Opinião

Quer um robô a cuidar de si?

Houve um tempo de fé cega na tecnologia. Hoje, perante os robôs e a inteligência artificial, navegamos entre o entusiasmo e o medo. No MAAT, em Lisboa, há uma exposição que nos confronta com essas dúvidas.

Estão por todo o lado. Robôs, inteligência artificial, sistemas automatizados. São mais comuns no nosso quotidiano do que tendemos a pensar. Há partes robóticas nos carros, caixas de multibanco, cuidados assistidos, jogos de computador e muitos outros equipamentos. Há robôs que tanto adoptam a forma de brinquedo como de companheiros espirituais, de cúmplices sexuais como de cuidadores de idosos ou de doentes terminais.

As possibilidades são infinitas. E no futuro o ambiente que nos rodeia será cada vez mais contaminado por robôs, no sentido mais complexo da expressão, e sistemas inteligentes. Hoje discute-se se contribuem para a nossa felicidade ou levam à depressão, se sinalizam utopias ou distopias. Isso mesmo é reflectido numa exposição patente no MAAT, em Lisboa, de nome Hello, Robot, com mais de 200 peças de arte e design, num convite para pensarmos sobre o seu impacto em questões éticas, sociais e politicas. Nas salas há perguntas para os visitantes como esta: “Quer um robô a cuidar de si?”. Em parte, já não temos escolha. Já tomam conta de nós. Dependemos de aparelhos inteligentes para as mais diversas tarefas.

No universo do trabalho, da produção e indústria, estão cada vez mais próximos. Talvez demais. Para os cidadãos esse medo está associado à hipótese de perder o emprego. Há uns anos, presumia-se que iríamos trabalhar menos e ter mais tempo, deixando as tarefas mais pesadas para as máquinas, melhorando a qualidade da vida. Hoje, os postos de trabalho vão diminuindo e o mundo parece dividir-se entre os que trabalham demais e em condições precárias e os que não têm trabalho. Na percepção pública, durante décadas, os sectores laborais atingidos pareciam circunscritos a profissões não-criativas. Agora percebe-se que não é assim. Há formas de trabalhar informação massiva e obter conhecimento avançado, que pode ser aplicado num robô, mas também num telemóvel, programa informático ou em qualquer instrumento que interaja com humanos.

Desde que a máquina tenha informação para analisar e capacidade para a racionalizar, consegue gerar um plano de trabalho e uma estratégia para a executar. Ou seja, nos serviços, transportes, ou em emprego qualificado, de áreas tão distintas como a medicina, direito, publicidade, contabilidade, jornalismo, banca, e tantas outras, já se confrontam com esta realidade. Os optimistas argumentam que em todas as revoluções tecnológicas algumas actividades foram afectadas, mas surgem outras que compensam as perdas, fortalecendo o aumento do emprego, o crescimento e o investimento. Os pessimistas afirmam que, desta vez é diferente, porque a velocidade, a escala e o facto de as máquinas serem cada vez mais inteligentes, poderá originar um cenário de desemprego estrutural.

Houve um tempo de fé cega na tecnologia para resolver os impasses das sociedades contemporâneas. Os tumultos económicos e sociopolíticos da última década arrefeceram essa crença. Hoje existe ambiguidade. A relação oscila entre o entusiasmo e a crítica. O que pode não ser mau. Porque não são os robôs que nos darão esperança ou substituirão e destruirão. Somos nós. São as políticas que formos capazes de implementar. É a cultura e a forma como canalizamos o conhecimento.

Nos próximos tempos mais actividades e indústrias serão ultrapassadas. Mas em vez de interrogar se devemos ou não confiar nos robôs, por mais autónomos que estes possam ser, o relevante é olharmos para as estruturas político-económicas, as organizações e infra-estruturas que as controlam. Os robôs significarão vantagens desde que em simultâneo sejamos capazes de questionar o modelo de sociedade que temos vindo a edificar, assegurando novas formas de compromisso com a nossa existência. Se tal for conseguido, robôs e humanos cuidar-se-ão mutuamente.