Cidadãos vão manifestar-se contra construção do centro judaico em Cascais

Terreno onde será construído o centro cultural judaico já está a ser preparado. A obra arrancará ainda este ano. Movimento de cidadãos contesta corte de árvores e vai manifestar-se este sábado, às 16h.

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Rita Franca

É um projecto contestado por um grupo de cidadãos desde que foi anunciado há mais de um ano. O SOS Costa da Guia não quer que se construa o centro judaico, nem nenhum outro edifício, num espaço verde da Costa da Guia, em Cascais, e vai voltar a manifestar-se contra ele este sábado. 

No início deste ano, começaram os trabalhos de preparação dos terrenos e com isso, diz o SOS Costa da Guia, a Associação Chabad “decidiu cortar quase duas dezenas de árvores adultas e em perfeito estado fitossanitário”, inclusive uma palmeira que estará protegida pelo Regulamento Municipal do Arvoredo de Cascais. Por isso, o grupo diz estar a preparar uma queixa ao Ministério Público.

O Jewish Life and Learning Center (Centro de vida e aprendizagem judaico, em tradução livre) será construído durante este ano, segundo foi anunciado num evento promovido pela câmara de Cascais, em Janeiro, para apresentar os projectos que vão decorrer na vila em 2019. 

Foi em Fevereiro do ano passado que o projecto foi formalmente apresentado: num terreno de 5000 metros quadrados seria erguido um edifício que ocuparia um quinto dessa área. Cerca de 2000 m2 seriam destinados à criação de uma área verde e um jardim sensorial que seria aberto à população.

No entanto, o projecto já era contestado meses antes. Foi lançada uma petição, que reuniu mais de 1500 assinaturas, organizada uma manifestação em Setembro de 2017 e feitas diversas interpelações à câmara de Cascais. Até que o grupo de cidadãos decidiu levar o caso à justiça e apresentou uma providência cautelar e uma acção judicial que ainda estão a ser analisadas pelo Tribunal de Sintra.

Na apresentação promovida pela autarquia em Janeiro, o rabino Eli Rosenfeld insistiu que a Associação Chabad quer com este centro mostrar "a sua vontade em criar um espaço de tolerância e de diálogo cultural e em promover a melhoria do espaço envolvente". E notou que a associação quer ali criar "um espaço para o diálogo cultural e para a tolerância”.

Nessa altura, o rabino aproveitou também para responder a algumas críticas, sublinhando que o espaço foi projectado "de forma harmoniosa com o meio envolvente" e que houve "uma forte preocupação em preservar os espaços verdes circundantes".

A Associação Chabad Portugal diz querer plantar cerca de duas dezenas de pinheiros e replantar a palmeira existente — que o SOS Costa da Guia diz estar a ser cortada — e "facultar aos cidadãos o aproveitamento destes espaços para zonas de lazer e passeio".

A Câmara de Cascais formalizou, a 18 de Maio de 2017, a cedência de cinco mil metros quadrados para construção do edifício à Associação Chabad Portugal, que ficará responsável pelo centro. Em contrapartida, a Chabad Portugal pagará uma renda mensal de 744 euros à Câmara de Cascais por um período de 50 anos. 

Desde então, esta cedência tem sido alvo de enorme contestação por parte da população local que acredita que aquela área será "privatizada".

Este grupo de cidadãos afirma ainda que a câmara de Cascais, assim como a Chabad Portugal, têm recusado "a procura de soluções alternativas que permitissem compatibilizar os interesses dos moradores com o interesse da Chabad em construir um local de culto em Cascais”. Outro grupo de moradores, a Associação de Moradores da Verdeguia, enviou mesmo uma proposta de alteração do projecto, mas esta foi recusada. "Chegou-nos na semana passada uma alteração do projecto, proposta pelos moradores da Costa da Guia, para deslocar o centro para outra parte do terreno. Uma proposta que avaliámos, mas não só violava o PDM [Plano Director Municipal], como violava o alvará de construção naquele bairro e ainda reduzia o estacionamento", explicou à Lusa fonte da câmara municipal.

Para o SOS Costa da Guia, as razões apontadas pelo município não passam “de uma falácia não fundamentada, não se vendo em que medida é que a deslocação das instalações poderia ir contra o PDM ou o alvará, já que as mesmas apenas pretendiam aumentar o espaço aberto ao público e reduzir a volumetria do edifício”, refuta a associação em comunicado. Para este grupo de cidadãos, a única solução é "a procura de um espaço alternativo nas imediações que permita à Chabad construir as suas instalações sem prejudicar os moradores" para que estes possam "continuar a usufruir de um espaço verde que será severamente amputado e restringido com esta construção". 

A manifestação está marcada para as 16h, sendo o ponto de encontro o local onde será construído o centro, na Rua dos Vidoeiros, informou o SOS Costa da Guia em comunicado. 

Notícia alterada às 11h17 do dia 4 de Fevereiro: Ao contrário do que se lia, não foi o SOS Costa da Guia que apresentou uma proposta de alteração do projecto à Câmara Municipal de Cascais, mas sim a Associação de Moradores da Verdeguia