Depois do Centenário da Grande Guerra (I)

Dezoito pinheiros no planalto

A efeméride dos 100 anos da Grande Guerra (1914-1918) já passou, os veteranos estão todos mortos e sepultados, o manto do esquecimento ameaça cair sobre a mortandade. Mas se nós, europeus, esquecermos, estamos perdidos. Primeira de uma série de crónicas sobre a Guerra das Guerras a partir de um dos seus principais palcos, a França.

Que palavras hei-de usar para contar isto aos meus amigos lá de Portugal? “Estive num campo de lavoura, no Aisne, em França, e recolhi estilhaços de obuses da Grande Guerra.” Soa tão banal, tão ofensivamente banal, tão despido de tudo o que aqui experimentei, que me sinto desde já relutante em contar, em falar do assunto, sequer. Talvez seja preferível calar o que vivi. Acrescentar pormenores é bem capaz de não servir de nada. “Recolhemos três quilos de estilhaços em meia hora.” As pessoas vão abrir a boca de espanto. “O quê? Três quilos?” Mas depois, muito provavelmente, a vida vai atravessar-se na conversa e não vai haver tempo para contar mais. Talvez seja por isto que os veteranos das guerras se calam. Há imagens que precisam de longos silêncios para ser desenhadas na retina dos outros, há experiências que têm uma respiração íntima, um pulsar descompassado que se dissipa em contacto com as palavras. Mesmo assim, vou tentar. É preciso tentar, sempre.

Estou no Hotel Ibis, em Reims, no meu quarto. Do gorro de lã, que usei em Craonne à laia de saco, agora tingido de lama e ferrugem, vou tirando os estilhaços de obus, um por um. Pouso-os com cuidado no lavatório. Lavo-os sob o jacto da torneira. Conto-os, são 35 ao todo. Os maiores cobrem-me a palma da mão, os mais pequenos assemelham-se a pedrinhas. Aliás, há três pedrinhas que se insinuaram no meio dos estilhaços, três lascas de sílex que só agora identifico como tal. Estendo no chão tiras de papel higiénico, disponho ali os estilhaços para que sequem. Um deles tem a forma de uma alga castanha, ramificada, daquelas que encontramos na praia, mas uma alga maligna, de bordos cortantes. Outro parece um anel. É parte da cabeça de um obus. Outro ainda, o maior de todos, parece um punhal rombo, de lâmina retorcida. Quantos destes pedaços de metal feriram ou mataram homens? Quantos se afundaram na terra sem causarem outro dano além do ruído ensurdecedor, além do medo que espalharam e que ficou a envenenar a vida de quem o sentiu?

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Em Verdun, contratámos os serviços de uma guia turística, chamava-se Florence. Disse-nos: “Nas minhas visitas guiadas, nunca digo: ‘Nós, os franceses, eles, os alemães.’ Digo sempre: ‘Os franceses’, ‘os alemães.’ Não quero alimentar a animosidade, os nossos dois povos, felizmente, já se reconciliaram.” Mas como abandonar estes lugares de carnificina sem animosidade, sem raiva contra quem orquestrou esta hecatombe? No alto da fachada do teatro de ópera de Reims, por baixo da cornija, estão gravados lado a lado, no mármore vermelho, os nomes de Racine e Mozart. O teatro ficou destruído na Grande Guerra, assim como 85% da cidade. Como não sentir animosidade contra quem não percebeu que aquilo que nos unia enquanto europeus era sublime e nobre, ao passo que aquilo que nos separava eram ninharias? Como não sentir animosidade contra quem não soube entender a limpidez desta mensagem: na fachada do teatro de ópera de uma cidade francesa tão prestigiada, um francês e um austríaco em pé de igualdade, a língua francesa e a língua alemã de braço dado.”

Florence contou-nos que uma vez, numa visita guiada, estava a conduzir um grupo de que fazia parte um velho alsaciano. A certa altura, quando ela descreveu a penosa e infindável recolha dos mortos da batalha de Verdun, as dezenas de milhares de cadáveres de franceses e alemães que foi preciso exumar durante anos e anos para os depositar nos cemitérios e no ossuário de Douaumont, o velho alsaciano atirou: “Eu cá teria deixado os mortos alemães a apodrecer nos campos. Os alemães que apanhassem a porcaria deles, se quisessem.” Florence disse que atalhou logo: “Meu caro senhor, não lhe posso permitir que fale nesse tom.” Fez bem, mas eu cá teria respondido: “Está equivocado, sabe. Talvez tivesse sido melhor reunir Nivelle, Pétain, Joffre, Ludendorff, Hindenburg, Falkenhayn e outros que tais e obrigá-los a recolher os cadáveres todos, um por um — franceses e alemães, sem distinção.” Florence teve um avô que combateu na Grande Guerra, mas nada sabe acerca disso. Sabe apenas que o regimento dele esteve algum tempo acantonado na Bretanha. “Prefiro não saber mais, para manter a minha imparcialidade enquanto guia.” Mas como é possível alguém querer manter-se imparcial perante tanto sofrimento, tanta dor, tanto sangue?

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Verdun

Noël Genteur disse-nos: “Hoje não é um bom dia para apanhar estilhaços, há muitas folhas mortas na terra.” O aço ferrugento é da cor das folhas mortas. “É isto?”, perguntou um de nós. “Não, isso é uma pedra. Os estilhaços são pesados, pesam-nos na mão. Olha, aqui está um.” A terra, a princípio relutante, pareceu desatar a cuspi-los em catadupa. A nossa vista apurou-se, começámos a distingui-los melhor. Eram tantos que, ao fim de um certo tempo, nos demos ao luxo de escolhê-los. “Não, esse não vale a pena. Este, sim, tem uma forma bizarra.” Noël Genteur apontou para o alto da encosta: “Agora, vamos procurar esferas de metralha. São como berlindes, azuladas. Ali em cima talvez haja. Vão aparecer, de certeza.”

Linha de montagem

O horror é cauteloso, avança em pequenos passos, nunca galga todo o seu caminho de uma vez só. Assim, os homens afeiçoam-se a ele. Para gasear seres humanos numa câmara de gás, num campo de extermínio, foi preciso gaseá-los primeiro a céu aberto, num campo de batalha. Em Reims, diante do mercado de Boulingrin, comprei, numa banca de rua que vendia antiguidades militares, uma pagela do tempo da Segunda Guerra Mundial, dedicada à memória de um soldado alemão chamado Hubert, morto a 12 de Março de 1944, aos 29 anos, e que perdeu um irmão, chamado Hermann, a 25 de Novembro de 1942. Ambos mortos na guerra que foi o prolongamento natural da Grande Guerra. Hubert olha-me da fotografia emoldurada a negro, muito sério, com um ar quase assustado. Ou talvez resignado. No texto, em caracteres góticos, diz-se que “em terra estrangeira e longínqua ele foi encontrar uma sepultura demasiado precoce”. Na banca, dentro de expositores envidraçados, havia à venda insígnias de vários exércitos. Entre elas, três distintivos de uniformes nazis. Em todos três, a cruz suástica sob as garras da águia estava oculta, coberta por pequenas etiquetas autocolantes brancas. Perguntei ao vendedor: “Tapa sempre a cruz gamada?” E ele: “Sempre.”

A cruz gamada, o mal absoluto, o mal consensual. Mas não terá havido, no nosso século XX europeu, outras manifestações do mal absoluto que é preciso destapar, trazer à luz? Verdun e o Chemin des Dames não foram, à sua maneira, manifestações de um mal absoluto à solta na Europa? Não foram, afinal, etapas indispensáveis para habituar os homens a viver como animais, a morrer como animais, a matar os outros homens como animais? A batalha de Verdun durou 300 dias. Dispararam-se 60 milhões de obuses. Duzentos mil obuses por dia. Oito mil e trezentos e trinta obuses por hora. Cento e trinta e oito obuses por minuto. Mais de dois obuses por segundo. Como numa linha de montagem, a linha de montagem da morte.

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À medida que lavo os estilhaços, sinto-os a esfarelarem-se entre os meus dedos. Vão-se soltando pedacinhos de metal, lascas de ferrugem. Ao secarem, os estilhaços abrem fissuras. Parecem pedaços de massa folhada. Temo que, se os deixar cair, eles se desfaçam em mil bocados. Uma das primeiras coisas que Noël Genteur nos disse, depois de lhe batermos à porta de casa sem aviso, foi que há uma diferença abissal entre memória e História. E que, quando um acontecimento passa do campo da memória para o campo da História, é como se deixasse de estar vivo entre nós, é como se morresse. As entidades oficiais e a academia apropriam-se da narrativa, que, em certa medida, se esvazia, se torna didáctica no pior sentido da palavra. Ao trazer comigo estes estilhaços de obus, transportando-os até ao ar condicionado deste quarto de hotel, querendo levá-los comigo para Portugal, talvez eu esteja a transferi-los do domínio da memória para o domínio da História. Talvez seja por isso que os vejo agora, longe da terra e da lama onde estiveram mergulhados durante cem anos, a esfarelarem-se assim entre os meus dedos, inúteis, sem préstimo. O lugar destes pedaços de metal não é aqui. Talvez eu não tenha dado a devida atenção a outra coisa que Noël Genteur nos disse. Estávamos ainda no campo de lavoura, ele enumerou os vestígios da guerra que arranca ciclicamente do seio das suas terras: arame farpado, obuses que não explodiram, baionetas. “Muitas baionetas.” Mas depois acrescentou: “Não guardo nada. Não sou coleccionador.” É preciso revolver a terra, ano após ano, extrair do seio dela as marcas da guerra, mostrá-las às pessoas, deitá-las fora e depois recomeçar. Foi isto que Noël Genteur me disse e eu não fui capaz de entender.

É íngreme o talude que conduz ao planalto de Californie, tão íngreme. Os soldados franceses, vergados sob o peso do equipamento que nem bestas de carga, tiveram de trepar estas ladeiras sob o fogo das metralhadoras alemãs. Às vezes, os alemães desciam pelos túneis que esfuracavam o planalto, apareciam de surpresa nas costas dos franceses, atacavam-nos pela retaguarda, matavam e morriam. Agarrámo-nos uns aos outros enquanto subíamos o talude inclinado, com medo de escorregar e deslizar por ali abaixo, apesar de o chão estar seco. Mas, quando Nivelle ordenou que tivesse início a ofensiva do Chemin des Dames, em Abril de 1917, chovia a cântaros, nevava. Nivelle não viu a chuva? Não viu o talude, tão íngreme? Mesmo de longe, com um binóculo, vê-se bem. Não viu os mortos? Eram tantos, não os viu?

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Planalto de Californie

Noël Genteur não quer manter a imparcialidade. “Sou militante. Militante e camponês.” Batemos-lhe à porta e ele apresentou-se-nos assim. Mas não há nele animosidade, não há raiva. Nem mesmo quando nos contou as inúmeras ameaças de morte que recebeu, ano após ano, por defender a memória dos soldados fuzilados durante a Grande Guerra por suposta cobardia ou abandono de posto diante do inimigo. Quer que os fuzilados sejam inocentados, não reabilitados. “Reabilitar” significa que houve culpa e que essa culpa é lavada. “Inocentar” significa dizer que não houve, logo para começar, culpa alguma. Telefonavam para casa dele, a mulher atendia, pediam para falar com Noël Genteur, ele pegava no auscultador e diziam: “Ou paras com essa merda que andas a fazer ou metemos-te uma bala nos cornos.” Não é coleccionador de objectos bélicos, mas coleccionou memórias dos veteranos da Grande Guerra. Enquanto eles foram vivos, foi ao encontro de todos os veteranos que conhecia ou de que lhe traziam notícia, recolheu depoimentos, guardou as memórias que não chegam aos livros de História. Às vezes, percorria centenas de quilómetros só para falar com um veterano. Agora os veteranos da Grande Guerra estão todos mortos, não resta nenhum, Noël Genteur é o portador das memórias deles, adiou por mais uma geração o esquecimento, protelou por mais uma geração o remeter da Grande Guerra para os manuais e compêndios e museus. Quando ele nos contou as histórias que os veteranos lhe contaram, a guerra assomou diante dos nossos olhos, emocionámo-nos, desenharam-se no silêncio gestos que trouxeram para junto de nós os que aqui morreram. As palavras de Noël Genteur tornaram supérflua e um pouco deslocada a nossa animosidade, serenaram qualquer coisa no nosso íntimo. Não tornará a haver uma Grande Guerra enquanto alimentarmos a memória. “O homem alguma vez será sensato?”, perguntou ele.

Plantar pinheiros

Encontrámos uma esfera de obus de metralha, uma só. Por muito que procurássemos, a terra recusou-se a cuspir mais. Tenho-a entre os dedos, examino-a. Nas fábricas de armamento, as mulheres, as irmãs, as mães dos soldados enchiam com esferas assim os obuses para matarem, talvez, os próprios maridos, os próprios irmãos, os próprios filhos. Não raro, a artilharia alemã matava alemães, a artilharia francesa matava franceses. A esfera é de chumbo, está intacta, não tem ferrugem. Tem a superfície um pouco bexigosa, nada mais. Vai perdurar durante muito tempo. Talvez ainda exista, quem sabe, daqui a 500 anos, que é a data em que, ao que afirmam os especialistas, serão retirados das terras de lavoura do Chemin des Dames os últimos obuses por explodir.

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Monumento "Le Mort Homme"

Quando o lusco-fusco já se começava a adensar, Noël Genteur levou-nos a outro dos seus campos, mais acima, quase no planalto, em cuja orla ergueu uma estela a homenagear 18 soldados franceses de uma aldeia, Bégaar, nas Landes, bem longe daqui, que vieram morrer a Craonne. Os alunos da escola primária de Bégaar viajaram até aqui em 2016, mas não como os seus bisavós, não para aprenderem a viver como animais, a morrer como animais, a matar os seus semelhantes como animais. Vieram descerrar a estela e plantar pinheiros, 18 pinheiros, um por cada soldado morto. Em Bégaar, há outra estela igual. O artesão guardou o molde, fez um duplicado, Noël Genteur esteve presente quando esta segunda estela foi descerrada. Mostrou-nos os pinheiros, plantados em fila, acocorou-se junto deles. Dentro de cada invólucro de rede protectora não havia um pinheiro, mas sim dois. “Planto sempre dois. Deixo-os crescer, depois corto o mais enfezado e deixo crescer o mais viçoso. Não posso arrancar o mais pequeno, tenho de o cortar, senão as raízes vêm atrás e morrem os dois.” Morreram aqui tantos homens, nem se sabe exactamente quantos, as autoridades militares dos dois lados nunca quiseram que se soubesse ao certo.

O horror percorre-se em pequenos passos, antes de nos habituarmos à morte dos nossos, à nossa morte, temos de nos habituar à morte dos outros. Dezenas de milhares de mortos franceses, dezenas de milhares de mortos alemães. Foram tantos que, na prática, no plano moral, mais do que no plano da aritmética, cada francês, ao morrer, levou consigo um alemão, cada alemão levou consigo um francês. Num gesto de sabedoria quase inadvertida, Noël Genteur prestou a melhor homenagem possível aos mortos desta guerra. Dois pinheirinhos plantados no mesmo buraco cavado na terra: um para o soldado francês de Bégaar que veio morrer longe de casa, outro para o seu irmão alemão que veio, também ele, morrer longe de casa. As raízes dos dois pinheiros entrelaçam-se, assim como os mortos mesclados nesta terra encharcada de sangue, e, quando Noël Genteur cortar um dos pinheiros de cada par, o acaso ditará se cortou o pinheiro do soldado francês ou o pinheiro do soldado alemão. Não pode arrancá-lo, porque tornariam a morrer os dois. E isso é que não pode mesmo acontecer.