Crianças, mazelas e africanos: o antigo cemitério de Bucelas é um mistério

Escavação arqueológica revelou necrópole que dá pistas para investigar como se vivia e morria nos arredores de Lisboa entre os séculos XV e XIX: "Bucelas seria uma vila muito difícil para se viver".

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Já apareceram esqueletos de cinco africanos, adultos e crianças, identificados pela estrutura dentária. Um deles tem o braço partido e um hematoma tão grave na perna que calcificou. Mesmo assim, percebe-se que continuou a ter de trabalhar
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Já apareceram esqueletos de cinco africanos, adultos e crianças, identificados pela estrutura dentária. Um deles tem o braço partido e um hematoma tão grave na perna que calcificou. Mesmo assim, percebe-se que continuou a ter de trabalhar
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Já apareceram esqueletos de cinco africanos, adultos e crianças, identificados pela estrutura dentária. Um deles tem o braço partido e um hematoma tão grave na perna que calcificou. Mesmo assim, percebe-se que continuou a ter de trabalhar
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Já apareceram esqueletos de cinco africanos, adultos e crianças, identificados pela estrutura dentária. Um deles tem o braço partido e um hematoma tão grave na perna que calcificou. Mesmo assim, percebe-se que continuou a ter de trabalhar
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Um dos cinco esqueletos de indivíduos africanos encontrados no local DR

Encontrar esqueletos quando se faz uma escavação arqueológica junto a uma igreja é acontecimento quase de lana-caprina, mas o caso muda de figura se dissermos que uma grande parte são ossadas de crianças, que há pelo menos cinco africanos na necrópole e que uma larga maioria tem várias fracturas nos membros.

Bucelas, concelho de Loures. Foi junto à igreja paroquial desta vila, consagrada a Nossa Senhora da Purificação, que se abriu uma janela para um largo período da História de toda esta zona nos arredores de Lisboa, para já com mais dúvidas do que certezas.

Quando o muro que suportava o adro da igreja ruiu, com as chuvas do ano passado, a Câmara de Loures projectou uma nova estrutura, que até foi parcialmente construída, e chamou os seus arqueólogos para uma “intervenção de emergência”. Quase um ano depois, a equipa ainda por lá anda, teve mesmo reforços, e o novo muro está a meio – por um bom motivo. “Inicialmente havia alguma resistência, as pessoas não compreendiam porque é que o muro parou para esta intervenção”, sorri Florbela Estêvão, coordenadora dos trabalhos.

Num bocado de terreno com cerca de cinco metros de profundidade e não mais do que três de largura apareceram os esqueletos completos de 59 pessoas e muitos ossos soltos, correspondentes a “centenas de indivíduos”, que estariam numa espécie de “mega-ossários”, descreve a antropóloga Nathalie Antunes Ferreira. Até agora foram encontrados “contextos que vão do século XV ao XIX”, diz, mas a expectativa é que apareçam mais ossadas e até de épocas anteriores.

“Há uma grande percentagem de crianças, até bebés de meses, o que nos parece apontar para condições de vida muito precárias”, explica Nathalie. Convicção que é reforçada pelo elevado número de fracturas “nos braços e nas pernas” que os esqueletos apresentam. “Trabalho em Antropologia há 25 anos e nunca vi tanta percentagem de fracturas. Indivíduos com duas, três fracturas. É realmente grave”, comenta.

Ao percorrer o espaço, Nathalie Ferreira vai explicando que “há indivíduos que são apenas enterrados em covas e outros em sepulturas”, o que parece demonstrar, desde logo, “alguma diferenciação” social. Há três fileiras de sepulturas alinhadas, o que denota “uma certa organização deste cemitério”, mas entre elas há valas cujos limites são, por vezes, difíceis de perceber.

Foi nessas covas que apareceram esqueletos de cinco africanos, adultos e crianças, identificados pela estrutura dentária. Um deles tem o braço partido e “um hematoma tão grave na perna que calcificou”, diz a antropóloga. “Nota-se que o indivíduo, mesmo depois de sofrer aquele problema, continuou a trabalhar.” Outro, que morreu aos 12 anos, foi enterrado com “uns brincos e um anel”, descoberta curiosa para a qual não há ainda uma explicação.

Bucelenses de várias gerações

Florbela Estêvão sublinha que “não há distinção entre esses enterramentos [de africanos] e os outros”. Iguais na morte, muito provavelmente diferentes em vida. “Nos livros de óbito do século XVI já identificámos 16 escravos que foram enterrados no adro”, explica a arqueóloga da Câmara de Loures, que a par do trabalho de campo se tem dedicado a alguma pesquisa histórica sobre os achados.

A área em redor da igreja de Bucelas, bem no centro da vila, já há muito que está cartografada como tendo um elevado potencial arqueológico e também já se desconfiava que por ali tivesse existido um cemitério. “Todo este campo foi em tempos murado”, refere Florbela, apontando para um grande pinheiro que está hoje no largo: ali existiu, até ao século XX, uma pequena capela dedicada ao Espírito Santo. Esse templo pertencia a uma confraria, que ali tinha um hospital ou hospício.

Por "hospital" entenda-se algo bastante diferente daquilo que nos vem hoje à cabeça. Era essencialmente um espaço que “acolhia os mais pobres, os indigentes, dava apoio aos peregrinos”, explica Florbela Estêvão. No que é actualmente o concelho de Loures existiram várias estruturas deste tipo, em São Julião do Tojal, Santo Antão do Tojal, Santo António dos Cavaleiros. “Aqui em Bucelas passava um caminho secundário que direccionava os peregrinos para o caminho principal de Santiago”, diz ainda Florbela, o que leva Nathalie a arriscar que as pessoas ali enterradas “não seriam todas bucelenses”. Mas muitas sim, contrapõe a coordenadora da escavação: “Pelos registos de óbito, a maior parte seriam pessoas que viviam aqui na paróquia.”

Não se sabe exactamente quando foi criada a Confraria do Espírito Santo, pois até agora o único registo disponível é o da sua confirmação, depois do Concílio de Trento (1545-1563), sabendo-se que, para ser confirmada, tinha já de existir antes. “A capela pode até ser anterior ao templo primitivo” que existiu no exacto sítio onde está hoje a igreja matriz de Bucelas, afirma Florbela Estêvão, porque lá se conserva “um retábulo gótico maravilhoso” da Santíssima Trindade que pertencia à confraria.

Se os bucelenses estão em maioria nesta necrópole, se há tantos bebés e crianças, se há tantas mazelas, “percebe-se que Bucelas seria uma vila muito difícil para se viver”, diz Nathalie Ferreira, que está convicta de que “há aqui informação muito interessante sobre como vivia a população e sobre a própria morte”.

O que agora se escavou é apenas “uma janela de um espaço muito maior com imenso potencial arqueológico”, opina Florbela. Às ossadas destes quatro séculos juntam-se elementos encontrados anteriormente que atestam a ocupação milenar de Bucelas e a confluência de gentes de todas as origens. Nas traseiras da igreja há um cipo romano que, segundo a arqueóloga, se refere a um homem jovem que foi edil de Olisipo (actual Lisboa). O próprio templo, datado da segunda metade do século XVI, testemunha a importância da zona, ocupada sucessivamente por nobres lisboetas – e os seus escravos.

Inicialmente olhadas com desconfiança por alguma população, estas escavações já motivaram uma exposição temporária no Museu do Vinho e da Vinha de Bucelas e inúmeras visitas guiadas. A intenção da autarquia é, uma vez concluídos os trabalhos, fazer uma nova exposição, organizar conferências e materiais de divulgação. Até lá, outras surpresas podem surgir.