Opinião

O colinho de Pedro Santana Lopes

Acrescentando zero novidade à política portuguesa, nada poderia ser mais reconfortante para uma boa parte do jornalismo português do que Pedro Santana Lopes

Nos idos de 2005, Pedro Santana Lopes apresentou-se aos eleitores para discutir o seu caótico mandato de cinco meses e meio à frente do governo com um hino no qual se dizia: “Um homem também chora/ Também deseja colo/ Precisa de carinho/ Precisa de ternura/ Precisa de um abraço/ Da própria candura”.

Quase quinze anos depois, já se viu que Pedro Santana Lopes terá tudo aquilo por que então choramingou: carinho, ternura, um abraço e, sobretudo, muito muito colo. Os noticiários e os diretos deste fim-de-semana a partir do congresso do seu novo partido estão aí para o provar. Pedro Santana Lopes será levado ao colo pela comunicação social até às eleições europeias e legislativas. A questão é: porquê? Por apresentar alguma novidade de programa político? Por responder a alguma mobilização popular? Por apresentar novas respostas à crise de representação democrática? Nada disso: é por preguiça mesmo.

Pedro Santana Lopes sempre conviveu bem com os vícios da política portuguesa. Planeou e promoveu todo o tipo de jogos de bastidores. Conviveu com o aparelhismo e as maquinações partidárias. Concordou com as nomeações a gente sem capacidade e sem currículo e aceitou as sinecuras de Estado, a começar pelas suas. Nunca se insurgiu contra a forma como são escolhidos os deputados, redigidos os programas ou incumpridos os mandatos. Em relação a tudo isto, Santana Lopes tinha apenas uma objeção de detalhe: não ser ele a mandar, a fazer as listas e a determinar as nomeações. Sabemos que ele vem para acrescentar zero novidade à política portuguesa, porque ele na verdade nunca deixou de cá estar e jamais acrescentou qualquer novidade à política portuguesa, a não ser como entretenimento. E isso não foi um acidente de percurso. Pedro Santana Lopes não é assim por defeito. É por feitio — e por desígnio.

Precisamente porque o objetivo de Pedro Santana Lopes é acrescentar zero novidade à política portuguesa, nada poderia ser mais reconfortante para uma boa parte do jornalismo português. Os humanos são seres narrativos, e os media vivem de vender aos humanos uma história (ou aos clientes que compram publicidade os minutos de atenção dos humanos que seguem essa história). É assim que as coisas são em qualquer lado do mundo. Mas em Portugal acrescenta-se um aspecto decisivo: é preciso que essa história seja sobre nada. Que não dê trabalho a escrever. Que a papinha já esteja feita. Que não seja necessário aprender novos termos, descrever novos procedimentos, falar com gente nova, comparar com o que acontece noutros países (isso é para depois das eleições: não têm conta os telefonemas pós-eleitorais que recebi a perguntar “porque não havia em Portugal novos partidos com nova maneira de fazer política” e a que respondi “há, mas vocês só noticiavam o que vinha de fora porque já estava escrito”). Que não tenha consequências. Que não afronte interesses ou poderes estabelecidos. Que venha de um lugar com o qual os anos de habituação deram origem a boas relações. Que os seus adversários estejam tão exangues e desorientados que não sejam capazes de reagir, de forma a que não se percam amizades nem fontes nem bons contactos nem se zanguem pessoas. Pedro Santana Lopes, neste momento, dá tudo isto. E por isso terá da comunicação social todo o colo que desejar.

O país é que não terá, por mais uma vez e num ano decisivo, a oportunidade de poder julgar em boas condições as alternativas que se lhe apresentarem. Terá apenas como hipótese duas escolhas: as velhas novidades, e as novidades velhas.

Há cinco anos, para as eleições europeias, a cobertura da campanha eleitoral foi estritamente zero, porque as televisões não estiveram interessadas em cumprir o espírito da lei que dava igualdade de cobertura a todas as candidaturas. Assim sendo, cumpriram a letra da lei: toda a gente teve direito a zero debates entre os candidatos nas televisões — o que não incomoda nada os partidos estabelecidos, que têm dinheiro de todos nós para encher o país de cartazes panorâmicos, os caríssimos outdoors. A seguir, para as legislativas, os partidos parlamentares entenderam-se para mudar a lei de cobertura das campanhas eleitorais numa discreta última votação antes das férias, e assim cartelizaram não só os debates, como também as entrevistas (até em programas humorísticos houve direito a três rondas entre os partidos parlamentares, e zero comparências para partidos “emergentes”, não fossem as assessorias de imprensa dos partidos parlamentares zangar-se com os diretores de informação num momento em que a lei passara a dizer que sem partidos parlamentares não poderia haver debates televisivos). Durante este mandato, na comissão à porta fechada sobre financiamento dos partidos, os partidos parlamentares decidiram continuar a subvencionar-se generosamente para continuarem a poluir visualmente o país com os tais outdoors, em campanhas publicitárias permanentes que só bancos ou construtoras de automóveis têm capacidade financeira de imitar. Que fique claro, em mais nenhum país democrático e pluralista, de sistema proporcional e representativo, isto se passa.

Ainda há quem pergunte por que é a política portuguesa tão fechada. É por isto: as direções partidárias escolhem as listas de deputados, que fazem os que as direções querem, incluindo determinar o financiamento partidário e a cobertura de campanhas eleitorais, que por sua vez cartelizam amistosamente com as televisões. As barreiras à entrada não estão lá por acaso. Caso contrário correríamos o risco de aparecer alguém que fizesse as coisas de maneira diferente e demonstrasse por essa diferença como são os modos do cartel. Isso, claro, é que não se pode admitir.

Sendo assim, há apenas espaço mental e mediático para dois tipos de figuras. Quem já lá está. E quem sempre “andou por aí”.