Reportagem

O mercado de trabalho também é para ciganos

Programas da Fundación Secretariado Gitano já proporcionaram experiência laboral e emprego a milhares de ciganos em Espanha e estão a inspirar outros países, como Portugal. Capítulo II de uma série sobre a inclusão das comunidades ciganas na UE.

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Quem vê Ester Altirriba Giménez, vestida a preceito, a amanhar ou a cortar peixe atrás de uma banca do Carrefour de Pontevedra, não imagina como é que aquela rapariga de 19 anos ali foi parar. Quando ela nasceu, a Fundación Secretariado Gitano ainda estava a testar o primeiro programa de inserção profissional ajustado à população cigana e agora está a inspirar outros países, inclusive Portugal.

O projecto-piloto, que arrancou em Carabanchel, no Sul de Madrid, em 1998-1999, chamava-se Integra. A ideia era inovadora: uma equipa identificaria oportunidades de emprego, recrutaria ciganos com o perfil adequado, prepará-los-ia para desempenhar as funções requeridas e acompanhá-los-ia.

“Nunca se tinha trabalhado essa dimensão”, recorda Arantza Fernández Espiñeira, directora do departamento de emprego da fundação. “Pensava-se que a população cigana não queria integrar-se no mercado de trabalho formal.” A experiência mostrou que não era assim. “Foi a base para dizer à União Europeia: a população cigana está muito excluída, faltam projectos específicos, adaptados às suas características, mas não exclusivos.”

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Em 2000, nascia o Acceder, um programa financiado pelo Fundo Social Europeu destinado a melhorar a empregabilidade da população cigana e a facilitar o acesso ao trabalho por conta de outrem. Com o tempo, propagou-se a meia centena de municípios espalhados pelo país. Em cada localidade, há um coordenador, prospectores de mercado empenhados em identificar empresas e em sensibilizá-las, orientadores laborais, mediador sociocultural.

Os números, adiantados por Arantza, falam por si: entre 2000 e 2018 foram assinados 80.897 contratos de trabalho (71% dos quais por ciganos) e 29.643 trabalhadores conseguiram um emprego (69% das quais ciganos). O diferencial explica-se muito pelo carácter sazonal de muitas das experiências que vão surgindo – em hotéis e hipermercados, sobretudo.

Ester – a rapariga que se vê vestida a preceito, a amanhar ou a cortar peixe – acabou a formação em contexto de trabalho em Julho. Passou o Verão na caixa. Voltou a estudar. Era um curso de comércio. Não gostou. Chamaram-na para a secção de peixe. E ali estava a cumprir mais um contrato temporário.

Esforço extra para atrair mulheres 

As mulheres não vieram logo. A equipa técnica teve de tomar medidas para as atrair. Se vai começar uma formação dentro do Acceder, recruta 50% de mulheres. “Isso torna-nos mais proactivos na procura de mulheres”, refere Arantza.

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Por vezes, há que sentar-se com a família a negociar para que esta funcione mais como um apoio do que como um travão. Amiúde, há que tomar medidas de conciliação. Alguém na família pode assumir alguma responsabilidade com as crianças ou com a casa? É preciso encontrar uma vaga numa creche? E neste processo Arantza realça a importância dos mediadores.

Rebeca Florez, de 41 anos, adora ser uma espécie de ponte entre culturas que vivem há séculos de costas voltadas. “Falo de cigana para cigana." E é uma prova viva de que os ciganos não estão condenados às chabolas, expressão espanhola para bairros de lata, favelas, musseques, e às feiras e mercados.

Era pequena quando o pai desapareceu sem olhar para trás. Hoje, as crianças ciganas estão escolarizadas, embora haja absentismo e abandono escolar precoce. Há 30 anos, o cenário era outro. “Se não ias à escola, não importava. Eras só mais uma cigana. E eu tinha de ajudar a criar os meus irmãos”, diz Rebeca.

Cigana da chabola, com apenas o 4.º ano, intuía que não seria fácil arranjar um trabalho, mas nunca baixou os braços. Trabalhou num café. Trabalhou numa loja de roupa. Sempre a sentir-se olhada de lado. Sempre a sentir necessidade de provar que era de fiar, que era esforçada. Às vezes, chegava a chorar às instalações da Fundación Secretariado Gitano, numa rua estreita de Pontevedra. “Não me querem, não me escolhem, porque sou cigana!”

Agarrou todas as oportunidades para evoluir. Tornou-se beneficiária do Acceder. Fez uma formação de monitora sociocultural em 2004. E outra de auxiliar de educação de crianças com necessidades especiais em 2005, seguida de estágio. Ao mesmo tempo, fazia voluntariado na fundação. Dava apoio a crianças em risco de abandono escolar. Foi contratada como mediadora em 2006.

A fundação actua em várias frentes – habitação, educação, emprego. E Rebeca trabalha nelas todas. “As famílias querem o melhor para os filhos. Muitas têm receio da escola porque não a conhecem”, exemplifica. “Convido-as a irem lá. Apresento-lhe os professores. Estou aí para que a escola não seja estranha, para que a escola também seja nossa, para que a escola seja de todos.”

Ainda há dentro da comunidade quem reprove o acesso das mulheres ao mercado de trabalho formal. “Houve um tempo que a nossa família não nos falava”, recorda. “Não éramos ciganas. Éramos payas.” Custou-lhe lidar com essa rejeição. “Saía com as minhas amigas, viajava, e isso não estava bem para eles.” Acabaram por aceitá-la. “Sempre fui discreta, nunca fiz barbaridades, não me viam por aí perdida.” Agora, a voz dela é ouvida. Às vezes, dizem-lhe: “Estás a trabalhar debaixo de um tecto, tranquila, e nós estamos a trabalhar nas feiras e nos mercados, debaixo do sol e da chuva, às vezes sem sustento.” E ela responde-lhes: “A educação, o trabalho, a persistência têm o seu prémio.”

Percurso ajustado e flexibilidade

Diz Rebeca que um bom mediador tem de ter empatia e paciência. “Há muita gente que tem medo, por desconhecimento, por falta de experiência. É preciso motivar as pessoas, dizer-lhes que são capazes, e dar-lhes oportunidades de tentar.” Isso é muito claro no projecto Acceder. “A pessoa cai e levanta-se. E eu estou aí a dizer: ‘Vem, tu consegues.’ Quando ela consegue, eu continuo aí: ´Boa!’”

Cada pessoa tem um percurso ajustado. E há alguma flexibilidade. Se um cigano tem um familiar internado num hospital sente-se obrigado a estar lá a apoiar. “Temos de respeitar essas questões culturais”, diz María José Obelleiro Pérez, coordenadora do Secretariado Gitano em Pontevedra. “Temos de entender e de chamar para um próximo curso. Noutra entidade, isso seria considerado abandono.” Por vezes, é possível encontrar uma solução de compromisso. Ocorre-lhe o caso de um rapaz cujo avô foi hospitalizado. Negociaram com ele. De manhã, ia ao curso. De tarde, ia ao hospital.

A flexibilidade cai se as pessoas já estiverem a trabalhar. “As pessoas percebem que nós, em relação às empresas, nada podemos fazer”, salienta María José. E muitas, mesmo de luto, vão trabalhar. “Mudam de roupa no parque de estacionamento. Isso está a conseguir-se agora. Antes era impensável.”

Para lá da baixa escolaridade, da falta de experiência laboral, da relutância sentida por muitos em trabalhar por conta de outrem, há a discriminação. Por isso, há sempre alguém dedicado a “namorar” as empresas.

“Seguimos muitas estratégias”, torna Arantza. No princípio, os prospectores nem se apresentavam como elementos de uma agência de colocação de ciganos. Apresentavam-se como Acceder. Explicavam que trabalhavam com pessoas em situação de vulnerabilidade. Faziam-no porque o programa tem não-ciganos, mas também para evitar rejeição imediata.

“As empresas são formadas por pessoas e as pessoas têm preconceitos”, ressalta aquela responsável. “Queríamos evitar que uma pessoa cigana não chegasse a um processo e selecção simplesmente por ser cigana. Queríamos que a etnia não importasse. Tens um posto de trabalho aqui? Que competências tem de ter a pessoa que o vai ocupar? Nós formamos a pessoa para que ela possa desempenhar essas tarefas. Se é cigana ou imigrante, não é relevante.”

As experiências positivas multiplicaram-se. E a fundação começou a pedir às empresas para partilhá-las, para dar testemunho. Com isso foram construindo uma reputação, que faz com que o modelo seja reconhecido como uma boa prática pela Comissão Europeia, pelo Conselho Europeu de ministros do Emprego e pelas Nações Unidas. E que vários países procurem inspirar-se.

A antiga secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade de Portugal, Catarina Marcelino, visitou a fundação em Setembro de 2016 e quis saber tudo sobre o Acceder e o Aprender Trabajando, um programa para jovens entre os 18 e os 30 anos, com formações mais longas em contexto de trabalho. E este ano devem arranjar vários projectos mais ou menos inspirados nestas práticas.

A importância do processo de selecção

Ester – a rapariga vestida a preceito, que se vê a amanhar ou a cortar peixe  – fez parte do Aprender Trabajando. Durante um mês, recebeu uma formação de competências básicas. Durante outros cinco, dividiu os dias entre a formação teórica, na fundação, e a formação prática, no hipermercado.

Álvaro Segura Conde, responsável pelos Recursos Humanos do Carrefour em Pontevedra, evoca a responsabilidade social da empresa, mas também a validade da proposta. Os jovens rodariam pela reposição, charcutaria, frutaria, caixa. “Isso dar-lhes-ia mais oportunidades no futuro”, diz. “A experiência foi muito positiva.”

Entre 2013-2018, entraram na primeira fase do programa, a de competências básicas, um total de 2437 jovens. Passaram à segunda fase, a de formação em contexto de trabalho, 1949. No fim, 750 conseguiram um contrato de trabalho e 637 decidiram voltar a estudar.

O segredo, no entender de Álvaro​, está na selecção. Houve que seleccionar quem encaixaria melhor. "Acertaram nas quatro pessoas que seleccionaram para trabalhar connosco.” No final da formação, era Verão. “As quatro tiveram oportunidade de trabalhar. Agora, duas estão connosco [Ester e Jesus López Abal, um rapaz não-cigano de 22 anos]. A qualquer momento podemos chamar as outras porque tiveram um desempenho excelente.”

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Ester ficou “muito contente”. “Estava nervosa quando comecei, mas ninguém me discriminou – nem a mim nem aos meus colegas”, afiança. A verdade é que também não tem ideia de ter sido discriminada noutros sítios. Pele clara, olhos azuis, não carrega o peso desse estigma. “Identifico-me como cigana porque tenho sangue cigano. Não há outra coisa que seja diferente.”

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