – Kaddish, a primeira peça de Geselson, estreada em 2014.

Tal como acontece agora com Doreen, no regresso do actor, encenador e criador ao texto de André Gorz, também com En Route – Kaddish (e em breve com Le Silence et la Peur, a partir da vida da cantora e pianista Nina Simone), estes factos roubados à realidade são material para David Geselson se relacionar com a História e fazer correr em paralelo as pequenas narrativas dos indivíduos e as grandes narrativas que, enganadoramente, podem parecer mero contexto ou pano de fundo. Em En Route – Kaddish, David segue os passos de Yehouda Ben Porat (seu avô), desde que deixou a Lituânia em 1934 a caminho da Palestina, onde conheceu o seu primeiro grande amor no kibbutz de uma região que hoje integra o mapa do norte de Israel. Os dez anos que os dois viveram ali e os encontros posteriores em Jerusalém servem, de facto, para fazer passar um discurso sobre o conflito israelo-palestiniano, alimentado pela participação de Porat na II Guerra Mundial e na guerra que resultou na declaração do Estado de Israel. Acabaria depois por desertar para os Estados Unidos, onde foi um dos fundadores de um instituto dedicado à investigação sobre a História de Israel.

Ao preparar esse espectáculo, através de uma aturada pesquisa de arquivos, documentos, livros de História e entrevistas, David Geselson acabou por descobrir um método de escrita e de cruzamento entre estes dados e a história pessoal que acabava por partilhar com o público .O mesmo método que voltou a usar quando, após o sucesso de En Route – Kaddish, percebeu que devia avançar para uma nova criação e voltou à Carta a D., de André Gorz. “Reli o livro, voltei a chorar e disse-me que tinha mesmo de fazer algo com aquilo”, conta. “E então tive a ideia simples de voltar a tentar mas com um método que consistia em tentar compreender a vida de outra pessoa. Fui à procura dos arquivos dele para compreender quem ele foi, como era este casal; encontrei fotografias dos dois e comecei a ler tudo aquilo que consegui – os artigos que escreveu para o jornal, os ensaios, etc. Depois, aos poucos, fui-me encontrando com amigos dele que me contaram algumas histórias.”

Três casais

Com todo este material em mãos, David Geselson começou a trabalhar na sala de ensaios com Laure Mathis (ele na pele de Gorz, ela enquanto Doreen), tomando Carta a D. “como enquadramento e como cronologia”. A peça foi-se construindo, desapressada, a partir de selecções do livro cruzadas com artigos do Nouvel Observateur, investigação sobre a doença de Doreen (aracnoidite) e as próprias histórias de amor dos dois actores em palco – e até mesmo dos seus pais. Porque o registo de intimidade que vemos em palco, sugerido desde logo pelo acesso à vida conjugal e sentimental que Andre Gorz proporciona no livro, só seria possível de atingir se também David e Laure arriscassem colocar-se em cena, expor-se sem reservas, mesmo que a coberto de duas outras pessoas.

“Isso foi importantíssimo”, concede Geselson. “Durante os ensaios passámos muitas horas a falar de nós e dos nossos casais, a falar de como ela se sentia e como eu me sentia. Felizmente, não formamos também um casal, caso contrário creio que já não seria possível levar isto avante. Diria até que o Gérard [nasceu em Viena como Gerhart Hirsch, adoptando depois, em França, nomes como Gérard Horst ou André Gorz] e a Doreen que mostramos são eles, Laure, eu, os pais dela e os meus.” E há inclusivamente histórias trazidas por Laure que acabam por se infiltrar no texto, como aquela em que ouvimos Doreen contar como aos quatro anos sonhava que um homem atravessaria a noite para a assassinar. O medo havia de tornar-se tão insuportável que acabou por perder a visão. Após a consulta a vários médicos, o diagnóstico invariavelmente apontava para uma origem psicossomática. Os olhos não tinham qualquer problema, mas continuam a recusar-se a ver. Até que um médico sugeriu um tratamento: escutar a chuva. E levar os olhos a imaginar a paisagem sobre a qual as gotas caíam de forma copiosa.

Encontramos também Laure em Doreen porque a informação algo generosa que existe sobre André Gorz – que através dos seus textos permite uma leitura do homem e das suas convicções –, revela-se quase inexistente no caso da mulher do jornalista. Aquilo que os dois actores tinham para trabalhar a personagem feminina era apenas aquilo que o livro de Gorz revelava, 60 anos de fotografias que constam dos arquivos dele e um par de cartas. “Na verdade”, diz o autor, “acaba por ser melhor não termos quase nada sobre ela porque nos deu espaço para imaginarmos e inventarmos a partir dessas poucas pistas. E pode contar-se uma história só a partir de fotografias em que a vemos dos 19 aos 82 anos. Descobri depois alguns pormenores, como o facto de ela não ter querido tratar-se com medicação normal, preferindo recorrer a homeopatia, plantas, ervas.”

Essa qualidade porosa do texto final de Doreen, absorvando as histórias dos próprios intérpretes, garante David Geselson, só existe porque o seu processo de trabalho é tão distendido no tempo que se permite o vagar necessário para serem experimentadas várias soluções e o texto e o dispositivo serem afinados até à apuração da forma mais certeira – e assim foi, com a atribuição pelo Sindicato da Crítica do prémio de Melhor Criação em Língua Francesa em 2017.

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Em 2007, o Le Monde noticiava a morte do filósofo André Gorz, encontrado de véspera, ao lado do corpo da mulher, Doreen Keir. Junto aos dois, uma série de cartas endereçadas aos mais íntimos, explicando a razão pela qual se privavam da vida aos 84 e 83 anos, respectivamente Vincent Arbelet

Na sala de estar

Ao transpor a porta da sala superior do parisiense Théâtre de la Bastille, tal como acontecerá no Teatro Nacional D. Maria II durante a próxima semana, o público é recebido com bebidas e aperitivos. Pode deslocar-se ao palco para encher um copo de vinho tinto ou trincar um salgado, enquanto Gérard/André e Doreen, dão as boas-vindas sem explicar que dentro de uma hora estarão mortos. Mas não se trata propriamente de spoiler: embora esta informação não seja explicitada no decurso da peça, consta do programa de sala e da comunicação do espectáculo, e David Geselson prefere que seja do conhecimento do público. Porque tudo aquilo que se passa entretanto parte desse pressuposto, de que há um amor em palco a ser desvendado e que caminha para um final a dois. Um final que, uma vez mais, não é ilustrativo, antes trata de remeter para o recolhimento aquilo que, afinal de contas, não deve ser público.

Esse convite inicial para que os espectadores invadam a intimidade do casal pretende fazer de cada um, mais do que cúmplice, “testemunha” desse acto extremo que é o suicídio conjunto de André e Doreen. E testemunha daquele que é, na opinião de David Geselson, “o legado deles para o mundo”. “Ao convidarmos as pessoas para a sua casa, partilhamos esse legado, como se ao contarmos a história da vida deles estivéssemos a colocar algo no mundo com o qual, se tudo correr bem, o público poderá depois fazer alguma coisa.” E cita um amigo de Gorz que lhe escreveu uma carta dizendo, precisamente, que o seu legado ao mundo é Carta a D., a história de um amor de 58 anos que constitui “um acto de resistência aos tempos bárbaros que vivemos”, recorda Geselson.

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Esta sala de estar, repleta de exemplares do livro que o público pode recolher para acompanhar alguns trechos, e que permite olhar radiografias que atestam o estado gravoso de Doreen, levantou sempre essa questão delicada para o autor, encenador e actor, de como pode ser razoável convidar o público para aquele ambiente, servir-lhe um copo de vinho e, pouco depois, privar-se da sua vida. Teve então de deixar essa informação disponível para o público mas não a usar durante a peça, como se fosse quase acidental o desfecho daquela noite. Ainda assim, sabendo que é esse o motor subterrâneo que faz a narrativa avançar, havia que decidir o que contar nessa derradeira hora.

E, nesse sentido, foi fundamental que as ideias políticas de André Gorz, desde a ecologia ao trabalho, da proposta do salário universal às reflexões sobre a perda do emprego pela crescente automação das práticas laborais, tivessem eco em David Geselson. Sem essa identificação, aliás, duvida que a história de amor, no seu caso, resistisse. Ao juntar a leitura de Le Traître, a autobiografia de Gorz, às fontes para o espectáculo, havia de fascinar-se com “o quanto as suas ideias políticas estão hoje presentes e o quanto ele falava sobre este tempo de agora”. Nomeadamente, exemplifica, no que respeita à ecologia, à distribuição da riqueza e ao entendimento de que a obsessão economicista pelo crescimento contínuo era algo de muitíssimo nefasto para a vida na Terra.

A política em Gorz, acredita Geselson, acompanha e é alimentada pela sua intimidade. A frugalidade e a defesa da redução do trabalho coincide com a sua reforma – abandona o jornalismo, passa a escrever ensaios –, a mudança para a casa de campo e a sua dedicação a Doreen; o artigo em que ataca com contundência a medicina tradicional acontece depois de se descobrir que a doença de Doreen terá causa provável nas injecções de lipiodol que lhe haviam sido administradas anos antes. Todos os grandes temas sobre os quais Gorz escreve, diz o autor, “molda a forma como eles viviam juntos”.

Doreen mostra também como nalguns momentos da sua vida, ficcionada ou não nestas situações, André Gorz hesita: mostra-se, por exemplo, relutante em casar ou em viajar até à Califórnia. Mas em pano de fundo parece não haver qualquer dúvida quanto ao seu apagamento, na mais radical das decisões da sua vida. “Para ser honesto, esse problema com as decisões é meu”, confessa David Geselson. “É um problema que tenho na vida e é das coisas que mais senti em comum com aquilo que li do André Gorz na sua biografia. Também por isso o incluí na peça, porque acho que temos uma ligação nesse ponto. Mas aquilo de que me senti mais próximo é não ter uma identidade permanente.” Gorz, diz, mudou muitas vezes de opinião e evoluiu o tempo todo nos seus pensamentos políticos – chegando a aproximar-se do hacking informático quase aos 80 anos – e isso “pode ser tomado como um problema ou uma qualidade”.

Menos no seu acto final. André e Doreen planearam tudo com antecedência, escreveram cartas de despedida e retiraram-se de cena. Sem volta atrás.

O Ípsilon viajou a convite do Teatro Nacional D. Maria II