João César Monteiro: os novíssimos dão por ele

O realizador de Recordações da Casa Amarela, A Comédia de Deus, Branca de Neve ou Vai e Vem faria hoje 80 anos. Dezasseis anos após a sua morte, o que pensa dele a novíssima geração do cinema português?

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daniel rocha

Em 1992, o então embaixador de Portugal em Marrocos censurou Recordações da Casa Amarela (1989), de João César Monteiro, excluindo-o de um ciclo de “cinema europeu” programado para aquele país. Alegou o diplomata que o filme era excessivamente “cru” – mesmo se (ou sobretudo?) legendado em francês – e, portanto, “inconveniente e inadequado” para o consumo dos locais. O realizador António-Pedro Vasconcelos enviou a César Monteiro uma solidária carta de heróico desagravo: “Quem representa Portugal és tu e o teu filme, como Baudelaire e Sade representavam a França, e não os seus juízes e algozes, de cujo nome a História não se lembra.” Noticiava o PÚBLICO, em Maio desse ano, que o cineasta “não se comoveu” e ripostou: “Endireita o pénis: não endireites o mundo.”

A polémica e a boutade histriónica foram a permanente banda sonora e belicosa da vida de João César Monteiro. Por vezes, o próprio realizador se encarregou de proibir intempestivamente a exibição de filmes seus, como quando retirou Recordações de uma mostra de cinema português em Marselha ou como quando recusou que A Comédia de Deus (1995) e Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço (1970) fossem projectados no Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, cidade onde nasceu, no dia 2 de Fevereiro de 1939. Mas sempre a vida e a obra de César Monteiro se coseram uma à outra, acabando por fundir-se em João de Deus, o alter-ego que protagoniza os três filmes da sua “comédia lusitana”. Dezasseis anos passados sobre a morte do realizador (cumprem-se amanhã), desaparecida a espuma anedótica e circunstancial dos dias, que lugar ocupa a sua obra na obra e no imaginário da novíssima geração do cinema português? Será que dão por ele? E por ela, a obra?

“Como é que eu hei-de explicar a importância que este realizador tem para mim?”, interroga-se afavelmente Duarte Coimbra (n.1996), que concluiu a Escola Superior de Teatro e Cinema em 2017 e viu a sua curta-metragem, Amor, Avenidas Novas, integrar a Semana da Crítica do Festival de Cannes no ano seguinte. A primeira vez que ouviu falar de João César Monteiro foi através da mãe, que lhe contou ter visto ou “ouvido de olhos fechados um filme todo negro” – “Achei aquilo tão improvavelmente interessante que fui a correr pesquisar o que era”. Diz Coimbra: “Acima de tudo, é um exemplo de seriedade na comédia ou qualquer coisa desse género. Um exemplo de como levar a sério a própria piada. Não sei se estou a dizer baboseiras, mas a trilogia do João de Deus exemplifica a criação de uma personagem tão forte como a personagem do Charlot, por exemplo.”

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Coimbra é o mais jovem dos nossos inquiridos e Recordações da Casa Amarela terá sido o primeiro filme de João César Monteiro que viu, na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa: “Depois fui descobrir os filmes mais antigos dele, fui descobrir as curtas [e médias metragens], e fiquei muito sensibilizado com aquela que ele fez com o Luís Miguel Cintra, Quem Espera por Sapatos de Defunto Morre Descalço. Gosto muito desse filme, mas o filme dele de que eu mais gosto é À Flor do Mar, que é mesmo incrível.” Na Cinemateca, “com os colegas da Escola de Cinema”, Duarte Coimbra foi “apresentado aos realizadores do cinema português que hoje continuam a ser” as suas “maiores referências: João César Monteiro, Manoel de Oliveira e José Álvaro de Morais”.

Actualmente, quem não tem cinemateca caça com o YouTube, e foi aqui, aliás, que Duarte Coimbra e os colegas colheram ecos das picarescas provocações de César Monteiro. A propósito do filme Branca de Neve (2000), por exemplo: “Nós víamos aquilo e parecia-nos tudo uma coisa fantástica. É claro que ele diz coisas que são completamente reprováveis, mas existe alguma magia na maneira como falava do cinema. Há uma espécie de arrogância querida que ele tinha quando falava dos seus pares ou dos filmes que via, ou quando falava da sua própria pessoa. Há uma entrevista, que eu acho icónica, em que, se não estou em erro, o Fernando Lopes lhe pergunta se ele não ia ficar mais pobre sem os financiamentos [oficiais] para o cinema português, e o João César Monteiro responde: ‘Eu acho é que o cinema português vai ficar mais pobre sem mim.’ É claro que eu só sei dessas histórias, dessas lendas rocambolescas que se contam à volta da figura de César Monteiro, através do passa-palavra.” E da Internet. “Mas, sim, eu compro o bolo todo”, remata Coimbra. Isto é: a obra e o homem, os filmes e o realizador.

A exuberância franca de Duarte Coimbra contrasta com o absoluto mutismo de Leonor Teles (n.1992, realizadora de Balada de Um Batráquio, Urso de Ouro das curtas no 66.º Festival de Berlim)​, que, contactada por nós, respondeu: “Não tenho nada a dizer sobre o assunto.”

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dr

“João César Monteiro? Gosto muito, sim”, diz logo Diogo Baldaia (n.1992). “Gosto muito de O Último Mergulho [1992] e de A Comédia de Deus. Há em João César Monteiro um lado lúdico que me seduz bastante. Li, e não sei se isto é verdade, que houve uma espécie de aposta na produção do filme [O Último Mergulho], e que ele tinha um prazo-limite para filmar e montar. Eu andava na escola secundária na altura, e achei que havia nessa parte lúdica, processual, nesse modo como ele se desconstrói a si próprio, um não sei quê a que eu não queria chamar infantil, mas que é uma espécie de ginástica formal e de leveza que me seduz bastante. Também gosto das curtas dele.” Saído da Escola Superior de Cinema em 2015, o realizador de Miragem Meus Putos (e de outros dois pequenos filmes também premiados) está presentemente a montar Destiny Deluxe, a sua quarta curta-metragem. Baldaia distingue claramente a obra fílmica da fama truculenta que sempre acompanhou César Monteiro: “Pelo menos entre os meus amigos e colegas realizadores mais ou menos da minha idade, as pessoas, por norma, gostam dos filmes dele, mas não caímos facilmente na tentação de o individualizar pela personagem que ele também foi ou pelas coisas cómicas que disse e fez. Não gosto de falar pela minha geração toda, mas acho que a malta se foca nos filmes e não no misticismo que havia à volta dele como pessoa. O que perdurou foi a obra. Toda a gente tem noção de que ele era ousado, mas vale mais ele ter piada nos próprios filmes.”

Sendo a obra de Monteiro “tão particular”, dificilmente se poderá falar de uma “influência directa” sobre a mais nova geração do cinema português (na qual será mais provável vislumbrar a ascendência de Pedro Costa ou de Miguel Gomes): “Alguns planos, algumas cenas, como o final de Vai e Vem [2003] ou a cena da bênção de O Último Mergulho, por exemplo, influenciaram-me. Mas são já coisas muito particulares.” Baldaia prefere falar de um “perfume” que emana da obra de Monteiro e que tem que ver com “a forma como ele se desconstrói enquanto realizador e enquanto personagem. Ele transmite uma certa suavidade e uma descomplicação que me agradam. Parece que ele fez aquilo que fez porque queria fazê-lo e gostou de o fazer. Há nisso uma força que influencia mais do que propriamente uma coisa muito objectiva e formal”. Curiosamente, O Amor das Três Romãs, uma curta-metragem realizada por Monteiro em 1979, foi o último filme visto (em casa) por Diogo Baldaia: “João César Monteiro é um clássico. Quem entra na Escola de Cinema e tem curiosidade em conhecer o cinema português, começa por Recordações da Casa Amarela – o que já é quase como ver Os Verdes Anos ou Vale Abraão –, e depois vê todos os filmes dele. Duvido que isso venha a mudar nos próximos tempos.”

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André Santos e Marco Leão nuno ferreira santos

Diferentemente de todos os anteriores, nem André Santos nem Marco Leão – uma dupla em actividade cinematográfica há cerca de dez anos e que se prepara para iniciar proximamente a realização de uma série de ficção a convite da RTP – frequentaram a Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. Vêm dos multimédia e da publicidade e do marketing. O realizador de Veredas (1978) não é, para eles, “uma referência ou uma inspiração”. Pelo menos no exacto âmbito da realização cinematográfica. Explica André Santos (n.1984): “Ele faz parte do nosso imaginário, do nosso crescimento e da nossa história, embora os nossos filmes e os de César Monteiro dificilmente se cruzem. Mas admiro o trabalho dele como um todo, e admiro-o pelas coisas que fez, na altura em que as fez, e pela liberdade com que tomava as decisões que tomava. Era uma liberdade que se estendia à forma como vivia.” Dito isto, sublinha: “Uma coisa incontornável, e que todos nós tentamos trazer para o nosso trabalho, é a liberdade com que ele filmava e a liberdade com que se apresentava perante o mundo. O sentido de humor que ele tinha é absolutamente único. Faz imensa falta um cineasta tão acutilante quanto ele foi, alguém que diga as coisas sem rodeios. Porque a liberdade de João César Monteiro não acabava nos filmes, prosseguia na vida real.” Ora, a vida real presente, tão sitiada pela vigilância politicamente correcta (dizemos nós), algo teria a ganhar com a “extravagância, essa aura que ninguém hoje replica”, diz André Santos: “Falta-nos loucura.”