Crónica

Clint, Kechiche e todos os outros

Os tempos são tensos, o racismo existe, o sexismo existe. Mas convém manter alguma serenidade e não pedir que cada filme venha, por si mesmo, resolver tudo. Normalmente até são melhores quando complicam em vez de resolver.

Chega esta semana às salas portuguesas o último filme realizado por Clint Eastwood, The Mule, que por aqui se vai chamar Correio de Droga, em tradução literal do calão do título original. É um filme magnífico, um regresso de Clint àquela forma, tensa, complexa, cheia de arestas, que já não lhe víamos desde Gran Torino, há dez anos. Claro que Clint, que deve ser o mais velho realizador activo no cinema americano mainstream (embora não esteja sozinho na grande escala das coisas: há Jean-Luc Godard, Frederick Wiseman, Paul Vecchiali, todos nascidos, como ele, em 1930), depois daquele breve período de enlevo quase generalizado entre os 90 (a seguir a Imperdoável) e o princípio dos anos 2000 (digamos, até Million Dollar Baby), voltou a tornar-se, nos últimos tempos, uma figura polarizadora – continua-se sem se lhe perdoar a evidência das suas tomadas de posição políticas, como naquela vez em que monologou com uma cadeira vazia onde simbolicamente se sentava Barack Obama (no entanto, um momento genialmente absurdo, como se Dirty Harry invadisse uma peça de Ionesco), ou em todas as vezes, antes das últimas eleições, em que manifestou preferir Trump “ao que temos agora”. O mundo, em geral, não morre de amores pelo Clint-indivíduo, o que é até um erro, mas aceitemos.

Erro maior é transpor o que sabemos sobre o indivíduo para a obra dele, lê-la a essa luz, como se fosse a personalidade a iluminar a obra e não a obra a iluminar a personalidade. A situação não terá (ainda) dada a volta completa de regresso aos anos 70, quando dos primeiros filmes realizados por Clint se dizia serem obra de um “fascista” e se passava à frente – uma sina parecida com a de Samuel Fuller nos anos 50, quando o papa da crítica francesa pré-geração dos Cahiers, Georges Sadoul, o arrumou a um canto exactamente assim, como um “fascista” (e no entanto, quando a gente hoje vê o ensemble da obra de Fuller, o que ressalta é o olhar de um dos maiores democratas do cinema americano clássico). Mas se não deu a volta completa, está lá perto. Não é que seja um exemplo extraordinariamente significativo, porque na internet se encontra de tudo para todos os gostos e desgostos, mas numa volta online pela crítica americana lá encontramos The Mule a ser despachado como “just another racist melodrama”, “só mais um melodrama racista”. Espantoso, mas não surpreendente, como dizia o velho Langlois. Porque para além de The Mule, no seu arco narrativo, expor bem o racismo institucionalizado (a personagem de Clint pode escapar ao radar da polícia durante tempo por não corresponder ao estereótipo do “correio de droga”, mais associado a outros perfis que não o de um “homem branco velho”), contém momentos em que o assinala directamente – a cena, no restaurante sulista aonde as personagens vão comer sandes de porco assado, em que os mexicanos que acompanham a personagem de Clint são importunados pelo polícia por nenhuma outra razão que não o facto de serem “latinos”; ou mais agudamente até, a cena, ainda por cima bastante marginal para a narrativa (e portanto nada casual, pelo contrário), em que um homem negro ao volante do seu SUV é mandado parar para uma revista policial e fica num pânico quase histérico (“estatisticamente, este são os cinco minutos mais perigosos da minha vida”), no que é um reconhecimento expresso, e de facto angustiante, da tendência da polícia americana para a brutalidade racista.

O que Clint não é é um idealista, muito menos um revolucionário. É um realista, que observa, constata, retrata. Constata a existência do racismo mas não tem nenhuma solução mágica para o resolver, nem concebe os seus filmes como mecanismos reparadores da sociedade, “a substituírem ao nosso olhar um mundo de acordo com os nossos desejos”, para citar a célebre epígrafe do Desprezo que precisou de esperar 50 anos para se consumar plenamente – porque sobretudo no cinema americano mainstream, o dos Óscares, das parangonas jornalísticas e das discussões no Facebook, o que se pede hoje é que os filmes sejam da ordem da fantasia social e nos dêem o mundo como a gente gostava que ele fosse. Na sua renitência a este tipo de fantasia, mais do que um “direitista”, Clint revela-se como uma força do passado, de quando o cinema servia para nos inquietar, não para nos sossegar a consciência.

Também estreia esta semana o primeiro tomo do último filme de Abdellatif Kechiche, Mektoub, Meu Amor: Canto Primeiro. De origem magrebina, e pleno de personagens de origem magrebina, o epíteto que lhe cai em sorte não é o de racista, mas o de sexista: haveria, segundo algumas reacções, demasiadas raparigas em trajos menores, e demasiados poucos rapazes nos mesmos preparos (o filme, já agora, é uma celebração magoada do hedonismo adolescente, com muita praia, muita dança, e um pouco de sexo). A pergunta que se pode fazer é: porque é que um filme, um só filme, tem de resolver, sozinho e por si só, as questões de paridade na representação (despida) de género? Por cada rapariga de bikini (ou menos do que isso) no filme de Kechiche seria possível indicar outro filme onde são os homens que estão nus (coisa que curiosamente talvez até aconteça mais em filmes dirigidos por homens do que em filmes dirigidos por mulheres). Os tempos são tensos, o racismo existe, o sexismo existe. Mas convém manter alguma serenidade e não pedir que cada filme venha, por si mesmo, resolver tudo. Normalmente até são melhores quando complicam em vez de resolver. Mais, não pedir a um filme que seja “todos os filmes”: raramente dá bom resultado, e é tarefa demasiada para um filme só.