Ensaio

Tempos mortos

Em caso de emergência, o único escape é a rampa em caracol que se vai desenrolando sabe-se lá até… ao céu.

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Álvaro Domingues

(…) do mesmo modo que todos os cemitérios deste ou de qualquer outro mundo, começou por ser uma coisinha minúscula, uma parcela breve de terreno na periferia do que ainda era um embrião de cidade, virado para o ar livre das campinas, mas depois, com o andar dos tempos, como infelizmente tinha de ser, foi crescendo, crescendo, crescendo, até se tornar na necrópole imensa que é hoje. Ao princípio esteve todo murado ao redor, e, durante gerações, de cada vez que o aperto lá dentro começava a prejudicar tanto o alojamento ordenado dos mortos como a circulação prática dos vivos, fazia-se o mesmo que na Conservatória Geral, deitavam-se abaixo os muros e levantavam-se um pouco mais à frente (1).

Assim escreve José Saramago no romance Todos os Nomes que é também o nome do cemitério que ficciona por lá estarem escritos todos os nomes (dos falecidos, claro, porque os outros estão registados na Conservatória Geral).

O universo ficcional de Todos os Nomes é uma distopia onde tudo é rígido, hierarquicamente organizado e controlado, repetitivo. É nesse pesadelo que se move o personagem principal, José, que, à procura de alguém que desconhece, a si próprio se persegue, dissipando barreiras em demanda por labirintos e bifurcações onde se encontre. Nem os mortos lhe dão tréguas. No cemitério, indagando se terá já finado aquela a quem procura, há um pastor maléfico que troca as tabuletas das sepulturas enquanto o rebanho deambula pelos terrenos mais abandonados. Insensato. É por causa do tédio do ar do campo, é por força da solidão no Campo Santo cercado pelas paredes imensas da Conservatória Geral, ora amarelas, ora às riscas, ora de cristal azul, sempre diferentes de cada vez que se derrubaram muros e se fizeram ampliações.

Uma vez que o cemitério e a Conservatória foram crescendo de caras um para a outra, a situação a que se chegou era inevitável. A cidade dos vivos e a necrópole dos mortos embateram de frente até não restar nem uma nesga de espaço onde se fazer prédio ou sepultura. Em caso de emergência, o único escape é a rampa em caracol que se vai desenrolando sabe-se lá até… ao céu. É bom para as almas em trânsito ascensional e para a condução espiralada dos automóveis para o estacionamento na cobertura do grande edifício, como nos centros comerciais.

O campo está uma jazida de mármores e granitos em ângulos rectos, uma floresta de cruzes. Um serviço para uma larga temporada de britadeira a trabalhar ininterruptamente. A cidade está densa, oprimida por um céu que ameaça tempestade vinda do mar. Tudo parece suspenso numa quietude, como uma terra abandonada por todos, depois dos vivos praticarem a última homenagem à memória dos mortos, colocando flores frescas nas sepulturas. Não tarda, virão bátegas grossas de chuva batidas a vergastadas de vento e as flores perderão o viço como que afogadas ou naufragas do dilúvio. 

Melhor seria descerrar este cenário, devolver ao campo os pastos, a largueza de vistas, os arvoredos, os pastores e os faunos dos poemas de Bernardim Ribeiro, … buscava sempre ribeiros, / d’agoa mui crara e fresca / ali, antre os meus cordeiros / soía dormir a sesta (…), e deixar definitivamente em descanso esta paz das pedras e do silêncio dos mortos.

Não é assim o mundo. O animal humano é uma constante excitação, uma fome de tempo e eternidade. No cemitério, fazer tempo é perpetuar a presença dos que foram, monumentalizando o lugar, escrevendo nas lápides os nomes, as datas, as palavras sempre prontas a serem ditas; a cada leitura uma invocação. Na cidade perde-se muito tempo, como se ouve dizer, nos transportes, nas filas, nas salas de espera, retire a senha e aguarde a sua vez, o número que ligou não está disponível, tente de novo ou deixe mensagem, ti, ri, ti, ti. O tempo ganho é o tempo de uma tarefa retribuída, o tempo de uma conversa que resolveu um assunto encalhado, o tempo em que a máquina está a maquinar. Enquanto houver música, há tempo e o tempo passado num silêncio, é uma pausa.

Se não se pensarem qualificativos para o tempo, a temática simplifica-se. Equacionar o movimento aparente do Sol ou a cadência monótona dos relógios entre duas categorias, ganhar ou perder tempo, é um cálculo muito limitativo. Tão inadequado que nem serve para aquelas minúsculas sementes das ervas do deserto que adormecem anos a fio para, subitamente, depois de um aguaceiro, germinarem, florirem e gerarem outras sementes para quando voltar a chover, voltar a haver flores. Se o racional disto fosse o utilitarismo binário dos ganhos e das perdas de tempo, ficaria sem se perceber que tempo é este da planta insignificante, se é produzir sementes, esperar ou germinar. Deve ser antes a garantia do retorno, eterno ou não, consoante a possibilidade de a semente conservar a sua vitalidade em períodos de seca muito longos — nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma, como já alguém disse.

Sabemos, contudo, antes que o encadear do pensamento se enrede em si mesmo, que existem situações de não retorno: nem o cemitério avança sobre os edifícios, nem as novas construções avançarão sobre o cemitério.

Se isso se verificar é porque será outro tempo e não este.

 

José Saramago (1997), Todos os nomes, Porto: Porto Editora, pp.212