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Não é só discriminação

Exijo que as pessoas, todas elas, negros, brancos, portugueses e não portugueses, tenham o mesmo tratamento em decorrência da mesma condição de seres humanos. Proponho que deixemos de olhar para o lado e nos foquemos no interior, proponho que sejamos mais interventivos. Proponho que sejamos seres autenticamente humanos.

Volvendo à minha infância, recordo algumas notas mentais relacionadas com o convívio com seres humanos de outras cores ou de outras nacionalidades. Lembro-me de cogitar acerca da motivação subjacente à discriminação de alguém que não fosse branco, não nestes termos, claro está, mas sinto que a mentalidade de uma criança é, não raras vezes, desvalorizada.

Senão veja-se: uma criança não pensa se está a brincar com um branco ou com um preto, com um chinês ou um italiano, não pensa, brinca, apenas. Isto reporta-me a indagar-me o porquê de adultos terem tanto afinco num pensamento deste género, da razão aliada à qual muitos olham de lado para “mais um no país que não é dele”, como lhes apelidam.

É duro, isso sim, para uma criança ser desvalorizada em função da sua cor de pele; é duro para uma jovem não se sentir devidamente enquadrada porque usa um lenço à volta da cabeça (leia-se, um hijab, por exemplo); é, igualmente, intenso um adulto não poder andar de cabeça erguida na sua própria rua porque há quem não o veja como igual.

A realidade é que escrevo este texto motivado pelos mais recentes acontecimentos no Bairro da Jamaica, no Seixal, no entanto, não me quero focar em tal infeliz ocorrência; gostava, antes, de concentrar o meu tento na base do problema e não nas suas consequências. Acredito que somos, ainda hoje, uma sociedade discriminatória, porque, na verdade, discriminamos tudo um pouco: dizemos que não vemos qualquer problema na homossexualidade, no entanto, quando passamos por um casal de homossexuais na rua não hesitamos em comentar; afirma-se que já não se está diante de uma sociedade envolta no leque do racismo, mas não tardamos em menosprezar a inteligência de um africano (perdoem-me se generalizo, mas falo do que vejo e oiço), sobrevindo, depois, as desculpas de que não tiveram a devida educação — leia-se uma educação europeia ou americana. Admitindo que tal pudesse ser alguma espécie de justificação, quem foram os engenheiros do colonialismo e da tardia, e diga-se, terrivelmente mal feita descolonização, senão os europeus?

Sou branco, sou português e considero ter tido uma boa educação, e, por isso, afirmo peremptoriamente que não há absolutamente factor nenhum que me faça ter fobia de alguém enquanto essa pessoa não me der razões para tal, seja ela de que etnia for. Aliás, facilmente encontro o problema da sociedade portuguesa noutros parâmetros, seja nas operações judiciais que correm contra antigos altos quadros da nação, bancários e banqueiros que se intitulam os “donos disto tudo”, na alta formação de jovens, mas também na parca educação, na facilidade com que nos desacreditamos uns aos outros, na generalizada classe elitista política em que mais de metade da população não se revê, observadas as taxas de abstenção. Isso sim causa-me fobia.

Sempre achei que aqueles que apontam defeitos e desigualdades sofrem, interiormente, similitudes àquilo que fazem questão de fabricar notar. É o caso paradigmático de um complexo de inferioridade qualquer que atormenta esse tipo de pessoas. Não pretendo aqui ser o adventista da nova moral, mas exijo, como cidadão de um Estado de Direito, que este se efective. Exijo que as pessoas, todas elas, negros, brancos, portugueses e não portugueses, tenham o mesmo tratamento em decorrência da mesma condição de seres humanos. Proponho que deixemos de olhar para o lado e nos foquemos no interior, proponho que sejamos mais interventivos no dia-a-dia e que não toleremos mais artifícios de uma qualquer ordem, classe ou raça superior. Proponho que sejamos seres autenticamente humanos.