Perdido na tradução e na história: arqueólogo nega que túmulo de Cleópatra tenha sido encontrado

Em Janeiro, o antigo responsável pelo Conselho Supremo de Antiguidades do Egipto era citado a dizer que o sepulcro da mítica rainha estava identificado. Mas entretanto desmente, dizendo que é uma teoria de outra arqueóloga e que foi mal interpretado.

Fotogaleria
Zahi Hawass com a máscara funerária de Tutankhamon AMR ABDALLAH DALSH/Reuters
Fotogaleria
Zahi Hawass em Lisboa Pedro Cunha
Fotogaleria
Zahi Hawass com um fragmento de uma estatueta de Cleópatra AMR ABDALLAH DALSH/Reuters
Fotogaleria
Elizabeth Taylor e Richard Burton imortalizaram Cleópatra e Marco António num clássico do cinema FRED PROUSER/Reuters
Fotogaleria
Zahi Hawass supervisiona a remoção da múmia de Tutankhamon do sarcófago de pedra no seu túmulo no Vale dos Reis, em 2007 Reuters

Cleópatra é uma das figuras históricas de maior magnetismo e a procura do seu túmulo é uma das grandes demandas da arqueologia – mas o fim dessa busca não parece estar tão próximo quanto, em Janeiro, o arqueólogo egípcio terá prometido. “O túmulo desta rainha mágica não foi encontrado”, escreveu o famoso arqueólogo Zahi Hawass no semanário egípcio Al-Ahram sob o título “Fake news of Cleopatra”. Tudo se deveu a um erro de tradução e interpretação, diz.

As palavras que proferiu em Janeiro numa conferência na Universidade de Palermo, em Itália, correram mundo. “Sei onde está o túmulo de Cleópatra, a rainha do Egipto.”

PÚBLICO -
Foto
Zahi Hawass com um fragmento de uma estatueta de Cleópatra AMR ABDALLAH DALSH/Reuters

“Acredito que encontrei [a sepultura]. Estou no bom caminho. Tenho grandes esperanças de dar com ela em breve”, citava o diário espanhol ABC a partir do que fora proferido na conferência na Sicília, e que se sabe agora ter sido feita em egípcio com tradução simultânea da egiptóloga Stefania Sofra. “O lugar preciso deu-nos, no decorrer dos trabalhos, muitos elementos que nos levarão, sem dúvida, ao túmulo da figura histórica de Cleópatra [c. 69-30 a.C.]. Por isso, sabemos agora exactamente onde devemos escavar.”

São afirmações que indicavam que, conforme os trabalhos que decorrem há mais de uma década e que desde 2011 são chefiados por Kathleen Martinez, o túmulo da rainha – e do político romano Marco António, cuja história de amor alimenta a imaginação mundial há séculos – estaria no Templo de Osíris, a 45 quilómetros da cidade de Alexandria.

Agora, o arqueólogo cuja fama é proporcional às críticas de que é alvo de parte da comunidade científica quanto à espectacularidade em prejuízo do rigor desmente as suas palavras e as notícias e interrogações que originaram, nomeadamente no diário italiano Il Messaggero – “as notícias publicadas recentemente sobre a descoberta do túmulo de Cleópatra são completamente falsas”, escreve o antigo responsável pelo Conselho Supremo de Antiguidades do Egipto.

No texto de opinião, o arqueólogo atribui a um erro de interpretação as suas declarações e explica como as desmentiu em conjunto com Sofra ao jornal italiano em meados de Janeiro. E tenta esclarecer: “Disse que escavávamos há muito o Templo de Taposiris Magna a cerca de 45 quilómetros a oeste de Alexandria, e acrescentei que a teoria de que Cleópatra poderia estar ali sepultada não era minha, mas sim uma teoria de Kathleen Martinez”; “nunca acreditei na teoria de que Cleópatra pudesse estar ali sepultada porque os antigos egípcios nunca enterravam ninguém no interior de um templo”.

Ainda assim, Zahi Hawass alude à possibilidade de que novos achados na zona de Al-Selsela, também nas imediações de Alexandria e onde se situava o palácio agora submerso pelo mar Mediterrâneo, sejam uma pista para encontrar a sepultura: “Uma entusiasmante estrutura no átrio de uma porta monumental que, com o seu revestimento a granito, cobre e chumbo, pode ter sido parte da porta do túmulo de Cleópatra.”

Zahi Hawass assinou este longo texto a 24 de Janeiro, onde também reflecte sobre outras teorias quanto à localização do túmulo de Cleópatra e aos vários sítios arqueológicos onde já trabalhou, sobre as coisas “muito más” que já se escreveram sobre ela – “que era gorda, que tinha um grande nariz de papagaio, maus dentes, olhos pontiagudos e um pescoço gordo” – e sobre a sua opinião quanto à actriz que deveria interpretar um novo filme de Hollywood sobre a líder egípcia. “Disse que a cantora americana Lady Gaga não seria adequada para interpretar o papel de Cleópatra. Recomendei a actriz Angelina Jolie.”