Fantasmas, mulheres e fantasmas de mulheres na Berlinale

Esta edição do festival de cinema de Berlim tem muitas cineastas no feminino e muitos filmes de fantasmas. O melhor filme do concurso até agora é as duas coisas: Ich war zuhause, aber de Angela Schanelec.

Fotogaleria
Fordlandia Malaise de Susana de Sousa Dias dr
Fotogaleria
Ich war zu hause, aber dr
Fotogaleria
The Souvenir dr

Há muitos fantasmas a pairar este ano na Berlinale — ainda anteontem Denis Côté lhes deu forma humana no seu Répertoire des villes disparues, e a alemã Angela Schanelec acaba de entrar em diálogo com ele com a sua nova longa, Ich war zu hause, aber (“eu estava em casa, mas”). Os fantasmas de Schanelec não são físicos — são o resultado do stress acumulado por Astrid (Maren Eggert), mãe viúva de um miúdo doente com problemas de sangue, que já não sabe para onde se virar na vida. Mas são também os fantasmas de Bresson (com um burro que podia bem ser o Balthazar) e de Shakespeare (cujo Hamlet encenado por uma turma de liceu funciona como pontuação), que pairam sobre o cinema em suspensão da realizadora, onde nada parece passar-se, mas, aos poucos, tudo se começa a encaixar de formas que não eram forçosamente esperadas.

Já que estamos a falar de fantasmas, Susana de Sousa Dias continua a ir acordá-los — agora já não em Portugal, mas sim no Brasil, mais precisamente em Fordlandia, a cidade programada que Henry Ford criou no Amazonas para produzir borracha para os seus carros. A experiência não resultou, mas Fordlandia continua a existir — são as vozes daqueles que lá habitam hoje que ouvimos em Fordlandia Malaise, média-metragem de 40 minutos que a realizadora de 48 e Luz Obscura veio estrear a Berlim na paralela multidisciplinar Forum Expanded.

Mini-sinfonia experimental em quatro movimentos que oscila entre a imagem de arquivo e o drone em câmara lenta, entre o preto e branco e a cor,  Fordlandia Malaise é o primeiro passo da cineasta portuguesa para fora do claustro do Portugal salazarista dos seus últimos filmes, aplicando a sua lógica conceptual a outras experiências formais. E é também um objecto de esperança, onde o corpo humano faz a sua aparição a cores (pela primeira vez em muito tempo!) no cinema da realizadora.

Aliás, há muitas mulheres no programa de Berlim 2019 — e ainda não chegámos nem a Agnès Varda (cujo Varda par Agnès se estreará fora de concurso) nem a Isabel Coixet, cujo filme Netflix Elisa y Marcela é um dos pequenos “casos” do festival. Há, por exemplo, a britânica Joanna Hogg, cujo The Souvenir (Panorama), produzido por Martin Scorsese, era um dos filmes mais esperados do festival — saído de Sundance com críticas efusivas da imprensa anglo-americana, e com a maior parte dos observadores perplexos por um título que parecia “à medida” da Berlinale ficar de fora da competição principal num ano decepcionante.

Mas vai-se a ver e The Souvenir, história vagamente autobiográfica passada numa escola de cinema de Londres na primeira metade dos anos 80, é igualmente decepcionante: a história de Julie (Honor Swinton Byrne, filha de Tilda), dos seus dilemas sobre o que quer fazer no cinema e do seu romance autodestrutivo com um dandy heroinómano (Tom Burke) está cheia de tiques e truques e poses, como se fosse uma versão afectada e pós-modernamente distante dos dramas de época de James Ivory. A reconstituição de época é impecável, a banda sonora também, nada a opor aos actores, mas o filme nunca encontra uma maneira diferente de contar uma história de mulher à procura de si mesma.

PÚBLICO -
Foto
A actriz Tilda Swinton e a sua filha, a actriz Honor Swinton Byrne na apresentação de The Souvenir HAYOUNG JEON

Preferimos-lhe, de longe, a mulher à beira de um ataque de nervos de Ich war zuhause, aber— Schanelec, figura importante da “escola de Berlim” dos anos 1990/2000 que aqui chega pela primeira vez ao concurso de um dos “três grandes” festivais de cinema, filma precisamente uma desintegração em câmara lenta de uma mulher para quem a vida quotidiana se tornou numa única e enorme fonte de stress. Como de costume nas estafetas emocionais da realizadora, que assina aqui um dos seus melhores filmes (a muita distância do anterior Der traumhafte Weg, estreado em Locarno), a história vai rodando por várias personagens que se cruzam e contracenam, mas que vivem vidas diferentes em paralelo.

Hamlet e a lenta desintegração da casa real dinamarquesa, numa loucura controlada que parece todos afectar, fazem todo o sentido no espaço altamente formalista deste filme; a própria ligação ao teatro sugere algo de profundamente performativo, sublinhado pelo cuidado colocado nos enquadramentos e no modo por vezes Bressoniano de algumas interpretações. Mas a magia de Schanelec está em transcender o formalismo para chegar ao âmago da emoção — e consegue-o aqui magnificamente, no melhor filme a concurso até agora.