“As pessoas já vêm ao Trindade para estar umas com as outras”

Doze dias de festa e três dezenas de filmes celebram o segundo aniversário destas ressuscitadas salas da Baixa do Porto. Programa decorre de 5 a 16 de Fevereiro.

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O Trindade reabriu a 5 de Fevereiro de 2017:Ornamento e Crime, de Rodrigo Areias, foi o primeiro filme PAULO PIMENTA

Doze dias de festa, três dezenas de filmes, entre antestreias (Cafarnaum, A Favorita, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos) e recuperações (Vidas Secas, Alice, A Última Vez que Vi Macau) – eis o programa com que se festejará, de 5 a 16 de Fevereiro, o segundo aniversário da “nova vida” do Cinema Trindade, devolvido ao Porto em 2016 pela Nitrato Filmes. Uma “nova vida” que, nas palavras do seu responsável, Américo Santos, está a ultrapassar as expectativas: “Havia a expectativa de que uma programação cruzada pudesse funcionar bem”, explica, precisando entender por “programação cruzada” uma mistura de estreias comerciais, sessões especiais e festivais de cinema. “O grande risco é que as coisas sejam um fenómeno de moda, que haja uma adesão inicial e depois percam o fôlego. Aqui já ultrapassámos isso. Estamos a conseguir manter o entusiasmo vivo e neste segundo ano o total de espectadores está já um bocadinho acima dos 50 mil do ano passado.”

5 de Fevereiro de 2017 foi a data da reinauguração oficial do Trindade, que estava encerrado à programação diária desde 2000. O "novo" cinema manteve a lotação das duas salas-estúdio (183 e 168 lugares) nascidas em 1992 da divisão da sala original, mas actualizando-as com projecção e som de última geração. Américo Santos não escamoteia que a própria dinâmica actual do Porto, o “momento cosmopolita” que atravessa, tem sido um factor importante: “Existe uma opção política de fazer da cultura um ponto central da cidade, e isso tem contagiado o centro do Porto. E o Trindade tem a vantagem de ser uma sala muito central, com uma estação de metro mesmo à porta; tem beneficiado muito de as pessoas saírem à noite e começarem a noite no Trindade. Mas também sentimos que havia avidez de ter um espaço para ver cinema no centro.”

Não é apenas do público jovem, universitário, que o exibidor está a falar: existe também um público mais velho, da Baixa portuense e de toda a área metropolitana, que vai às sessões. “O Trindade é uma sala carregada de memória, e a par do novo queríamos reconquistar um pouco o público antigo. Temos também exibido alguns filmes que recuperaram um certo gosto por vir ao cinema em família.” O programador cita dois exemplos que define como fenómenos de afluência – Shoplifters – Uma Família de Pequenos Ladrões, de Hirokazu Kore-eda (Palma de Ouro em Cannes 2018), e o multi-nomeado para os Óscares Roma, de Alfonso Cuarón, este ainda em cartaz.

Dados os resultados, Américo Santos não prevê para já alterações na programação do Trindade, que inclui a aposta contínua no cinema português e em cinematografias mais invisíveis, como as latino-americanas. “A reacção às nossas estreias portuguesas tem sido interessante”, diz o programador. “Quando estamos a mostrar os filmes, fazemo-lo quase sempre com a presença dos realizadores. Isso tem ajudado a criar um certo vínculo com o público que não se limita apenas ao formato de debate em sala, mas que se espalha para a conversa mais informal nos corredores ou nos átrios.” A esse nível, Américo Santos é peremptório: “O Trindade conseguiu recuperar a ideia do cinema como ponto de encontro. Há sempre mais do que vir ver um filme – as pessoas já vêm para estar umas com as outras, e queremos manter isso vivo.”

As comemorações do segundo aniversário vão ocupar parte da programação diária das duas salas do Trindade entre os dias 5 (data da inauguração oficial) e 16 de Fevereiro (data do início das sessões públicas). Da dúzia de antestreias previstas constam três candidatos aos Óscares – Cafarnaum, de Nadine Labaki (dia 6, às 19h30), A Favorita, de Yorgos Lanthimos (dia 6, às 21h45), e Se Esta Rua Falasse, de Barry Jenkins (dia 14, às 21h45) – a par de dois títulos latinos que têm recebido grande aclamação no circuito de festivais, o colombiano Pássaros de Verão, de Ciro Guerra e Cristina Gallego (que abre as comemorações no dia 5, às 21h45), e o paraguaio As Herdeiras, de Marcelo Martinessi (dia 7, às 21h45). Em destaque absoluto estará o brasileiro Gabriel Mascaro, autor de Boi Néon, do qual o Trindade exibirá a totalidade das longas-metragens (sempre às 18h, entre dias 11 e 15). O novo filme do cineasta, Divino Amor, estará em estreia mundial no Festival de Berlim, que começa esta quinta-feira.

Outro ciclo, dedicado ao cinema português, cruzará títulos já com alguns anos, como Alice, de Marco Martins (dia 10, às 16h15), e A Última Vez que Vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata (dia 9, às 18h), e os novos filmes de Edgar PêraCaminhos Magnétykos (dia 9, às 21h45), que só terá estreia comercial em Abril, e de João Salaviza, Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, realizado com Renée Nader Messora, que encerra as comemorações no dia 16, às 21h45, em antecipação à sua estreia comercial a 14 de Março. Um outro programa dedicado ao cinema latino terá como ponta de lança a versão restaurada do clássico do Cinema Novo brasileiro Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos (dias 10 e 16, às 19h30).