Editorial

Um inédito silêncio sobre a requisição civil

Que o CDS ou o PSD se calem ainda se percebe. Que o Bloco e o PCP renunciem ao seu papel histórico de defensores das grandes lutas laborais é mais difícil de entender.

O Governo anunciou a requisição civil para os enfermeiros e, da esquerda à direita, nenhum partido com assento parlamentar esboçou críticas sonoras ou avançou com a denúncia de condicionamento da lei da greve. É espantoso tamanho consenso.

Que o CDS ou o PSD se calem ou, caso do partido de Assunção Cristas, assobiem para o lado com um piedoso apelo à intervenção do Presidente da República ainda se percebe. Que o Bloco e o PCP renunciem ao seu papel histórico de defensores das grandes lutas laborais é mais difícil de entender – o PCP, note-se, pronunciou meia dúzia de palavras simpáticas para os enfermeiros e limitou-se a dizer que o recurso do Governo “não resolve” o problema.

O Bloco, por Catarina Martins, mostrou-se ontem preocupado com o que classificou de “conflito galopante”. Muito mais do que um sinal de deferência ou apoio à decisão do Conselho de Ministros, o que explica a falta de defesa dos enfermeiros é o reconhecimento de que a greve representa uma ameaça ao controlo dos resquícios da luta de classes que se habituaram a jogar em seu favor.

A paralisação cirúrgica dos blocos é perigosa para o sistema porque prescindiu dos habituais mecanismos hierárquicos da relação entre os partidos, os sindicatos e os trabalhadores. É essa perda de controlo sobre o mundo do trabalho que incomoda os partidos e as respectivas confederações sindicais. E é essa distância das convenções da representação política que leva os enfermeiros a ousar uma luta desproporcionada, com custos sociais inaceitáveis e danos de imagem gigantescos na classe.

Nenhum partido democrático estaria sujeito a pagar os custos políticos desta greve. É por isso que os enfermeiros entraram em roda livre e se deram ao luxo de convocar paralisações que ameaçam o direito à saúde e a resposta do sistema nacional de saúde.

Esboçar uma crítica violenta à requisição civil seria para os partidos um duplo risco: daria força a sindicatos inorgânicos que não controlam e levaria o protesto dos cidadãos a dirigir-se às suas lideranças. Por isso, o Governo pôde decretá-la sem estados de alma, sabendo que não correria qualquer risco de criar tensões políticas com os partidos nem qualquer perigo de suscitar o protesto dos cidadãos.

Chegados aqui, resta saber que novos trunfos terão os enfermeiros para manter a sua greve. Do sucesso ou insucesso das suas iniciativas saberemos se nasceu um novo modelo de conflitos laboral. Ou se o velho sistema de representação política e sindical ainda é o que dita as regras no mundo do trabalho.