Entrevista

Santana Lopes “nunca” fará acordos com António Costa

O líder-fundador da Aliança defende que o “Estado solidário” substitua o Estado Social. E desafia o Presidente da República a “empenhar a sua popularidade nas grandes causas nacionais”.

Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria
Nuno Ferreira Santos
Fotogaleria

Aos 62 anos, Pedro Santana Lopes funda um novo partido, a Aliança, que este fim-de-semana realiza o seu primeiro congresso em Évora. “A Aliança é para gerações. É para durar décadas, tantas quantas dure a democracia”, promete aquele que foi líder do PSD.

Não sente responsabilidades pessoais na crise que o PSD tem atravessado?
É passado. Não vou falar do PSD.

Como é que um militante e dirigente histórico do PSD, que foi líder do partido e primeiro-ministro em nome dele, rompe e vai fazer um partido ao lado?
Pelas causas. Como disse um grande dirigente europeu, às vezes tem de se mudar de partido para se defender as ideias. Foi o que aconteceu comigo, mudar para defender as ideias em que acredito e que ao longo de muitos anos defendi. É isso que deve justificar a constituição de uma nova força política, que defenda uma nova atitude na Europa.

Que nova atitude?
Desde 1993 que me pronunciava contra o modelo. Um ano depois de Maastricht, era secretário de Estado da Cultura, insurgi-me contra os dogmas europeus, nomeadamente na Política Agrícola Comum. No Congresso de Viseu, em 2000, falei contra as obrigações do Pacto de Estabilidade e Crescimento, a falta de atenção à coesão económica e social. Fui dizendo estas coisas ao longo dos anos e escrevendo. Os dogmas na Europa levaram ao ponto em que ela está. Quando comecei, a minha ambição era ter um país pelo menos ao nível médio. Passam quarenta anos e como é que estamos? Quase no último lugar do PIB per capita, já ultrapassados pelos países da Europa de Leste. Por isto decidi constituir um novo partido. Se olharem para o partido em que eu estava, continua com o mesmo pensamento. Aliás, a generalidade dos partidos portugueses que têm representação parlamentar pensam praticamente o mesmo sobre Europa, são dogmáticos, seguem a cartilha macroeconomia ortodoxa.

Não está a disputar directamente o eleitorado do PSD?
Disputamos todos, do CDS ao BE. Não privilegiamos nessa matéria o PSD. E sei que o BE sabe isto e tenho visto alguma comichão no dia-a-dia de algumas pessoas do BE, nomeadamente o seu tutor espiritual, que constantemente faz intervenções sobre a Aliança e sobre mim no seu espaço televisivo.

Se a Aliança falhar, admite voltar ao PSD?
Deixem lá o PSD. A Aliança não vai falhar. A Aliança é para gerações. É para durar décadas, tantas quantas dure a democracia. Há pessoas não estão a ver bem o filme - algumas acho que estão -, o que se passa em torno da Aliança. Na entrevista ao primeiro-ministro na televisão, há dias, achei interessante que lhe perguntassem mais da Aliança do que dos outros partidos.

O que é que distingue ideologicamente a Aliança do PSD e do CDS?
A questão europeia é muito importante. O pensamento económico também. A questão social, na minha opinião, o solidarismo, como alguns o designam. O PSD e o CDS acreditam ainda no Estado Social. A Aliança acredita pouco. E temos um Estado Social falido. Falhou. A Aliança acredita no Estado solidário, ou seja, apoiar cada um em função dos seus rendimentos. O Estado Social teve um desvio de rota, porque pretendeu apoiar todos, independentemente dos seus rendimentos. Manuais escolares grátis para todos, tenham Ferraris ou andem a pé. Reduzir os passes sociais para todos, independentemente dos seus rendimentos. A Aliança está em desacordo com essa linha de orientação. Até porque não há recursos que cheguem para todos. Isto é a política do chamado comodismo ideológico ou do facilitismo ideológico. As ideologias em grande medida estão postas em causa, estão em reconversão, na Europa, no mundo.

Mas assume-se como de direita?
Sempre me considerei de centro-direita, sempre. Hoje o mundo está bipolarizado e o que está mais bipolarizado ainda é Portugal, desde que a frente de esquerda se criou. Na última entrevista, o primeiro-ministro não disse nada de novo a não ser isso mesmo. Julgo que foi claro. Aliás, referiu a expressão “só com uma invasão de marcianos” é que se justificaria o Bloco Central. Fui criado numa escola, o sá-carneirismo, em que a bipolarização não é pecado.

Pois não, era virtude.
Virtude. Nunca me fez impressão nenhuma o PCP ser chamado até a responsabilidades de governo. Portanto não vejo mal nisso, como não vejo mal nenhum em existir uma direita moderna, moderada, aberta, liberal, solidária, mas uma direita que acredite no crescimento económico e que se preocupe com a justiça social. Não a direita retrógrada, preconceituosa ou bafienta. Isso não interessa.

E o Serviço Nacional de Saúde (SNS), também deve ser progressivo?
Sim. O que defendemos é que, para robustecer o SNS, é preciso criar novos termos de financiamento. A única hipótese é a generalização do seguro de saúde. Este SNS faliu e foi a frente de esquerda que deu cabo dele. Os problemas vêm de há muito tempo, mas este Governo fez uma opção. É algo que não consegui entender, esta obsessão pelo défice zero. O país está a colapsar a vários níveis, no sistema de justiça, na remuneração e capacidade de resposta das forças de segurança, na capacidade de resposta do SNS.

Tudo por causa do défice zero?
Nunca percebi porque é que este Governo quis além do além da troika, faz-me a maior confusão. Quiseram assumir compromissos com Bruxelas que deixassem Bruxelas satisfeita e depois fizeram cá dentro a política de devolução de rendimentos. E falhou a grande aposta, que é aquilo que a Aliança mais defende.

O crescimento?
Tem de ser o grande desígnio nacional, desde o Presidente da República. Para isso é preciso criar um grande clima que seja propício ao investimento. A economia só cresce com muito investimento, com o aumento e melhoria da produtividade.

Investimento de privados e do Estado?
Os dois, mas principalmente privado nacional e externo. [Isso não acontecerá] Enquanto nós não apostarmos aí, não percebermos que temos de facto esse mesmo desafio que a Holanda, a Irlanda, a Áustria, Malta, Chipre nos coloca em termos de competitividade fiscal, de atractividade de investimento, enquanto não nos enchermos de brio e não dissermos: "nós temos de ultrapassar aqueles que nos têm ultrapassado". É a resignação portuguesa. Faz-me imensa impressão como é que na economia, nas condições de vida de um povo, no seu nível de vida, nas condições sociais, nos resignamos. A Eslovénia passa-nos, a Roménia passa-nos, a Polónia passa-nos em PIB per capita e Portugal não pensa nisso, não trata disso. A questão é de vontade política. O próprio Presidente da República, compreendo que o chefe de Estado trata da sua popularidade, mas ele já tem popularidade que chegue. Já lho disse, ele tem de empenhar a sua popularidade nas grandes causas nacionais: a justiça, o aumento do nível da produtividade, o crescimento económico. Sem isso não temos dinheiro para sustentar o nosso modelo de organização económica e social. A questão é essa, não é só culpa deste Governo ou do anterior. A questão é que o modelo europeu está falido na generalidade dos países. Falhou. A Europa está a rebentar por todos os lados.

É a criação de um clima de confiança?
A criação de um clima de confiança para os investidores, mas também para os trabalhadores. Estamos num pequeno tempo de viragem da economia dos muito baixos salários. Aqui haverá contributos de todos. Mas este algum miserabilismo... Tem de haver um grande pacto nacional para o crescimento, em que os trabalhadores também têm de sentir que os seus salários melhoram se a produtividade aumentar e melhorar. O que muitas vezes acontece é que a produtividade aumenta até mais do que os salários e as organizações de trabalhadores queixam-se disso. Tem de haver uma indexação que motive a força produtiva nacional a produzir mais e melhor. Um pacto também para as condições de segurança e higiene no trabalho. E uma consciência social mais aguda. Como é possível um país ter estivadores que estão vinte anos a ser contratados e despedidos todos os dias? E o país olha para o lado. São outros bairros da Jamaica, se quiser.

Quem financia a Aliança? As quotas dos militantes bastam?
Até aqui têm sido os seus fundadores, também os seus militantes. Para o congresso, cada delegado pagou 20 euros de inscrição, os observadores 10 euros. Em receitas dessas inscrições atingimos os 20 mil euros. De entrada, os fundadores deram de mil até dez mil euros. Tudo pela forma normal, transferência bancária.

Porque é que optou por um cabeça de lista para as europeias sem perfil político?
Valor principal: credibilidade. E na credibilidade estão implícitos dois outros valores: a seriedade e a competência. A Aliança considerou que era importante que o seu primeiro candidato fosse inequívoco quanto a essas características. E ninguém nega ao Paulo Sande a sua competência e conhecimento dos assuntos.

Quantos eurodeputados poderá eleger?
Entre um a três, não sei quantos vou eleger.

Se eleger eurodeputados, em que grupo os vai inscrever?
Naturalmente, estaremos mais próximos da ideologia liberal, social-liberal, apesar de os grupos europeus estarem em grande reconversão.

Por isso perguntamos.
E a tratar disto com prudência. Fomos contactados por dois ou três grupos europeus.

Admite que seja um deles o PPE?
Não.

Para PPE já chega?
Ora bem, é isso mesmo. Já lá há Portugal que chegue.

Nas legislativas, disse que pensa eleger 15 deputados. Acha realista?
Acho, mas teremos o que os portugueses quiserem, quando a Aliança for mais conhecida. Há pessoas que não sabem o nome, há aqui um trabalho de tornar mais notório e conhecido o nome da Aliança.

Se a Aliança se sentar no Parlamento, que estratégias de alianças adoptará?
A Aliança já propôs - e esse é um ponto-chave da nossa estratégia - que as forças do centro-direita trabalhem para se aproximar umas das outras e haver condições para uma coligação pós-legislativas. Por aquilo que conheço do PSD e do CDS, sinto que eles estão muito longe um do outro. A Aliança procurará fazer um trabalho de alguma aproximação, convergência para que se possa criar condições para haver uma alternativa. Se o PS ganhar as eleições e precisar de aliados, procurará os mesmos. E o país não pode olhar para as outras forças políticas e pensar que só são alternativa com o PS em substituição do BE e do PCP. Isso é extremamente limitativo. E depois temos o PSD. O seu líder voltou a dizer que admite uma coligação com o PS. Qual é a alternativa? A Aliança, o CDS? Acho que é pouco.

Se for interpelado por António Costa para acordos, mesmo pontuais, admite fazê-los?
Não. Foi o próprio primeiro-ministro que disse que só se os marcianos vierem à terra é que fará acordos à direita. E disse que Santana Lopes se tem colocado à direita. Na prática falou em salvação nacional. Agora, tem que haver clarificação e bipolarização assumida e a mim preocupa-me muito o estado actual do centro-direita, não é fácil.

Nunca?
Nunca. Isso que me está a perguntar, nunca.

Mas já admitiu que pode ajudar a viabilizar um governo PS...
Isso também nunca.

Acredita na ideia do CDS de que é possível conseguir os 116 deputados?
Acredito. O centro-direita, neste momento, pelas sondagens na sua pior fase tem 35, 36%. O PSD tem 24%, a sondagem do Expresso dá 4% à Aliança, o CDS tem 7-8%. Portanto 35, 36%. Não é mau.

Mas não dá para formar Governo.
Não, mas se for ver quanto é que a PàF teve nas últimas eleições... 38%. Se houver vontade política... Este primeiro-ministro, quando se aproximam as eleições nacionais, tem tendência para descer. E a situação económica não vai ser fácil para o Governo. O centro-direita pode subir. Se conseguisse ir até aos 42%, 43%, em coligação pré-eleitoral pode ter a maioria. Ainda muita água vai correr debaixo das pontes. Vai ser uma grande responsabilidade para quem não criar as condições para essa aproximação. E nesse ponto, eu não me vou calar.