Não se pode achar que o crowdfunding "é bom quando dá jeito" e mau quando "provoca dano"

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, considera que a divulgação dos que contribuíram para a greve dos enfermeiros será salutar, desde quer autorizada pela Comissão Nacional de Protecção de Dados.

Ana Rita Cavaco acusa António Costa de ter sido "agressivo" com os enfermeiros
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Ana Rita Cavaco acusa António Costa de ter sido "agressivo" com os enfermeiros Nuno Ferreira Santos (arquivo)

Se não houver entraves legais, devem ser divulgados os nomes das pessoas que contribuíram para a greve cirúrgica dos enfermeiros, defende a bastonária da Ordem dos Enfermeiros.

Numa entrevista à TSF e ao Diário de Notícias, Ana Rita Cavaco sustenta que os nomes devem sair do anonimato "para combater a desinformação que algumas pessoas e comentadores, esses sim com motivações partidárias, estão a difundir em relação ao crowdfunding dos enfermeiros", nomeadamente a suspeita de que para tal financiamento tem contribuído o sector privado, motivado pelo interesse em destruir o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Sustentando que as contribuições angariadas através de uma plataforma online de crowdfunding têm partido sobretudo de enfermeiros, nomeadamente na sequência de colectas nos serviços, e assumindo que ela própria contribuiu, a bastonária considerou "um pouco perverso" estarem "a atacar um meio de crowdfunding quando o próprio primeiro-ministro usou a mesma plataforma para fazer um crowdfunding e financiar a sua campanha em 2013 à Câmara de Lisboa".

Apesar da disparidade de valores entre uma situação e outra — a greve dos enfermeiros já terá angariado acima de 780 mil euros, permitindo aos enfermeiros que fazem greve que recebam 42 euros por cada dia que faltem —, o princípio mantém-se. E este é, segundo Ana Rita Cavaco: "Eu não posso achar que o crowdfunding é bom quando me dá jeito e é mau quando me está a provocar um dano."

Sem se opor à divulgação dos nomes dos contribuintes, a bastonária lembra, porém, que tal divulgação deve ser submetida ao parecer da Comissão Nacional de Protecção de Dados, "para ninguém cair numa ilegalidade". 

Costa foi "agressivo"

Imputando ao primeiro-ministro, António Costa, a responsabilidade pela crispação instalada, e acusando-o mesmo de ter sido agressivo com os enfermeiros, Ana Rita Cavaco diz não perceber o corte de relação institucionais com a Ordem dos Enfermeiros anunciado pela ministra da Saúde, Marta Temido.

"Houve, de facto, alguns episódios de grande tensão entre mim e o anterior ministro Adalberto Campos Fernandes, mas isso nunca fez que ele deixasse de cumprir as suas funções como ministro ou eu as minhas como bastonária. Nunca deixámos de falar, pese embora publicamente houvesse às vezes algumas coisas menos boas entre os dois, mas ele nunca deixou de cumprir o seu papel junto da Ordem e a Ordem nunca deixou de cumprir o seu."

Neste cenário, Ana Rita Cavaco diz que foi "com muita surpresa" que viu Marta Temido assumir aquela posição, até por causa da reunião prévia que ambas tinham mantido. "A senhora ministra pediu-nos expressamente no início da reunião — é evidente que isto não foi público — que lhe disséssemos o que é que os sindicatos aceitariam para parar este braço-de-ferro. É evidente que nós estamos sempre disponíveis para o fazer, e fi-lo a pedido da senhora ministra, e falei de questões que são de natureza da carreira, mas a pedido da própria ministra. Portanto, eu não posso à segunda, quarta e sexta pedir ajuda para fazer parar o protesto e depois, de repente, acusar a Ordem ou quererem cortar aqui relações institucionais. Até porque há coisas que decorrem da lei, que são da nossa competência", relatou, aproveitando para endossar uma pergunta à titular da pasta da Saúde: "Se a senhora ministra diz que precisa de reforçar o SNS, e nós concordamos, porque é que prefere, em vez de negociar com os enfermeiros e dar algum dinheiro aos enfermeiros, estar a pagar cirurgias no privado?"

Há sempre "um meio caminho"

Referindo que "os sindicatos já se disponibilizaram para fazer algumas concessões" e defendendo que "o Governo também o deve fazer", a bastonária não se mostra desagradada com a hipótese de o conflito instalado ser mediado por Marcelo Rebelo de Sousa. Porque "é uma pessoa bastante acarinhada pelo povo e tem também essa função".

Mas vai deixando claro que, pelo que ouviu aos sindicatos do sector, o conflito não ficará sanado sem respostas às reivindicações relacionadas com a idade de reforma e o aumento das remunerações. "Há sempre um meio caminho para essas remunerações e para essa idade da reforma. Têm de ser os sindicatos a definir esse ponto médio de acordo com o que estão dispostos a aceitar como, paralelamente, também o Governo tem de dizer o que é que está disposto a ceder", aconselhou.