Em Murano, ou como recordar o inesquecível

O leitor Pedro Goulart partilha a sua experiência em Itália.

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Chris Helgren/Reuters

De Murano, quero algo que me lembre dos seus lindos canais e das casas coloridas; quero algo para me lembrar do sorriso surpreendido da Andreia, quando ela percebe que a nossa viagem vai mudar totalmente.

Embarcámos. Agora observamos, enquanto avançamos pela lagoa, como aquela pequena ilha surge na nossa vista, enquanto Veneza se afasta atrás de nós. A apenas meia hora da costa, Murano é como um brilho reluzente do continente.

Em exposição no Museu do Vidro de Murano vi objectos que foram reflectindo a luz da água há milhões de anos. Essas peças frágeis sobreviveram às guerras e ao tempo, e ainda hoje brilham e são admiradas por milhares de visitantes. Lojas de vidro estendem-se passada uma curva no canal, cada uma com a sua própria personalidade: uma que está dentro de uma espécie de gruta, uma muito iluminada galeria de belíssima arte, outra que contém uma grande colecção de borboletas de vidro prestes a levantar voo.

Portas abertas em oficinas, homens de avental acenando a visitantes e a fazerem demonstrações de sopro de vidro. Escolho aleatoriamente, pelo jeito, pelo simples facto de uma loja em que as chávenas de chá são todas completamente diferentes e únicas me chamar a atenção. "Este aqui?", pergunto à Andreia, que parou de repente diante de uma exposição de vasos vermelhos com flores de vidro da cor de seus próprios olhos azuis. "Este aqui", concordou.

Um artista leva uma bola de cor fundida, vermelha e amarela, e gira-a para a extremidade de um tubo de metal. Com sopros de ar suave, molda, movendo-se rapidamente e transformando fogo em vidro. Vejo-o fazer isso de novo, deliciado com aquele espectáculo de prestigiação.

Em cada esquina há uma loja de candelabros, taças, vasos, molduras construídas de missangas derretidas em conjunto. Pode ser desorientante, até se perceber o grande segredo de Murano: o nosso próprio tesouro, aquilo de que precisamos toda a nossa vida sem o sabermos realmente, está aqui, algures neste lugar.

Comprei uma estatueta de vidro soprado, um coração feito de um fino tubo vermelho e, no centro, uma mulher de vidro num baloiço. Para mim, é como um retrato da minha "companheira de viagens", uma versão brilhante do seu sorriso, tal como ela compra um vaso de vidro em que nunca irá colocar flores, porque isso é um exagero: a magnífica mistura de cores do próprio vaso é suficiente.

Deixei assim Murano, a ilha — na verdade, um arquipélago de sete ilhotas ligadas por pontes — que todos devem visitar, se um dia forem a Veneza. Levo comigo recordações de uma viagem inesquecível, que ainda hoje estão na minha secretária, onde me sento todos os dias e recordo os dois melhores dias da minha vida.

Pedro Goulart