Seferovic: da desconfiança de Vitória à aposta de Lage

Dado como dispensável no início da época, o suíço aproveitou a lesão de Jonas e o sub-rendimento de Castillo e Ferreyra para mostrar que tem qualidade para jogar no Benfica

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Seferovic Reuters/RAFAEL MARCHANTE

A história do futebol está repleta de jogadores que passam pelo clube errado à hora errada. Em Portugal, poucos estão imunes a erros de avaliação por parte dos seus responsáveis técnicos e directivos e, no caso do Benfica, há algumas espinhas atravessadas nas gargantas dos seus adeptos. Num passado recente, Bernardo Silva é um dos exemplos mais retumbantes, mas o nome de Luka Jovic, avançado de 21 anos avaliado em cerca de 50 milhões de euros que as “águias” vão perder por um quarto desse valor, promete tornar-se numa memória amarga para as “águias”. Há, no entanto, quem suporte o descrédito quase generalizado e conquiste uma “segunda vida”: Dado como dispensável no início da época, Haris Seferovic é hoje um dos principais trunfos de Bruno Lage após resistir à desconfiança da maioria dos adeptos, da crítica e de Rui Vitória.

Quando, no início de 2017, o Eintracht Frankfurt reconheceu que iria perder a “custo zero” Seferovic para o Benfica, a maioria dos benfiquistas terão ficado com mais dúvidas do que certezas sobre o reforço anunciado. O suíço tinha um currículo longo, mas não tinha vingado, por exemplo, na Fiorentina ou na Real Sociedad. Os 10 golos pelo Novara ou os 11 na primeira época com a camisola do Eintracht eram os números que justificavam o investimento de 3,9 milhões de euros (entre prémio de assinatura e intermediação) do Benfica no avançado.

Contratado para integrar um plantel onde já havia Jonas, Jiménez e Mitroglou (o grego saiu no último dia do mercado de verão), Seferovic teria à sua espera, em teoria, um papel de actor secundário, mas com o grego no “mercado”, o suíço marcou uma posição. Apesar dos maus resultados das “águias”, Seferovic mostrou um excelente entendimento com Jonas e, com três golos nos três primeiros jogos da pré-época, garantiu um lugar a titular na primeira partida oficial de 2017-18: Em Aveiro, na Supertaça, Vitória ofereceu a Seferovic e Jonas a titularidade e a dupla fez os dois primeiros golos no triunfo contra o V. Guimarães (3-1).

Seguiram-se três golos nas três primeiras jornadas do campeonato, mas em Setembro, após duas derrotas e um empate em quatro jogos, o suíço perdeu espaço - em Basileia, na Liga dos Campeões, Vitória coloca-o no banco. O jogo acabou numa das maiores humilhações da história do Benfica (derrota, por 5-0), mas quando Seferovic substitui Jonas, os helvéticos já venciam por 3-0. Após essa partida, o suíço perdeu a titularidade para Jiménez, mas a crise agudizou-se – mais três derrotas na Liga dos Campeões e 3.º lugar no campeonato, a cinco pontos do FC Porto. Vitória voltou a resgatar Seferovic para o “onze”. E o suíço cumpriu: nas Aves, marcou no triunfo benfiquista (3-1).

No entanto, em Novembro, o treinador do Benfica abdicou do 4x4x2. A partir da 11.ª jornada em Guimarães, a solução passou por um 4x3x3, com Krovinovic no apoio a Jonas. A alteração táctica resultou no eclipse de Seferovic. Até ao final da época, o suíço só voltou a ser titular duas vezes e, num dos desses jogos (em Setúbal, para a Taça da Liga), até marcou. Esse golo, marcado a 29 de Dezembro, não chegou para convencer Vitória: no primeiro semestre de 2018, Seferovic não voltou a ser titular e esteve em campo durante 80 minutos, divididos por nove jogos.

Embora os seus números fossem similares aos de Jiménez (oito golos em 1458 minutos para o mexicano; sete golos em 1367 minutos para o suíço), a permanência de Vitória na Luz tornou a saída de Seferovic praticamente inevitável. Antes de disputar o Mundial 2018, o avançado garantiu, no entanto, que queria continuar: “Tenho mais quatro anos de contrato e é meu desejo cumpri-los. O Benfica é um grande clube, um sonho para qualquer jogador.”

As ideias de Vitória eram, porém, diferentes. Colocado no “mercado”, Seferovic assistiu à chegada de Castillo e Ferreyra, apontados como os novos “donos” do ataque benfiquista, e o falhanço da transferência de Jonas para a Arábia Saudita colocou o helvético numa posição mais débil. Só que Seferovic nunca se resignou. Muitas vezes ridicularizado pelos adeptos nas redes sociais, o suíço manteve nos treinos a entrega que lhe era reconhecia nos jogos e, com Jonas e Castillo lesionados, Vitória lançou-o nos últimos minutos nas recepções ao PAOK e Sporting, partidas que serviram para Ferreyra gastar os últimos créditos. Obrigado a marcar em Salónica para entrar na Liga dos Campeões, Vitória não teve outra opção. No tudo ou nada dos “encarnados”, o técnico socorreu-se de Seferovic e o suíço, que não era titular há oito meses, foi decisivo para a qualificação, apesar de não ter marcado.

A partir daí, tudo mudou. No jogo seguinte, contra o Nacional, Seferovic marcou e, apesar do mau futebol apresentado pelo Benfica, o suíço convencia. O golo que garantiu a vitória no “clássico” contra o FC Porto, ajudou a calar os detractores resistentes. Todavia, Jonas regressou e com o brasileiro disponível, Seferovic voltou a sair da equipa. Até Portimão. A 2 de Janeiro, o Benfica foi derrotado no Algarve, Jonas foi expulso e saiu lesionado, Rui Vitória foi despedido. Outra vez sem Jonas e definitivamente sem Vitória, o Benfica passou a estar nas mãos de Bruno Lage e o treinador fez a mudança que revolucionou o futebol benfiquista. De novo em 4x4x2, Lage colocou Seferovic ao lado de João Félix e a sociedade luso-helvética tem sido explosiva: em sete jogos, o jovem português marcou cinco golos e não pára de impressionar pelo seu talento; o suíço fez sete golos e ganhou uma “segunda vida” na Luz.