MANUEL ROBERTO

A montanha é uma força maior que nos gela e fascina

Quando um resort se aninha a 1750 metros de altitude, em plenos Alpes franceses, sabemos que são as montanhas que mais ordenam. De Inverno, dão esqui a rodos. De Verão, o melhor queijo. O novo Club Med Les Arcs Panorama promete refúgio para todo o ano.

Não vale a pena resistir, o filme não nos sai da cabeça. À janela, o cenário vai-se transfigurando como slides a passar ao ritmo da sonolência: pequenas vilas charmosas com as suas igrejas de pináculo, chalets de telhado inclinado, um lago imenso. As encostas ainda sobem negras, rochosas, mas lá ao fundo já se anunciam alguns picos nevados. É como se fôssemos no autocarro com Matt e Fanny, o casal amigo das personagens principais de Força Maior, a caminho do mesmo destino: um resort em plenos Alpes franceses.

Não haverá avalanches (só pensaremos nelas quando passarmos por uma placa de aviso numa curva da estrada – não que seja comum, mas a probabilidade não é zero) nem teremos discussões profundas sobre a ética do instinto de sobrevivência. Mas as paisagens são em tudo semelhantes. As panorâmicas geladas, o branco que se impõe a todos os sentidos, o silêncio opaco, como se a neve fosse capaz de sugar até o mínimo ruído, o contraste que se pressente entre o quente cá de dentro e o frio lá de fora. O esqui, o esqui, o esqui.

Pranchas nos pés, botas grossas que nos apertam os ossos, capacete, luvas, casaco fechado até ao queixo e aí vamos nós, do quente da sala dos cacifos ao frio soalheiro, meia dúzia de passos são suficientes para chegarmos aos graus negativos (as temperaturas mínimas hão-de bater os -11ºC). Logo ali, um túnel com passadeira rolante e o filme a voltar-nos à memória. Se na película de Ruben Östlund a lentidão do trajecto alimenta a tensão de uma relação em crise, nós subimos na tensão do medo de quem esquia pela primeira vez. De manhã, dois dedos de neve chegavam para encontrões e quedas. Agora querem que descemos aquela colina toda – minúscula, ridícula, até nos porem uns esquis e pedirem para deslizarmos por ali abaixo, Mont Blanc da nossa inexperiência e, confessemos, fraca aptidão.

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Mas os instrutores estão confiantes e de ar descontraído, por isso deixamo-nos convencer. Miúdos que nos dão pela cintura já nos ultrapassam como se nada fosse e nós – grupo de jornalistas feitos, vindos de Portugal, do Brasil, do México, do Reino Unido – a caminhar como pinguins no gelo, a deslizar em fila indiana, entre o pavor e o riso descontrolado, a treinar vês invertidos para abrandar a marcha e a tentar, tudo por tudo, não tirar os olhos do caminho imaginado, porque senão é certo que os esquis vão ganhar vontade própria e embater onde não queríamos. Corpos alheios, redes de protecção, casca do túnel rolante, conseguiremos ir contra tudo. E, no entanto, em terreno de aprendizes ninguém leva a mal. Há sempre uma mão pronta a ajudar-nos a levantar e a dar coragem para a próxima descida. E, como em chão fofo não cai nódoa negra, o corpo vai pedindo mais, que a satisfação daqueles segundos em que tivemos tudo controlado é superior a qualquer humilhação.

Duas aulas para principiantes, num único dia, não dará para muito mais do que ver o bichinho do esqui nascer entre quedas e sentir o descanso que é ter logo ali o ski room, abençoada porta para um éden aquecido com café à disposição.

Um refúgio depois do esqui

Descontando os dias de viagem, para lá e para cá, estaremos dois dias completos no Club Med Les Arcs Panorama, integrados numa comitiva que encheu de mundo o resort para a inauguração, em meados de Dezembro. É a 17.ª unidade hoteleira do grupo nos Alpes franceses; 21.ª se incluirmos as vizinhas montanhas italianas e suíças. O edifício, com vista privilegiada sobre o vale de Tarentaise a partir das varandas principais, surge em camadas onduladas, a lembrar Le Corbusier, como se dançasse com as florestas de pinheiros e abetos cobertos de neve que se vêem para lá das janelas. No interior, perpassam as formas orgânicas e a natureza insinua-se em silhuetas de árvores e de animais das montanhas; o uso das madeiras, do mármore de Savoy, dos cobres e das cores quentes torna tudo aconchegante sem cimentar o contraste entre o dentro e o fora.

Ski in, ski out em 265 quilómetros nos Alpes

O check-in é feito no colo de uma das poltronas do hall de entrada: é o recepcionista que se aproxima de tablet na mão e tudo é tratado ali. Se tiver alugado o material de esqui ou snowboard de antemão, já o deverá ter pronto no cacifo do ski room – basta aproximar a pulseira para abrir a porta (do cacifo ou do quarto). Um pouco mais à frente, fica a boutique e o bar, com um lounge enorme e um palco para os espectáculos que decorrem à noite.

Quanto a restaurantes, existem três. No espaço principal, La Pierre Blanche, todas as refeições são servidas em regime de buffet, com vários pratos finalizados pelo cozinheiro no momento do pedido. Já o 1790 Gourmet Lounge oferece refeições leves ao almoço e um menu de degustação ao jantar, com uma ilha de bar e uma carta de vinhos caprichada. A pensar nas famílias, o Bread&Co é um dos conceitos mais recentes: aqui são as crianças que convidam os pais para jantar, que escolhem a comida e que ainda ajudam na confecção da refeição, num ambiente interactivo.

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Quatro clubes garantem a supervisão e o entretenimento dos miúdos, dos quatro meses aos 17 anos (Baby, Petit, Mini e Passworld, consoante a faixa etária), incluindo áreas de brincar, mas também um ski room reservado, um "jardim de neve" e piscina interior aquecida. Mas os crescidos que não se apoquentem: o spa tem piscina interior e exterior, ambas aquecidas, assim como um jacuzzi na varanda, além de salas de tratamentos, sauna e ginásio.

Para quem já conhece o conceito do Club Med, a maior novidade talvez seja o Le Belvédère, uma área cinco tridentes no interior de um resort de quatro tridentes (a versão Club Med para as habituais estrelas). O espaço é reservado a quem fica hospedado numa das 24 suítes da Exclusive Collection e integra serviço de concierge, um lounge com bar e um largo terraço com jacuzzi.

Subir às montanhas

A promessa de subirmos ao topo da Aguille Rouge, o pico mais alto da estância (marca 3250 metros de altitude), pareceu-nos uma boa alternativa para conhecermos aquilo que andávamos a perder, de esquis inexperientes presos à babugem gelada junto ao resort. Ao segundo dia, deixámos a espuma e fomos ver as ondas grandes, já no conforto estático das botas de montanha. Só se esqueceram de nos avisar que o autocarro não iria galgar até ao topo. A avaliar pelo número de calças de ganga, não fomos os únicos a imaginar um passeio no conforto do veículo aquecido, saída para uns minutos de contemplação, mil fotografias e regresso.

Mas a estrada termina aos 2000 metros de altitude. E só junto ao teleférico que nos levaria à Aguille Rouge é que constatamos que se mantém encerrado – o nevão da noite anterior tinha feito estragos no sistema e um helicóptero continuava lá no alto em operações. Alternativa? Caminhar uns bons 40 minutos entre pistas e seguir noutro teleférico até outro ponto alto.

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As vistas hão-de compensar o frio – até porque o que ele não congela transforma em conversa animada. Daqui vêem-se os principais picos da estância, com a Aguille Rouge a rir-se à nossa direita e, em frente, um vale de neve fofa e pinheiros a descer até ao Monte Branco, bem lá ao fundo, com o pico mergulhado numa nuvem fina e espessa, sinal de que irá nevar durante a noite, aponta-nos um dos instrutores. À nossa volta, sobem rios de teleféricos para depois descerem, em grupos coloridos, dezenas e dezenas de esquiadores.

É o primeiro dia da temporada e já o funicular que liga a cidade de Bourg Saint-Maurice à estância de Les Arcs (1600) anunciava um dia cheio nas pistas de esqui. Só para abrir o apetite aos mais experientes: são três as estâncias que compõem o domínio esquiável de Paradiski, num total de 264 pistas, 425 quilómetros distribuídos por percursos para todos os níveis. Do ski room ao teleférico mais próximo são dois minutos a esquiar, segundo dados do resort. A pista mais próxima é azul.

Descer à vila do queijo

Resolvidos a deixar o esqui para um regresso, aproveitámos a manhã para descer até à cidade. É sábado, dia de mercado de rua, e as bancas enchem-se de roupas, CD e muitas hortaliças, queijos e enchidos produzidos na região. Numa enorme frigideira, cozinham-se caracoletas com molho verde. A rua principal do pequeno centro histórico está fechada ao trânsito, concentrando a maioria dos cafés, restaurantes e lojas de souvenirs. Numa das esplanadas, um DJ anima a manhã e há quem arrisque um pé de dança ou um trautear de cabeça ao ritmo da música electrónica francesa que sai das colunas de som.

No fim da rua, próximo da gare de comboios e de autocarros, fica a loja da cooperativa de lacticínios de Haute Tarentaise. Até 1991, era neste edifício que produziam o queijo mais famoso da região, o Beaufort, com denominação de origem protegida. Mas a fábrica mudou-se entretanto para umas instalações maiores à saída da vila. É lá que Gilles, um dos trabalhadores, recebe o grupo para uma visita guiada (são gratuitas, decorrendo de manhã, entre as 9h30 e as 11h30, embora haja quem confesse existir a intenção de terminá-las).

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Enric Vives-Rubio

A cooperativa une 52 produtores da região e aqui chegam, todos os dias, dezenas de litros de leite, num total de oito milhões por ano. É só nas cubas que vemos na sala lá em baixo que o leite fresco da noite anterior é misturado com o leite, ainda morno, colhido durante a manhã. Cada cuba tem capacidade para quatro mil litros de leite, o que resultará em oito queijos de 40 kg cada, vai debitando Gilles, entre o francês e o inglês.

Seguem-se processos consecutivos de 24 horas: prensa, arrefecimento e imersão em água salgada, para começarem a ganhar aquela crosta característica. Vão depois para a cave, onde nos encontramos agora. Corredores e corredores de prateleiras de queijos enormes, redondos e achatados, que outro funcionário da fábrica, empoleirado numa empilhadora, vai virando à mão. Entre cinco meses a um ano, cerca de 21 mil queijos são virados, salgados e esfregados manualmente pelo menos duas vezes por semana. Quase toda a produção é vendida na região e em algumas lojas espalhadas pelo país.

Vai ser possível subir os Alpes no terraço de um teleférico

Já na sala de provas, falam-nos de um outro pormenor: há diferenças de sabor entre os queijos produzidos no Verão e aqueles produzidos no Inverno. Os primeiros são “mais macios e frutados”, os de Inverno “mais secos”; fruto da alimentação do gado nas diferentes estações. No Verão, a neve cede e as montanhas transformam-se em prados frondosos. “As vacas saem em Junho e depois vão subindo por fases, a cada dois ou três dias, até atingirem o topo, no mês seguinte. No final do Verão, vão descendo por fases também, até recolherem aos estábulos por volta de Outubro.” No Inverno, alimentam-se de fardos de palha.

Voltamos, por momentos, ao coração das pistas de esqui. Se olharmos com atenção, vamos descobrindo, aqui e ali, pequenas casas de pedra por entre a neve, algumas soterradas até ao primeiro andar. Uma delas, aponta a guia, é uma minúscula capela, com uma cruz discreta sobre o telhado. Muitas foram entretanto transformadas em casas de veraneio, mas outrora era ali que os pastores ficavam durante os meses de Verão, era ali que as vacas eram ordenhadas nessa altura e, por vezes, era ali que se fazia o queijo também.

Partimos, com os olhos lavados em branco, a imaginar se reconheceríamos estas montanhas daqui a uns meses, quando quase tudo o que agora vemos tiver derretido em verdes, flores e riachos, com bovinos plácidos onde agora descem esquiadores a alta velocidade.

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A Fugas viajou a convite do Club Med