Guaidó quer que a China perceba que Maduro é mau para os negócios

O auto-proclamado Presidente interino da Venezuela quer manter Pequim como parceiro na reconstrução da delapidada economia do país. A Rússia fica em desvantagem se o mudança de regime acontecer.

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Juan Guaidó LEONARDO MUNOZ/EPA

O jovem político venezuelano que lidera os esforços para afastar Nicolás Maduro pede uma "relação transparente" com a China, um importante investidor no país, e afirma que quaisquer acordos feitos com o regime serão honrados desde que tenham sido realizados de forma legal.

Juan Guaidó, presidente interino da Assembleia Nacional da Venezuela, está na frente de uma nova tentativa para afastar Maduro, que, devido ao controlo que exerce sobre os militares e os tribunais reprimiu manifestantes e opositores, e provocou a quebra da economia da Venezuela. O clima de desespero numa população que luta contra o aumento de preços e os cortes de energia motivaram uma das maiores migrações em massa dos tempos modernos.

"Serei muito claro: todos os acordos que tenham sido assinados de acordo com a lei vão ser respeitados", disse Guaidó numa entrevista por escrito. “Se os acordos assinados passaram pelo processo de aprovação na Assembleia Nacional, serão honrados".

Guaidó tem o apoio de países como os EUA e Brasil, e está a tentar pôr um ponto final no acesso de Maduro aos fundos provenientes sobretudo das exportações de petróleo, ouro e rendimento de negócios controlados pelo Estado. A China é um dos maiores investidores na Venezuela e, apesar de ter sido um aliado de governos socialistas desde Hugo Chávez, Guaidó considerou que também foi vítima da corrupção e da má gestão financeira de Maduro.

"Queremos estabelecer uma relação transparente com a China e acabar com o roubo dos nossos recursos que prevaleceu durante o governo de Maduro, que também afectou os investidores chineses", disse Guaidó. “Os projectos de desenvolvimento da China na Venezuela têm decaído devido à corrupção ou ao incumprimento da dívida".

A postura da China e da Rússia é crucial para Maduro se conseguir manter no poder. Estes países preencheram, durante décadas, o vazio deixado pelo afastamento de Washington. Mas o ressurgimento do interesse dos EUA torna as coisas mais complicadas.

A Rússia tem apoiado inequivocamente Maduro, enquanto a China tem sido mais ambivalente, refugiando-se na sua política de não ingerência em assuntos de outros Estados.

Ao longo da semana passada, perguntaram três vezes ao porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, Geng Shuang, se Pequim ainda via Maduro como Presidente da Venezuela. Geng respondeu que um enviado especial do Presidente Xi Jinping esteve na tomada de posse de Maduro, em Janeiro. Mas na sexta-feira, Geng disse que a China "mantém comunicação com todas as partes" e que os laços "não devem ser prejudicados, independentemente da forma como a situação evoluir".

A China é o segundo maior importador de petróleo do país, mas recebe os barris como forma de pagamento de dívidas. Nos últimos anos, porém, e à medida que a produção diminuiu e o preço do petróleo baixou, a Venezuela não conseguiu enviar petróleo suficiente para cumprir com as suas obrigações.

Pequim investiu mais de 54 mil milhões de euros na Venezuela, principalmente através de empréstimos, desde 2007. No ano passado, importou 3,6% do seu fornecimento de petróleo deste país, abaixo dos 5% de 2017. Em Setembro do ano passado, no auge da crise financeira, Maduro foi a Pequim pedir à "irmã mais velha", a China, uma linha de crédito de quatro mil milhões de euros. Os gigantes da tecnologia chinesa, as empresas Huawei e ZTE, investiram de forma considerável no país.

Nem todos vêem o comportamento de Pequim como benigno. Ricardo Hausmann, um prestigiado economista venezuelano e conselheiro de Guaidó, que dirige o Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Harvard, disse que o Banco de Desenvolvimento da China se portava de forma "vergonhosa".

A China já provou que é capaz de fazer negócios em lugares complicados. Provavelmente aprendeu a lição com o Sri Lanka, a Malásia e as Maldivas, onde se aproximou de líderes autoritários e foi apanhada de surpresa por rápidas alterações no poder, mas viu os novos governos aderirem a projectos e empréstimos chineses.

Embora os investimentos chineses tenham, geralmente, objectivos estratégicos, os líderes de Pequim também são pragmáticos, e a sua economia pode acomodar algumas perdas causadas por mudanças nas lideranças.

"A China está a esperar para ver", disse Pang Zhongying, um antigo diplomata chinês que é professor de relações internacionais na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau. "Não se pense que as ajudas chinesas são baseadas na semelhança dos sistemas socialistas".

Se houver uma mudança no Governo, a ajuda humanitária deverá aparecer, e instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial provavelmente poderão auxiliar - e os EUA. Mas a economia da Venezuela exigirá fundos para infra-estruturas que não vão gerar retorno durante algum tempo. É aí que a China, com os seus bolsos recheados e o seu investimento de longo prazo, poderá entrar.

"Qualquer governo venezuelano reconhecerá o valor insubstituível da China como grande cliente", disse Mei Xinyu, investigador da Academia Chinesa de Comércio Internacional e Cooperação Económica, afiliado do Ministério do Comércio. "Os empréstimos da China são benéficos para ambos os lados".

A Rússia, pelo contrário, possivelmente não se pode dar ao luxo de manter os seus investimentos em aberto e já conta com pagamentos em atraso do regime actual.

"Há muito trabalho a fazer nesse sentido e queremos continuar a trabalhar de perto com a China", disse Guaidó, referindo-se ao reerguer da Venezuela. Citou sectores como o do petróleo e da mineração, além da pequena indústria e da construção.

"Com a reactivação da produtividade do nosso país, vemos a cooperação com a China como uma oportunidade, ao invés de uma ameaça", acrescentou. "Estamos prontos para iniciar, o mais rapidamente que for possível, uma relação construtiva e um diálogo com a China".

Guaidó não confirmou se tem havido contacto com Pequim, disse apenas que gostaria de se reunir com os líderes de Pequim a curto prazo para "retomar as relações". Uma fonte próxima deste diálogo diplomático em Caracas disse que já existiram alguns contactos com a embaixada chinesa.

Essas conversas centram-se em compromissos para honrar as dívidas à China, além das necessidades de reconstrução da Venezuela, disse a fonte, que pediu para não ser identificada.

A aproximação está a ser feita com cautela, acrescentou a fonte, porque o foco de Guaidó está no seu relacionamento com os EUA, que vê a presença da China na região com desconfiança. 

"Se o regime mudar de forma rápida e pacífica, veremos se o novo governo apoiado pelos EUA vai reconhecer os empréstimos feitos pelo governo [de Maduro]", disse Gui Chenxi, analista de petróleo da empresa CITIC Futures. "Para já, Guaidó deu indicações de que os pagamentos serão mantidos. Mas se ele assumir o cargo [de Presidente] os Estados Unidos podem passar a querer tomar as decisões."

Guaidó descreveu os EUA como um aliado comercial e um importante aliado no esforço para afastar Maduro do poder. "As relações bilaterais são estabelecidas com base no respeito mútuo e a nossa relação com os EUA é histórica", disse.

Ainda assim, acrescentou que o facto de a Venezuela ter "relações consolidadas com determinados países não significa que não possa abrir-nos para estabelecer relações com outros”.

"Vivemos num mundo interligado, onde todas as nações têm o seu próprio potencial", disse Guaidó. "Dentro desse espaço, a China tem um papel importante a desempenhar devido às suas capacidades e flexibilidade como parceiro comercial".

Tradução de Raquel Grilo