Opinião

Por que é importante contar aves?

A Europa perdeu 421 milhões de aves num período de 30 anos, entre 1980 e 2009. Em Abril, a Universidade de Évora vai acolher uma das mais prestigiadas reuniões científicas sobre estes animais com elevada importância para a sociedade.

Em 2018 celebrou-se o centenário do Tratado sobre Aves Migradoras (MBTA), uma lei federal dos Estados Unidos destinada a proteger as aves migratórias na América do Norte. Foi implementado em 1918 após a extinção do pombo-passageiro, um columbídeo que nas primeiras décadas do século XIX terá sido a ave mais abundante em todo o mundo, com uma população estimada em 3000 a 5000 milhões de indivíduos! Triste fado: em 1900 já não existiam animais em estado selvagem e a 1 de Setembro de 1914, Martha, o último exemplar em cativeiro no Jardim Zoológico de Cincinnati, foi encontrada morta na sua gaiola.

A tragédia do pombo-passageiro é uma marca indelével no livro das extinções resultantes da acção do homem. E ilustra de um modo aterrador como num lapso de tempo equivalente a uma vida humana uma espécie tão abundante pode desaparecer da face da Terra.

O relevo do MBTA não se limita à América do Norte. Posteriores emendas produziram acordos entre os Estados Unidos e o México (1936), Japão (1972) e URSS (1976), mas acima de tudo o tratado realça a necessidade em considerar a conservação da natureza para lá das fronteiras dos Estados. Aproveitando a ocasião do centenário, quatro proeminentes organizações internacionais focadas na conservação de aves selvagens (National Audubon Society, National Geographic, BirdLife International e Cornell Lab of Ornithology) criaram em 2018 a iniciativa “O Ano das Aves” com um objectivo: utilizar a atractividade do grupo das aves para manter o problema da perda de biodiversidade nas agendas mediáticas e impulsionar a prática da conservação no século XXI.

Em jeito de continuidade da celebração, Portugal acolherá em Abril de 2019 na Universidade de Évora a 21ª Conferência do European Bird Census Council (EBCC), uma das mais antigas e prestigiadas reuniões científicas sobre um grupo animal com uma elevada importância para a sociedade. A Bird Numbers 2019, cujo tema é “contar aves conta”, mostrará as razões que justificam o valor das aves no nosso passado, presente e futuro.

O conhecimento científico sobre as aves é ímpar e marcadamente superior ao que detemos sobre outros grupos animais. Porquê? Em parte, porque a nossa relação com as aves é milenar, transpõe contextos civilizacionais e elas ocorrem em todos os ambientes, incluindo meios urbanos. Ademais, vêem-se e ouvem-se com relativa facilidade e, sobretudo, voam! E estes três atributos sempre cativaram os humanos, que viram nas aves símbolos de poder (a majestade das águias), de religiosidade (no Antigo Egipto, Bennu, retratado como uma garça, representava a ressurreição) e de abundante inspiração artística na pintura, literatura e na música. Na verdade, vivemos com as aves mesmo que não pensemos muito nisso…

As aves são multidimensionais na expressão do seu valor. Constituem um património natural com um registo firme em diversas culturas e são um trampolim para o saber científico em vários domínios. Focar-me-ei neste último aspecto, em especial na utilização das aves como indicadores da saúde do ambiente.

Parte do conhecimento sobre o estado do ambiente advém do trabalho voluntário de cidadãos em programas de monitorização de aves. Na Europa, o projecto mais significativo é o Programa Pan-Europeu de Monitorização de Aves Comuns (conhecido pela sigla PECBMS), coordenado pelo EBCC. Desde há décadas que durante a Primavera cerca de 12 mil voluntários palmilham trajectos pré-estabelecidos em habitats diversos de 28 países, e registam todas as aves que detectam tirando partido da sua grande acessibilidade. Este volume gigantesco de informação é validado por coordenadores nacionais e permite estabelecer tendências populacionais para várias espécies comuns. Sublinhando a importância e robustez científica do programa, o Eurostat tem um indicador estrutural para o ambiente baseado nos seus resultados: o índice de aves comuns.

PÚBLICO -
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Picanço-barreteiro, que nidifica no Sul da Europa e cujas populações apresentam hoje um declínio moderado em Espanha e Portugal Diogo Oliveira

O que são “espécies comuns” e como podem elas permitir avaliar a saúde ambiental dos campos da Europa? Vamos por partes: o atributo “comum” dado a uma espécie significa (1) que tem uma vasta distribuição geográfica, (2) que normalmente é numerosa e (3) que tem um papel de relevo no funcionamento dos ecossistemas. A conjugação destas características diz-nos que ligeiros declínios nas suas abundâncias podem ser suficientes para representarem grandes perdas de biomassa que irão afectar o funcionamento dos ecossistemas e ter impactos no bem-estar humano. E quando os decréscimos são acentuados, os problemas podem ser graves.

Os declínios populacionais das aves na Europa são uma realidade muito vincada nas espécies comuns associadas aos meios agrícolas. A base de dados do programa PECBMS (1980-2015) mostra que, das 39 espécies incluídas neste grupo, 61% estão em declínio, 15% exibem um aumento, 15% permanecem estáveis e 9% apresentam uma tendência incerta, segundo o EBCC. Em 2015, num estudo publicado na revista Ecology Letters, Richard Inger (Universidade de Exeter) e colegas analisaram a base de dados do PECBMS num período de 30 anos e mostraram que a Europa perdeu 421 milhões de aves entre 1980 e 2009!

Esta perda de biodiversidade perspectiva uma calamidade que traz à memória o incontornável Silent Spring, publicado em 1962 pela zoóloga Rachel Carson e que alertou para os efeitos negativos do uso de DDT nos campos agrícolas. Sabemos que os tempos são outros e as dificuldades serão agora porventura maiores. Mas o conhecimento actualmente existente pode ajudar-nos a evitar o pior.

Investigador do Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas da Universidade de Évora, coordenador do LabOr-Laboratório de Ornitologia, delegado nacional do European Bird Census Council e um dos organizadores da conferência Bird Numbers 2019