Crítica

O pesar da Humanidade na terra

No Museu Berardo, Purple mostra-nos, em tom de lamento, o que fizemos a este lar a que chamamos Terra.

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Purple verte um olhar terno (porque melancólico) e alertado sobre o passado, inquieto, mas não apocalíptico
<i>Purple</i> verte um olhar terno (porque melancólico) e alertado sobre o passado, inquieto, mas não apocalíptico
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Purple verte um olhar terno (porque melancólico) e alertado sobre o passado, inquieto, mas não apocalíptico
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Melodias folk saem de Purple, a instalação de seis ecrãs do artista John Akromfah (Accra, Gana, 1957), abrindo e percorrendo um espaço no Museu Berardo. São cantadas por vozes, cujos sujeitos aparecem em imagens a preto e branco. Homens, mulheres, provavelmente, nos anos 50 e 60 do século passado, a interpretaem  e dançarem música popular. Não são as únicas imagens que ali se podem ver. Nos ecrãs, sem qualquer aviso ou sentido linear, aleatórias, eis que aparecem outras: chaminés de fábricas, silos industriais, torres de transmissão de electricidade, paisagens naturais, o mar, o gelo, nuvens de fumo, pessoas nas ruas a caminho do trabalho, edifícios. De violência e morte, candura e alegria. Todas estas imagens existem ali, aparecem ali em relação umas com as outras, mesmo quando se apagam, momentaneamente, no fundo de cor púrpura. Parece ser essa a intenção do artista: que nunca deixemos de as ver, de as olhar em relação com as outras. Numa experiência, a experiência de um espanto admirativo face ao que elas mostram: o mundo que fizemos e o que fizemos ao lugar que garante a existência desse mesmo mundo, que tornámos, com mais ou menos responsabilidade, o nosso lar: o planeta Terra.

PÚBLICO -
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Co-fundador do Black Audio Film Collective, artista e cineasta, negro e britânico, John Akromfah não é um nome estranho ao contexto português. Em 2011, o espaço Carpe Diem apresentou Mnemosyne, no programa O Barulhamento do Mundo, organizado pelo África.cont, e em 2015 integrou a colectiva Ghost, com a curadoria de Paul Godwin, no espaço Hangar, em Lisboa. Um dos seus mais emblemáticos trabalhos tem o título de Handsworth Songs (1986) e lida com os motins de Handsworth e Londres em 1985, assinalando a abordagem que, em termos temáticos e formais, tem a vinda a orientar o seu trabalho: um olhar que reconstrói as narrativas esquecidas das diásporas e identidades africanas (e não só), recorrendo às possibilidade da montagem e da justaposição das imagens, explorando uma proximidade entre estas, o modo como se associam e se distendem, como se sobrepõem. Um olhar que é, também, um tom ou, antes, um acorde, um acorde solene, feito de muitos outros acordes. Akromfah não prescreve, não aponta. Medita, lembra, mostra, trazendo a esse gesto a literatura ocidental, a música afro-inglesa, o cinema europeu e o arquivo da grande televisão pública britânica, reanimando os seus documentos, as suas histórias, os seus fantasmas. Sem condescendência ou excessiva distância analítica, colocando no mesmo plano preocupações formais e artísticas e uma sensibilidade à emoção. Composto de cinco momentos e um epílogo anunciados em intervalos púrpura (no qual o espectador lerá o intertítulo O Earth, What Changes Hast Thou Seen!, retirado de um poema de Alfred Lord Tennyson), Purple vê-se e escuta-se como um lamento acerca do padecer a que humanidade foi sujeitando a sua casa. Sente-se um choque, um choque nas imagens dos silos, das chaminés, das nuvens de pesticidas sobre os campos, nas palavras alusivas ao envenenamento dos solos e da água, no excerto que noticia a exploração de petróleo no Alasca.

A violência do homem sobre o mundo natural e sobre si mesmo (como são impessoais e aterradoras, com as suas explosões, as imagens dos testes de automóveis à colisão), treme não apenas no documental, mas também na ficção, em excertos do filme Death of My Mother (1963) de David Storey, cuja narrativa decorre numa paisagem industrial e que encerra com o falecimento da personagem, doente de cancro. O desaparecimento de figuras assombra toda a instalação e persegue o passo do espectador, trazendo-lhe os rostos de vítimas de desastres ecológicos, de doenças provocadas pela radiação, de processos desencadeados pela tecnologia: vemo-los anónimos, crianças, mulheres, homens em fotografias sobre as quais corre a água de um regato; vestígios que à beira do esquecimento conservam uma luz, uma pungência indecifrável, resistente. O som deste regato, feito de pedras e coisas artificiais que são as imagens fotográficas, situa o espectador no espaço, fá-lo permanecer, antes de se dissolver na banda sonora elegíaca da qual vão se levantando as vozes dos cantores. E estas, por sua vez, transportarão os visitantes ao mundo que uma parte da humanidade, a partir da segunda metade do século XX, construiu, fabricou. Vemo-lo representado nos jovens que dançam (algumas provenientes de um filme que o cineasta Ken Russel produziu para a BBC), no convívio humano nas cidades, nos sinais da cultura material, nos retratos breves de uma sociedade a que se convencionou chamar de “bem-estar”. Imagens ameaçadas precisamente pelo mesmo gesto — entretanto corrompido, destemperado, num puro consumo da Terra — que as tornou possíveis. Purple verte um olhar terno (porque melancólico) e alertado sobre o passado, inquieto, mas não apocalíptico (repara-se no sentido das imagens finais); afinal, o mesmo das personagens solitárias (recorrentes nos filmes de John Akromfah) que nos contemplam e que vemos a contemplar montanhas, florestas, oceanos, superfícies geladas. Não é apenas a beleza terrível e inumana desses lugares que eles captam, mas a sua memória, memória essa que não tem de ser ameaçada pela memória das coisas humanas. Entre a melodia das canções e o som da água, espera-se que ambas possam, no futuro, partilhar o mesmo lugar.