Opinião

Não escreveu, não disse, mas teimam em atribuir-lhe a autoria. Porquê?

Circulam na Internet milhares de textos apócrifos atribuídos a autores célebres. Um triunfo da mediocridade, num crime imune a castigos.

É um jogo pérfido e nem sequer é novo. Mas a Internet, que também já não é nova, deu-lhe o adubo ideal e o cenário perfeito. Já leram este lindo texto de fulano? E este poema de sicrano? E esta citação, tão bela, de beltrano? Leram? Pois não são deles. Os vivos ainda se revoltam, furiosos, quando reparam. Como Gabriel García Márquez, quando insistentemente lhe atribuíam a autoria de uma “carta de despedida” que muito circulou na net e provocou comentários emocionados e tristes. O escritor estaria a morrer, coitado, e a despedir-se do mundo. Só que o texto era tão bizarro que ele (hospitalizado nesse ano de 1999 em que surgiu tal texto, por complicações que viriam a revelar um cancro linfático que mais tarde superou, morrendo 15 anos depois, em 2014) afirmou que “mais valia morrer com um cancro linfático do que ter escrito aquilo”. Soube-se depois que o texto, intitulado La Marioneta, foi na verdade escrito mesmo para uma marioneta pelo humorista e ventríloquo mexicano Johnny Welch, para o espectáculo El Mofles.

Como foi, então, parar a pretensa autoria a García Márquez? Do mesmo modo que, às centenas ou até aos milhares, surgem na Internet textos apócrifos atribuídos a autores célebres, obrigando (quem se dá a tal trabalho) a um complicado processo de busca e confirmação, para evitar o logro. Sophia de Mello Breyner, como o PÚBLICO noticiou há dias, é uma das vítimas de tais enganos. Há um poema medíocre chamado O mar dos meus olhos que, usando palavras e imagens de outros escritos por ela, se tornou viral na rede como se fosse de Sophia. Está em portais com marca de fiabilidade e já foi traduzido para alemão. Há até um site, Nanoterapia, que o coloca à cabeça na lista dos 15 melhores poemas de Sophia!

Um desvario sem barreiras, tal como o seu hóspede sem fronteira ou limite (excepto nas ditaduras, mas essa é outra conversa), a Internet. Como se resolve isto, na era do “copia e cola”? Com sabedoria. Um leitor de García Márquez não o vê autor de La Marioneta, tal como quem leia habitualmente Sophia passará ao lado das lamechices que povoam o tal Mar onde ela jamais mergulhou. Porque há, nestes textos apócrifos, uma bitola comum: o uso do choradinho, da frase enfática, do gongorismo despropositado; quem os escreve quer atingir um alvo fácil, o gosto popular mais básico, sem lhe interessar particularmente o autor ou autora vítima da fraude. Mas se assinassem com os seus nomes, desconhecidos, quem os leria? É mais fácil assinar Sophia, Pessoa, Drummond, Neruda.

Sim, porque todos eles já “escreveram” coisas que jamais imaginaram ou viram. Andam por aí, pela Internet, com o falso “carimbo” da sua identidade. Um jornalista brasileiro, Emílio Pacheco, dedica-se a descobrir textos apócrifos. Em 2006, escreveu: “Os textos apócrifos da Internet é um dos temas recorrentes neste blog. No entanto, nunca publiquei aqui a lista de ‘falsos Quintanas’ que sempre divulgo no Orkut, tanto na comunidade ‘O verdadeiro Mário Quintana’ como em qualquer outra em que o assunto vier à baila. Como aqui não existe a limitação de tamanho de mensagem do Orkut, terei espaço para fazer mais comentários. Atenção: os textos que serão citados abaixo não são de Mário Quintana! Não importa onde você os tenha visto com a autoria atribuída ao poeta.” E vinha, a seguir, uma longa lista. Mas há mais, para citar o exemplo do Brasil. Um outro site, no capítulo “Falsas autorias”, publica uma longa lista onde se incluem textos “bastantes disseminados” erradamente atribuídos: de Bruna Lombardi atribuído a Clarice Lispector, de Artur da Távola atribuído a Carlos Drummond de Andrade, de Fernando Sabino atribuído a Fernando Pessoa, de Eduardo Alves da Costa atribuído a Maiakovski, de Martha Medeiros atribuído a Pablo Neruda ou de Helenita Scherma atribuído a Cecília Meireles. Há mais, muitos mais. E idêntico fenómeno existirá noutros idiomas.

Os mortos não podem defender-se, os vivos indignam-se (Eduardo Prado Coelho lutou, durante muito tempo, contra um texto publicado online que insistiam em atribuir-lhe). Em 2009, a Folha de São Paulo publicou um texto reflectindo reacções de repúdio de “escritores consagrados” contra textos falsos a circular na rede. Luís Fernando Veríssimo (hoje com 82 anos) recebeu até um telefonema de uma senhora a dizer-lhe que odiava tudo o que lia dele até ver, na net, “um texto que adorara”. “Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece.” Ora o tal poema “dele” era Quase, escrito por uma estudante de Florianópolis, e, segundo a Folha, chegou até a ser traduzido e publicado em França numa colectânea de escritores brasileiros.

o humorista Millôr Fernandes (1923-2012), à data ainda bem vivo, comentou: “É isso que pensam de mim?! Quer dizer que acham que eu escreveria uma babaquice dessas?!” O problema é mesmo esse: acham. E até ficam tristes quando percebem que não escreve tão mal. Assim vai triunfando a mediocridade, à custa de um crime imune a castigos.