Crónica

Em micro-ondas

É impossível não ficar fascinado pela paixão com que os cientistas descrevem o trabalho que fazem.

O meu programa de televisão favorito é o "Sky At Night" da BBC. A astronomia continua a ser apresentada com excitação, curiosidade e vontade de partilhar conhecimentos e problemas.

É impossível não ficar fascinado pela paixão com que os cientistas descrevem o trabalho que fazem. Na última edição, Hiranya Peiris explicava o que era a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. É o que resta do Big Bang que deu origem ao universo. É a luz mais antiga que há. É conhecida como a fotografia de bebé do universo.

Lembro-me de vaguear pelos corredores da biblioteca John Rylands em Manchester e de entrar em colecções de teologia, artes decorativas ou medicina legal ou qualquer outra área em que eu não soubesse nada.

A certa altura, Hiranya Peiris diz que, como cientista, aquilo que a excita é o que não compreende. Não é preciso ser-se cientista. É maravilhoso folhear revistas académicas dedicadas a investigar disciplinas que nos são estranhas. É bom não ter alguém a explicar-nos o que é importante e não é.

A grande maioria dos livros que eu provava nunca tinha sido lida. Era bom ser o primeiro a estrear as encadernações. Andando sem rumo pelos corredores descobri autores que ficaram comigo para sempre mas o prazer era ler e ver o que nunca mais li ou vi.

O que me surpreendia era a quantidade e variedade de coisas que os seres humanos escolhem levar a sério, acham que vale a pena estudar. Divertia-me ler como se zangavam os especialistas por diferenças de interpretação que não pareciam importantes. Mas eram. E são.