Opinião

O artista António Marinho e Pinto

Raras vezes a democracia produziu um exemplar com tanta falta de pudor e tanto excesso de lata como Marinho e Pinto.

Não é difícil nutrir uma leve simpatia por António Marinho e Pinto. As suas bengaladas verbais, a irascibilidade, a aura de enfant terrible e um certo estilo dandy dão-lhe um ar oitocentista, quase queirosiano, que fica bem nesta era da política de plástico. Foram, aliás, estas qualidades em falar para elites que o elegeram para bastonário da Ordem dos Advogados e foi a sua prosápia em dizer o que o povo quer que o levou ao Parlamento Europeu. O problema, porém, é que se o ar durão e a mística de cruzado servem para ganhar uma eleição, é suposto que a reeleição exija mais do que passeios pela Europa fria, um partido caudilhista ou uma propensão para a incoerência que desconhece a palavra de honra. Marinho e Pinto não pensa assim.

Apesar de estar “cansado” com Bruxelas e Estrasburgo, apesar de se julgar no final do “prazo de validade” há já um ano, apesar de o generoso salário de deputado lhe causar urticária moral, apesar de o Parlamento Europeu não “ter utilidade”, Marinho e Pinto decidiu devotar-se ao sacrifício e vai-se recandidatar. Ele “não queria”, note-se. Mas tem de prestar contas e, coisa transcendental, tem de obedecer à vontade do partido que, recorde-se, criou para espelhar o seu ego.

Raras vezes a democracia produziu um exemplar com tanta falta de pudor e tanto excesso de lata como Marinho e Pinto. Comparado com ele, qualquer deputado videirinho, dedicado a assinar presenças, a votar de cruz nas comissões ou a fazer declarações inócuas parece uma estrela. Porque, pelo menos, a condição dessa espécie é passar despercebido. Marinho e Pinto não. Com ele, tudo se faz com ruído. A campanha para a eleição, a saída do partido que o elegeu, a criação de um partido feito à medida para o reeleger, tudo obedece ao estrondo e à incoerência ou à falta de memória, de exemplo e de um mínimo rubor na face.

Talvez o ora recandidato acredite que os eleitores que o desprezaram nas legislativas (o seu PDR teve 1,14% dos votos) aceitem com piedade a única sincera proposta política que tem para lhes apresentar: o generoso salário de Bruxelas que tanto nojo lhe causou. Ele, que se diz “pobre” e tem “uma filha no estrangeiro”, precisa. Saber se merece, ou se o país merece, é outra coisa. Talvez, por isso, o teste das europeias seja para ele o fim do circo. Os portugueses serão crentes, mas não hão-de ser tão parvos como Marinho e Pinto supõe.