Greve dos enfermeiros: tutela analisa denúncias de incumprimento de serviços mínimos

Hospitais estão a agendar "cirurgias de todos os doentes prioritários ao mesmo tempo", tornando muito difícil o cumprimento dos serviços mínimos. "Estão a fazer isto para nos encostar à parede", dizem enfermeiros.

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Mario Lopes Pereira

O Ministério da Saúde está a analisar as denúncias feitas pelos directores clínicos de dois centros hospitalares que afirmam que os serviços mínimos decretados para a segunda "greve cirúrgica" em curso nos blocos operatórios não estão a ser cumpridos.

Depois de o director clínico do Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUP) se ter queixado do incumprimento dos serviços mínimos na terça-feira, a directora clínica do Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV) fez o mesmo, em conferência de imprensa, nesta quarta-feira. Os casos estão ser analisados, diz apenas o gabinete da ministra da Saúde, sem adiantar mais detalhes.

A directora clínica do CHTV, Helena Pinho, especificou que na terça-feira “não foram operados sete doentes que cumpriam os serviços mínimos e hoje [quarta-feira] também não". Os dirigentes dos sindicatos que convocaram a greve retorquem que isto está a acontecer porque as administrações hospitalares estão a agendar cirurgias para todas as salas operatórias, o que na prática resulta num “boicote” à greve. Desta forma, acrescentam, dão argumentos ao Governo para que possa recorrer à requisição civil.

Com o alargamento dos serviços mínimos decretada pelo tribunal arbitral para esta segunda paralisação, é necessário abrir “praticamente” as salas todas", sublinha Helena Pinho. 

Nelson Cordeiro, do movimento "greve cirúrgica" que engendrou esta forma invulgar de protesto, diz que no seu hospital (São João) estão a ser agendadas "cirurgias de todos os doentes prioritários ao mesmo tempo", tornando muito difícil assim o cumprimento dos serviços mínimos. "Estão a fazer isto para nos encostar à parede", acusa. 

Os enfermeiros reclamam que haja três categorias (enfermeiro, enfermeiro especialista e enfermeiro director), o que o Governo aceitou, mas com um correspondente aumento das remunerações. Só para a primeira categoria, o salário base que é hoje de 1200 euros, deveria passar para cerca de 1600. Apenas para isto, seriam necessários mais de 200 milhões de euros por ano, argumentou o Governo para não aceitar esta exigência.

Os enfermeiros reclamam ainda a antecipação da idade da reforma para os 57 anos e 35 de serviço, tendo em conta o risco e a penosidade da profissão. Mas estas reivindicações podem ser "negociadas", frisa Nelson Cordeiro, assumindo que os enfermeiros estão dispostos a aceitar um aumento das remunerações faseado no tempo e que a idade da reforma seja antecipada para os 60 anos. com Lusa