Crítica

A miséria vista do drone

Exposição compungida da miséria e da infelicidade, a história como mero esquema, o olhar da realizadora como mero artifício — quer dizer, Cafarnaum é puro espectáculo.

Foto

O filme com que se descobriu a libanesa Nadine Labaki (Caramelo, de 2007) era uma obra duma gentileza quase anódina a seguir umas quantas mulheres da classe média cristã de Beirute duma forma que permitia, de facto, que se apreendesse um pouco do pulsar da cidade, uma cidade ainda com poucas imagens no espírito do espectador comum europeu para além daquelas relacionadas com a violência das guerras dos anos 70 e 80. À segunda tentantiva, E Agora, Onde Vamos? (2011), Labaki já começou a ceder à emergência do “tema”, ecoando de forma mais directa a história contemporânea do Líbano e vizinhança - num filme mais forçado, mais esquemático, bem menos espontâneo. Mas é com Cafarnaum, no entanto bastante aclamado (prémio do Júri em Cannes, nomeação para o Óscar do melhor filme em língua estrangeira), que se atinge o ponto mais baixo: só há “tema”, exploração (quase exploitation) do “tema”, e só se procura do espectador uma reacção, emocional, ao “tema”.

E como evitar uma reacção emocional se o “tema” é a miséria, e a miséria dos bairros mais pobres de Beirute, a miséria das crianças que vivem aí, a miséria dos refugiados e imigrantes clandestinos? Cafarnaum vive da chantagem emocional, nem por isso muito sofisticada - a não ser, claro, tecnologicamente: aqueles planos aéreos sobre um bairro de lata de Beirute, possivelmente tomados de um drone, não representam mais do que a miséria vista pelos olhos do novo-riquismo tecnológico. É obsceno, ou lá perto, mas resume o programa do filme. Que, no seu olhar sobre uma infância difícil, até começa por uma questão “filosófica” quase digna dos olhares sobre a infância no cinema iraniano (que continua a ser aquele que, contemporaneamente, nos dá as mais complexas e interpeladores “crianças no cinema”), com o miudo que está no tribunal a processar os pais “por ter nascido”. Mas esse vago absurdo é rapidamente esquecido, trocado por um flashback que enfileira as razões da criança, um rosário de desgraças que até se podia aguentar enquanto delírio melodramático mas que é insuportavelmente sublinhado enquanto enunciado “realista”. Nalguns momentos sente-se que o filme podia respirar - os encontros com personagens excêntricas, como o “Homem-Barata”, ou certos planos de rua, onde se pressente movimento e vida - mas nunca parece que Labaki se aperceba, sequer, disso. O filme arrasta-se na sua exposição compungida da miséria e da infelicidade, a um ponto em que rapidamente se deixa de acreditar: as personagens tornam-se meros veículos, a história torna-se mero esquema, o olhar de Labaki torna-se mero artifício - quer dizer, puro espectáculo. Deste lado do ecrã, o espectador supõe-se que se condoa, como fazem as pessoas de bem perante a miséria alheia. E é só isto.