Opinião

TPC para entregar na quarta-feira

Terá sido bem mais doloroso para o corpo técnico do Sporting o visionamento do jogo de domingo do que seguramente para o homólogo do Benfica. Em contagem decrescente para o segundo take do derby no intervalo de quatro dias, essa análise detalhada será mais um instrumento de correcção de defeitos próprios do que a construção de um roadbook para tirar partido das fragilidades do adversário. E o raciocínio aplica-se aos dois. Porque mesmo quando se ganha com uma superioridade tão vincada, há ilações a tirar.

No bloco de apontamentos de Marcel Keizer haverá um par de tópicos assinalados a vermelho por estes dias. Comecemos pelas perdas de bola. Confrangedor talvez seja um adjectivo brando para rotular o que aconteceu em Alvalade nesse capítulo. Os números (22 perdas para o Sporting contra 12 do Benfica) não ilustram na totalidade o caudal de más decisões tomadas logo na primeira fase de construção, que não só não permitiram à equipa ligar sectores, como reduziram o espaço que o rival tinha de percorrer para alcançar a baliza de Renan.

A forte reacção do Benfica à perda não pode explicar tudo, a começar pelos gestos deficientes na saída como os que se viram a Jefferson, Wendel ou Gudelj. E a incapacidade de a equipa avançar em apoio tornou totalmente inconsequente (e inadequado) o posicionamento dos extremos, sempre abertos e muito altos na esperança de poderem surpreender o adversário em transição ofensiva. É verdade que o Sporting precisava (mais do que nesta quarta-feira, até) de correr riscos, sim, mas sem descurar os equilíbrios que só se alcançam com trabalho de laboratório.

Mesmo sem conseguirem construir com a qualidade que se exige, os “leões” estavam obrigados a dar outra resposta em organização defensiva, mas o que mostraram foi uma total ausência de controlo. Muito por culpa do entrosamento deficiente de um quarteto defensivo que não pode escudar-se nas mudanças forçadas (e foram logo três) para justificar comportamentos tão pobres. Desde a (incorrecta) colocação dos apoios dos centrais à (enorme) distância entre Coates e André Pinto, passando por um total desacerto na definição da última linha (Bruno Gaspar e André Pinto foram pródigos em colocar Seferovic ou João Félix em jogo), o desempenho sectorial foi um sobressalto permanente. E o preço a pagar foi elevado.

Foi como se Marcel Keizer tivesse recebido uma repreensão do professor na sala de aulas e fosse obrigado a um regime de trabalhos para casa (TPC) redobrados neste arranque de semana. Entre a vertigem ofensiva do início do mandato do holandês e a toada bem mais especulativa e inibidora que se viu na final a quatro da Taça da Liga, urge encontrar um ponto de equilíbrio, uma ponderação adequada de factores. Tal e qual um pneu, que deve ser gerido com a quantidade exacta de ar, sob pena de atrasar o andamento (pressão a menos) ou de ameaçar rebentar (pressão a mais). A esse respeito, o livro de especificações do treinador do Sporting precisa de sérias emendas.

Não é o único, porém. Entre os imensos indicadores positivos que o Benfica derramou sobre o rival, há riscos e lacunas a minimizar. As mais óbvias residem no corredor central do meio-campo, onde os dividendos decorrentes do aumento do nível de intensidade e dos metros que a equipa conquista aos adversários são muitas vezes comprometidos por falhas técnicas. Porque mais expostos (e essencialmente porque habitam numa zona-chave do terreno), Samaris e Gabriel terão forçosamente de reduzir os erros na execução (a recepção do grego no lance do primeiro golo do Sporting, por exemplo) para evitarem que a equipa se parta e seja obrigada a reposicionar-se rapidamente, num contexto de maior desordem. Assim como o trabalho de cobertura do espaço que sobeja nas costas de Grimaldo quando o Benfica avança para a organização ofensiva deve ser mais rigoroso para matar a sede de profundidade do rival.

Mais do que dores de crescimento, são riscos que Bruno Lage está disposto a correr para poder abafar o rival no seu meio-campo defensivo. E isso percebe-se até olhando para o modelo de jogo que o Benfica perfilha na formação, baseado numa construção apoiada logo a partir do guarda-redes, com o intuito de, mesmo sob pressão, sair a jogar de forma limpa desde trás. Os custos deste ideário ficaram bem patentes, por exemplo, no golo que o Benfica B sofreu diante do Mafra no passado sábado, na sequência de um erro crasso de Zlobin; os benefícios, esses, são visíveis na frequência com que a equipa chega com critério a zonas de definição (no derby de domingo, todos os 14 remates dos “encarnados” foram feitos dentro da área do Sporting).

Em comum, os dois rivais têm o selo de work in progress, porque nem Keizer, nem Lage gozaram ainda de tempo suficiente para consolidar alguns comportamentos. Mas não é essa também a condição permanente de uma equipa de futebol, um projecto eternamente inacabado?

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