Catalães não aceitam ofertas de Sánchez e sobrevivência do Governo está em risco

Partidos independentistas catalães devem chumbar o Orçamento, que é apresentado segunda-feira. A direita está unida no objectivo de derrubar Sánchez, mas diverge quanto ao tom do discurso.

Orçamento é entregue na segunda-feira e deverá começar a ser votado dois dias depois
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Orçamento é entregue na segunda-feira e deverá começar a ser votado dois dias depois EPA/SEBASTIAN MARISCAL

O Governo do socialista Pedro Sánchez pode ter os dias contados, e o cenário de eleições antecipadas é cada vez mais sólido em Espanha. Nesta sexta-feira, os catalães rejeitaram a proposta do executivo sobre o processo independentista, o que significa que Sánchez não terá os votos destes partidos para aprovar o Orçamento deste ano - o que pode fazer cair o Governo.

Fazer aprovar o Orçamento do Estado já era uma missão difícil para o Governo do PSOE, pois depende dos votos favoráveis dos partidos independentistas catalães. Agora, sem acordo sobre uma forma de resolver a crise provocada pelo processo independentista na Catalunha, essa tarefa parece impossível.

A vice-presidente do Governo e ministra da Igualdade, Carmen Calvo, revelou que os partidos independentistas rejeitaram as propostas apresentadas pelo executivo e, dessa forma, as negociações caíram. “Este Governo tomou uma decisão firme de estabelecer todas as pontes possíveis, mas, neste momento, o quadro que traçámos não é aceite pelos partidos independentistas”, disse Calvo, numa conferência de imprensa depois de uma reunião do Conselho de Ministros.

Esta semana, o Governo espanhol aceitou a exigência dos partidos que representam a Generalitat no Parlamento nacional, a Esquerda Republicana (ERC) e o Partido Democrata Europeu Catalão (PDeCAT), sobre a formação de uma mesa de negociações composta pelos partidos – que funcionaria em paralelo ao canal de diálogo entre o Governo e a Generalitat –, e a presença de uma figura neutra para acompanhar as conversações. Do lado dos independentistas falava-se, em relação a esta figura, de um “mediador” – exigência antiga do governo catalão, pois interpreta esta questão como se de um conflito internacional se tratasse – e da parte da Moncloa usava-se a expressão “relator”.

Esta concessão de Madrid provocou uma tempestade política. Pablo Casado, líder do Partido Popular (PP, direita), acusou Sánchez de cometer “alta traição”. O Cidadãos, o outro partido de direita da oposição, manteve um discurso mais suave mas juntou-se aos populares na convocação de uma manifestação em Madrid, no domingo, a exigir a queda do Governo e a marcação de eleições.

Mas a revolta chegou também ao próprio PSOE. Vários líderes regionais socialistas e deputados criticaram a concessão de Sánchez.

Mesmo com a cedência de Sánchez aos independentistas, a ERC, que já tinha anunciado o voto contra o Orçamento se as suas exigências não fossem atendidas, e o PDeCAT, não garantiram o voto favorável.

Agora, confirmou-se que estes partidos não aceitaram a proposta do Governo, pois querem que se vá mais longe, mantendo a exigência sobre a realização de um referendo à independência da Catalunha. O Governo, por sua vez, não vai apresentar mais propostas e dá por finalizadas as negociações.

“Isto para nós não é aceitável. O Governo nunca irá além daquilo que diz  a Constituição”, explicou Calvo.

A porta-voz do governo catalão, Elsa Artadi, acusou Madrid de ter cedido às pressões do "nacionalismo espanhol, da direita e da ultra-direita". "Nós não nos levantámos da mesa [das negociações] nem o faremos. Esperamos que o Governo regresse rapidamente", acrescentou.

O Orçamento é entregue na segunda-feira ao Congresso espanhol e espera-se que comece a ser votado na generalidade no dia 13 de Fevereiro (quarta-feira). Neste contexto, e partindo da hipótese que a direita votará contra, o documento não chegará à votação na especialidade e o cenário mais provável é o de eleições antecipadas.

Mas há quem duvide deste rompimento. "Não se pode acreditar neles. São o Governo da mentira", atirou Carlos Floriano, porta-voz do grupo parlamentar do PP. 

Já Pedro J. Ramírez, director do jornal online El Español, diz que "nem o Governo nem a Generalitat romperam nada". "Ajudam-se mutuamente para superar o pulso de domingo nas ruas. Na segunda-feira o baile será retomado", escreveu no Twitter, sugerindo que isto serve apenas para desmobilizar as pessoas nas manifestações convocadas pela direita, sendo ainda possível os independentistas aprovarem o Orçamento.

Direita dividida no tom

Depois das concessões aos independentistas anunciadas pelo Governo, a direita, representada no parlamento pelo PP e Cidadãos, uniu-se no objectivo comum de fazer cair o Governo para convocar eleições o mais rápido possível. Mas o tom do discurso adoptado por Casado fez surgir as divergências entre os dois partidos.

O radicalismo manifestado pelo líder do PP, que causou desconforto dentro do próprio partido, segundo noticiam os media espanhóis, fez com que o Cidadãos se queira demarcar deste discurso.

Numa entrevista à agência Efe na quinta-feira, Casado comparou a actuação do governo catalão com a da ETA, organização terrorista nacionalista basca: “A agenda a que estamos a assistir na Catalunha é a agenda da ETA, ou seja, a agenda do nacionalismo que se alia com a esquerda.”

Do lado do Cidadãos, esta posição foi interpretada como uma radicalização no discurso com o objectivo de ir buscar votos ao partido de extrema-direita. “Derrapam e começam logo a fazer campanha e tudo o que puderem para tentar reduzir o espaço do Vox, para tentar pôr um travão no fluxo de votos que lhes foge em direcção à extrema-direita”, disse um porta-voz do Cidadãos, citado pelo El Mundo.

Para o partido de Albert Rivera, o importante é organizar a manifestação de domingo “sem siglas e sem ideologias”, tornando-a num movimento cívico e não ideológico.