Opinião

Era preciso "recrutar" um milhão de jovens mais o Papa?

Cinquenta hectares de terreno estarão destinados à Jornada Mundial de Juventude de 2022 em Lisboa, com promessas de uma requalificação da zona ribeirinha entre os municípios de Lisboa e Loures, incluindo o rio Trancão.

O anúncio da Jornada Mundial de Juventude (JMJ) de 2022 em Lisboa trouxe à boleia o segundo anúncio de que a zona ribeirinha e de fronteira entre os municípios de Lisboa e Loures, incluindo o Trancão, será finalmente reabilitada. Cinquenta hectares de terreno serão afectos ao evento, sob a promessa de construção de espaços verdes e de equipamentos, estes ainda a definir em concreto.

A Expo-98, nos anos de 1990, entrou pela zona oriental de Lisboa e deu boleia a um muito valioso negócio imobiliário que rendeu por muitos anos, mas aparentemente não foi suficiente para os autarcas considerarem que a obra de reabilitação devia ser levada até ao fim de modo a regenerar toda a zona, especialmente o poluído rio Trancão, vizinho “deslocado” na fotografia do Parque das Nações. E assim se considerou também que os terrenos contaminados que ficaram dos silos da Petrogal um dia se resolveriam por si.

Até que chegou a oportunidade da JMJ. “Recrutam-se” um a dois milhões de jovens, tantos quantos se prevê que venham às celebrações com o Papa, também “recrutado”, e faz-se uma obra de requalificação urbana cujos autarcas responsáveis consideraram até hoje não ser suficientemente urgente e importante para a qualidade de vida da sua população – sendo cegos aos custos sociais e ambientais acumulados até agora. Ser-se sensível à grande questão das gerações actuais, que é o clima, e ao mesmo tempo indiferente a condições ambientais de base de um território não promete bons resultados.

Nas previsões oficiais, da área total destinada ao evento apenas 20 hectares poderão ter construção. Olhando para o frenesim imobiliário que se sucedeu à Expo, o futuro dirá se o mesmo não acabará por se verificar com os terrenos que pareciam esquecidos. Se assim for, os jovens e o Papa foram também "recrutados", sem o saberem, para fazer despertar uma nova bolsa de negócios, tão à revelia do que tem pregado este Papa da periferia.