Crítica

Gaspar Noé direito ao deserto

Gaspar Noé já tinha estado no inferno e parece continuar a querer ir de visita, desculpem-nos se não nos apetece acompanhá-lo outra vez.

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Clímax: descida aos infernos onde ninguém parece ter salvação
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Uma troupe de bailarinos na festa do último ensaio antes da digressão. Sangria a rodos e de repente começa tudo a sentir-se mal. Alguém meteu drogas na sangria e agora a alegre comunidade multicultural e diversificada de europeus e africanos e cristãos e muçulmanos e ateus e agnósticos e heterossexuais e homossexuais e bissexuais e pinga-amores e cromos e tímidos e coreógrafas e acrobatas e brancas e negras e árabes e europeias e solteiras e amancebadas e grávidas e mães e doentes desintegra-se e explode e canibaliza-se e come-se a si própria. Em todos os sentidos da palavra.

É Gaspar Noé a fazer “um filme francês e orgulhoso de o ser”, mais uma provocação-limite de um cineasta que, desde Carne a Love passando por Irreversível e Enter the Void, nunca deixou de tentar levar o que um filme pode ser até às fronteiras do inexprimível, do infilmável — sem problemas de cair no ridículo se necessário for, e nele caindo até com alguma regularidade (Love, em particular, era confrangedor). Clímax é mais uma prova do extraordinário talento de filmeur que Noé tem, a steadycam, o plano longo, o ambiente e o trabalho de som levados a um extremo quase virtuoso. Mas, depois de ter encontrado o equilíbrio preciso entre esse virtuosismo formal e a lógica narrativa em Irreversível, parece tê-lo perdido sem regresso possível — por trás do “olhem que bem que eu filmo”, das coreografias enérgicas (dos actores e da câmara), Clímax tem qualquer coisa de niilista e de misantropo, uma descida aos infernos onde ninguém parece ter salvação possível, que nos diz que não podemos confiar em ninguém, que a comunidade é uma enorme mentira e que as ideias de moralidade e humanidade estão irremediavelmente quebradas e que o ser humano está condenado. Irreversível ainda deixava alguma esperança no ar, mas Clímax abandona todas as pretensões de positivismo, vai direito ao deserto ou — nas palavras dos Clash — straight to hell. Gaspar Noé já lá tinha estado e parece continuar a querer ir de visita, desculpem-nos se não nos apetece acompanhá-lo outra vez.