Reportagem

Seixal: “Dizia que se não ficasse com a filha a mãe também não ficava”

Pedro e Sandra estavam “a lutar pela guarda da filha”, conta um amigo. Após a separação, ela chegou a queixar-se à polícia, que considerou que havia “elevado risco” no conflito entre os dois. O Tribunal do Seixal abriu um inquérito. Arquivou-o depois de ela ter desistido. Nesta terça-feira Pedro e a menina de dois anos foram encontrados mortos.

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À varanda do apartamento a roupa ainda está estendida e o vento balança-a. Vê-se que pelo menos duas divisões terão ar condicionado. Nada parece fugir da normalidade neste bairro de classe média, em Cruz de Pau, Seixal. É, porém, preciso entrar no prédio e subir ao 1.º andar para ver sinais de crime. No patamar há pequenos vestígios de sangue. Não são completamente visíveis entre os raios escuros do mármore, mas consegue-se perceber que as pequenas manchas secaram. Dentro do apartamento da tragédia estão técnicas do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) que chegaram por volta das 12h30 e sairão uma hora depois. A porta está fechada e o acesso é restrito. “Não podemos prestar declarações”, dizem. 

Do interior da casa onde, na segunda-feira, Helena C., com cerca de 60 anos, foi assassinada sai um cheiro a detergente. Adivinha-se que alguém esteja a limpar o sangue depois das facadas que Pedro H. terá dado à avó da sua filha.

No prédio ouviram-se gritos. Eram entre as 7h30 e 8h, contou ao PÚBLICO esta terça-feira, Bárbara Teixeira, de 21 anos, vizinha do andar de cima. Ela e a família estavam a dormir, acordaram com “um estrondo”. E depois ouviu-se “um, dois gritos”. Abriu a porta da rua, foi ao patamar. “O homem sai a correr, desce. Foi muito rápido.”

A mãe de Bárbara garante que chegou a ver Pedro H., que conhecia, com vestígios de sangue nos sapatos. “E a gente viu que havia sangue dentro de casa”, acrescentou. Chamaram o INEM. Pedro arrancou no carro com a filha sentada ao lado. A polícia esteve à procura dele e da criança durante todo o dia e toda a noite.

Cruzava-se nas escadas regularmente com Sandra C., a única filha de Helena e ex-mulher de Pedro. Depois de se separarem, Sandra e a filha, Lara, de 2 anos, mudaram-se para ali, conta a vizinha. Não é claro desde quando ali estavam, porque Sandra tem a sua própria casa, dizem testemunhas.

O principal suspeito do crime, Pedro, na casa dos 30 anos, foi encontrado sem vida a mais de 200 quilómetros em Castanheira de Pêra, no dia a seguir a este crime, nesta terça-feira. Horas antes, pelas 8h30, o INEM tinha sido alertado para a morte da sua filha, encontrada no carro de um parque de estacionamento em frente à Escola Básica e Secundária João de Barros, em Corroios – terá sido o próprio Pedro a fazer a chamada. É ele também o principal suspeito de ser o autor do duplo homicídio.

Nas ruas, especula-se. O que terá levado um pai a matar a filha e a sogra?

Caso arquivado por MP

Sabe-se que o casal, que vivera em união de facto e estava separado, tinha um processo de regulação parental no Tribunal de Família e Menores por causa de uma disputa quanto ao tempo com que cada um ficava com a filha. Estava marcada uma sessão para segunda-feira, dia da tragédia. A criança nunca tinha sido sinalizada pelo sistema de protecção de crianças e jovens como estando em perigo.

Mas havia antecedentes. Sandra, com cerca de 30 anos, chegou a apresentar, em 2017, queixa à PSP contra Pedro. A polícia classificou o caso como sendo de violência doméstica, sob a forma de violência psicológica/emocional e violência social. Os agentes consideraram-no como “de risco elevado” e foi atribuído um plano de segurança à vítima.

A PSP pediu mesmo que houvesse uma ordem para que Pedro fosse proibido de permanecer na habitação e de contactar com a vítima. Mas o processo acabou por dar origem apenas a um inquérito por crime de coacção e ameaça. Em Janeiro do ano passado, foi arquivado “por desistência de queixa da ofendida”, de acordo com a Procuradoria-Geral da República. O MP não esclareceu por que razão o processo não foi classificado como violência doméstica, um crime público, o que teria permitido a continuação do processo. 

À porta do prédio da tragédia, Tiago Simões, marido de uma amiga de Sandra C., comenta: “Ele era bom pai, conhecia-o pessoalmente. Ninguém diria que ele ia fazer uma coisa dessas à filha.”

À medida que a conversa avança, percebe-se que a normalidade que Tiago Simões descreve na relação de Pedro com os sogros é relativa. Tiago Simões, que conhece Sandra há cerca de quatro ou cinco anos, diz que “eles estavam a lutar pela guarda da filha”. Mais: “Ele dizia que, se não ficasse com a filha ela também não ficava. Já tinha ameaçado, várias vezes, a dizer que as matava.”

Esta testemunha conta ainda que Sandra tinha recorrido da decisão judicial, porque ele “não tinha condições para ter a bebé” com ele. “Vivia num apartamento com outras pessoas”, “estava sempre em lugar incerto”, não tinha emprego. Tiago não sabe especificar que trabalho teve Pedro antes. Já Sandra, diz, trabalha num banco.

O amigo confirma que ela “era vítima de violência verbal, de ameaças”. Não consegue precisar exactamente quando é que Pedro saiu de casa de Sandra, se há um ano ou há dois. “Ela pedia para ele sair, mas ele dizia que só saía se a filha fosse com ele. Ela foi aguentando muito tempo.”

Rosas no café

No dia dos acontecimentos da manhã de segunda-feira o marido de Helena e pai de Sandra, o “senhor Rui”, abriu como normalmente a pastelaria de que é dono, contam pessoas das lojas “vizinhas” e clientes que habitualmente lá vão. Até saber do sucedido.

Nas grades da porta fechada da pastelaria Orly, em Cruz de Pau/Amora, estavam nesta terça-feira rosas agarradas à grade. É um café comum, com um letreiro vermelho à porta, que abre pelas seis da manhã. A rua é movimentada, com comércio de todo o tipo. Curiosos e jornalistas concentravam-se à porta.

Dentro desse prédio Lucinda Mira, 74 anos, fala com ar pesado, mãos no peito e voz calma. Frequentava diariamente o café, havia muitos anos. “Estamos muito desorientados, isto é uma coisa fora do normal. A gente acha que isto só acontece em bairros de lata.” Recorda-se do casal como “pessoas normais”. “[A filha, Sandra,] até foi ver-me ao hospital”, comenta.

“Quem vê caras não vê corações, ele parecia uma pessoa simpática. No início davam-se todos bem.” O pai de Sandra, Rui, é do Algarve e a mulher, Helena, do Norte, diz. “Em Agosto fechavam o mês todo para férias."

Alunos dispensados

O Seixal é, de resto, por estes dias, palco para muitas televisões. Logo pela manhã, nesta terça-feira, junto à Escola Secundária João de Barros, que está em obras, a polícia colocara um perímetro de segurança à volta do parque de estacionamento. Encontrara o corpo da filha de Sandra e de Pedro na mala do carro. Ninguém se podia aproximar.

Maria Beatriz, aluna do 11.º ano, tinha acabado de sair da aula de Inglês às 9h45, ia com as amigas à estação de comboio comprar comida e viu o aparato policial. “Percebemos que estava a criança dentro do porta-bagagem e que o senhor a tinha deixado. Uma coisa extremamente doentia. Pensar que passei por um carro em que estava um corpo é mórbido...”

Na escola, houve professores que dispensaram alunos por causa do sucedido. O que terá acontecido na cabeça de Pedro H.? — era o tema da conversa. “Acho que o pensamento dele foi: ‘Se eu não tenho a criança, tu também não tens’”, comentava Maria Beatriz.

Em Portugal, casos com estes contornos não são inéditos. Em Fevereiro de 2016, uma mãe atirou-se ao rio Tejo com as duas filhas, de quatro anos e 18 meses — elas morreram, a mulher sobreviveu e foi condenada a 25 anos de prisão. Com Aline Flor