Crítica

A vida doméstica

Rua Katalin é o segundo livro de Magda Szabó. Um romance sobre a vulnerabilidade da memória e a natureza ilusória do tempo, tendo como pano de fundo acontecimentos sombrios da História da Europa.

Magda Szabó escreveu um livro sobre a vulnerabilidade e a maleabilidade da memória, e  sobre a natureza ilusória do tempo
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Magda Szabó escreveu um livro sobre a vulnerabilidade e a maleabilidade da memória, e sobre a natureza ilusória do tempo DR

Magda Szabó (1917 — 2007) é um dos nomes mais importantes da literatura húngara. Logo a seguir à Segunda Grande Guerra publicou dois livros de poesia, distinguidos com um importante prémio, mas o partido comunista húngaro declarou-a “inimiga do Estado” por ela não aceitar o estilo do Realismo Social imposto pelo regime — ficou impedida de publicar durante os dez anos seguintes. Mas foi só nos anos 1990 que os seus livros começaram a ser traduzidos — com bastante reconhecimento da crítica e do público.

O romance Rua Katalin (originalmente publicado em 1969) é o segundo livro de Magda Szabó traduzido para português — depois de A Porta (Cavalo de Ferro, 2017), considerado por muitos a sua obra-prima. Em Rua Katalin cruzam-se as histórias de três famílias — talvez seja melhor escrever: de quatro crianças de três famílias — que habitavam casas contíguas na rua que titula o livro, situada em Budapeste, junto ao rio Danúbio. Brincam e crescem todos juntos, três raparigas e um rapaz, até que a vida lhes põe pela frente acontecimentos sombrios na História da Europa, e da Hungria em particular. A acção narrada decorre entre os anos de 1934 e de 1968, em Budapeste. Depois da guerra, os habitantes da rua Katalin são obrigados a mudarem-se para a outra margem do rio e realojados em edifícios novos (aos quais nenhum se conseguiu adaptar ou afeiçoar), pois as suas antigas casas vão ser reabilitadas para servirem para um centro social. “Através das janelas da casa nova, via-se a antiga, cuja fachada ficara entaipada por andaimes durante meses, enquanto era remodelada juntamente com os prédios vizinhos. A um habitante que lá tivesse passado a infância, havia de parecer alguém que, por raiva ou simples brincadeira, não retirara a máscara findo o Carnaval.”

Magda Szabó escreveu um livro sobre a vulnerabilidade e a maleabilidade da memória, e também sobre a natureza ilusória do tempo. Ao colocar numa espécie de centro narrativo (que se deslocaliza sucessivamente) um acontecimento chave — o assassinato por um soldado alemão de uma das crianças, Henriett (judia), que uma outra família queria esconder e falhou — ela centra nesse trauma o ponto a partir do qual faz irradiar toda a nebulosidade, nostalgia e estranheza que preenchem o livro. Magda Szabó parece, desta maneira, querer explorar os efeitos desse acontecimento culpabilizante através dos apagamentos, das lacunas na memória, pois como esta também a narrativa não é linear nos acontecimentos. Com isto, a autora faz uma profunda reflexão sobre a natureza daquilo que guardamos e daquilo que esquecemos.

Rua Katalin é um romance habitado por fantasmas desde o começo: quando Henriette atravessa o tempo, visita a casa, observa os amigos — esses mesmos que vivem assombrados com a sua memória. Os mortos não morreram, aquilo que esteve vivo parece indestrutível.

Com o recurso à vida doméstica, aos gestos diários dentro de casa, aos hábitos familiares, Magda Szabó vai escrevendo uma obra complexa que se pode chamar “política”, no entanto sem nunca trazer para a boca de cena os actores desses acontecimentos que marcaram a História húngara: o leitor sente apenas a queda dos estilhaços nas “trincheiras” onde as personagens vivem e se acotovelam com o passado, e percebe como esses estilhaços podem ser (foram) trágicos.

Logo a abrir o romance, Szabó avisa que o processo de envelhecimento não é como o descrevem os escritores, e muito menos como dizem os médicos. E acrescenta que os habitantes da rua Katalin não estavam preparados para “a luz ofuscante que a velhice lançaria sobre o túnel comprido que haviam percorrido quase inconscientemente durante as primeiras décadas das suas vidas” — as memórias e os medos foram-se reorganizando ao longo dos anos, os seus juízos e sistemas de valores sofreram alterações durante a vida. Com estes pensamentos quase nostálgicos, o leitor acompanha a tragicidade daqueles que se interrogam sobre como viver quando são assombrados pela memória de tudo o que perderam — que numa metáfora, as casas entaipadas da rua Katalin, está tudo ali diante deles, mas de forma intangível, do outro lado do Danúbio, esse rio que percorre a História da Europa Central, como tão bem notou Claudio Magris.