Mais de 10% dos médicos dentistas estão a exercer no estrangeiro

O Reino Unido soma 34% dos profissionais que deixaram Portugal para fugirem à precariedade laboral.

No final de 2017, havia 1420 médicos dentistas inactivos
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No final de 2017, havia 1420 médicos dentistas inactivos Daniel Rocha

“Andamos a formar dentistas para irem trabalhar no estrangeiro”. O bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), Orlando Monteiro da Silva, calcula que mais de 10% dos médicos dentistas formados em Portugal estão a exercer actualmente fora do país, 34% dos quais no Reino Unido, mas também em França, Holanda e Suíça.

Dos 11.387 médicos dentistas que, no final de 2017, estavam inscritos na OMD, 1420 estavam inactivos e “a esmagadora maioria foi porque optaram por exercer no estrangeiro, onde, trabalhando menos horas, ganham entre cinco a dez vezes mais do que em Portugal”, segundo Orlando Monteiro da Silva, que soma aos inactivos aqueles que “optam por não comunicar a saída do país e continuam a pagar os quinze euros mensais para se manterem ligados à Ordem”.

Por extrapolações feitas a partir do diagnóstico à empregabilidade dos médicos dentistas, o bastonário calcula que só em Inglaterra estejam actualmente cerca de mil dentistas portugueses. “Há pessoas que exercem em Portugal e em Inglaterra simultaneamente, passam duas semanas num país e as outras duas noutro, nomeadamente os especializados em ortodontia e cirurgia”.

O número de dentistas inactivos cresceu 9,2%, entre 2016 e 2017 (a ordem ainda não dispõe dos números relativos ao ano passado). E mais de metade (51,3%) estavam inactivos há mais de cinco anos. “Os estudos e inquéritos feitos mostram-nos que os inactivos por períodos superiores a cinco anos têm elevada probabilidade de não voltarem a exercer em Portugal”, reforça Orlando Monteiro da Silva.

“A profissão tem reconhecimento automático na Europa. E, entre os alunos que estão a acabar o curso, vêm quase todos pedir o certificado, o que indicia que a intenção deles é exercer fora de Portugal, essencialmente para fugirem à precariedade”, adianta o bastonário, dizendo-se apreensivo com o facto de as sete faculdades de medicina existentes em Portugal estarem “a formar trabalhadores para o estrangeiro”.

Menos de 1500 euros brutos

Inqueridos no âmbito do diagnóstico à empregabilidade feito pela ODM, 77% dos médicos dentistas que estão a exercer no estrangeiro assumem que saíram de Portugal para melhorar as condições remuneratórias e 70% declararam que não têm intenção de regressar por não acreditarem ser possível replicar em Portugal as condições de trabalho de que dispõem lá fora.

O panorama que deixaram para trás, segundo o bastonário da OMD, deixa pouco a desejar. “Cerca de 40% dos médicos dentistas em Portugal ganham menos de 1500 euros brutos. A maioria está empregada em empresas ou estruturas e ganham uma percentagem sobre os tratamentos, sendo que os doentes escasseiam na prática privada e temos neste momento uma média de entre 500 a 600 profissionais a saíram das faculdades todos os anos”, caracteriza, dizendo ser crucial aumentar o financiamento público na área da medicina dentária para garantir o acesso da população a cuidados de saúde básicos. 

O Ministério da Saúde, que assinou em Setembro protocolos de colaboração com 65 autarquias para garantir acesso a médicos dentistas nos respectivos centros de saúde, planeia garantir acesso a consultas de medicina dentária no Serviço Nacional de Saúde (SNS) em todos os municípios, a partir de 2020. Por esta altura, deverá haver 278 consultórios públicos – um por cauda autarquia – e, até lá, a ideia é ir aumentando paulatinamente quer os consultórios públicos quer as consultas de saúde oral. Por enquanto, esse acesso fica garantido apenas a pessoas com doenças mais graves e com maiores carências económicas e não contempla a aquisição de próteses e implantes dentários, que constituem a maior fatia da despesa com a saúde oral. O leque de serviços prestados incluirá extracções, obturações e desvitalizações de dentes, além do diagnóstico de doenças.

Ao mesmo tempo, o cheque-dentista já tinha chegado a 3,3 milhões de pessoas em meados de 2018, ou seja, dez anos após a sua criação. Estes cheques cobrem apenas crianças e adolescentes até aos 18 anos de idade e a frequentar as escolas públicas, idosos com complementos solidários, grávidas, portadores de VIH/Sida e alguns doentes.

O barómetro da saúde oral relativo ao ano passado, elaborado para a OMD, revelava que mais de 70% dos portugueses tinham falta de dentes naturais e, entre estes, mais de metade (55%) não tinham dentes de substituição, fossem próteses, dentaduras ou dentes fixos. E tinham aumentado para os 30% os portugueses que declararam que nunca vão ao médico dentista (ou que iam apenas em caso de urgência), dos quais quase um terço por causa de dinheiro.