O corte no policiamento, impacto e riscos

Uma eventual debandada de recursos humanos a curto prazo vai reflectir-se na relação jogos por realizar/nomeações de árbitros.

Sempre foi uma das maiores preocupações do sector da arbitragem a questão relacionada com a segurança dos árbitros, sobretudo em contextos em que estão mais expostos e vulneráveis, como é o caso das competições amadoras, as provas distritais. Infelizmente, é nesses jogos entre camadas jovens que há um sem número de registos e de ocorrências de violência cada vez maior sobre os árbitros. Se, para o sector, a escassez de árbitros no activo - e a quererem continuar na arbitragem - já é um problema grave, as alterações ao policiamento e a consequente falta de segurança podem vir a ser a machadada final no que diz respeito à perda de activos.

Na verdade, é no primeiro ano de actividade, logo após o fim do curso, que a retenção dos árbitros sofre um grande abalo, com a desistência de muitos jovens, o que faz com que haja cada vez mais partidas sem árbitros oficiais ou com equipas incompletas. Se os valores auferidos nos distritais são pouco compensatórios, se a disponibilidade para a realização de vários jogos no fim-de-semana já é algo que por vezes não motiva quem anda de apito na boca, o risco agora agrava-se. E uma eventual debandada de recursos humanos a curto prazo vai reflectir-se na relação jogos por realizar/nomeações de árbitros, que no futuro terá impacto na qualidade que se pretende ao nível dos árbitros que chegam à 1.ª categoria. Até porque um leque maior na base, para se fazer a triagem e a selecção dos melhores, é fundamental para alimentar as competições profissionais. 

Vem esta minha reflexão a propósito de uma medida agora anunciada e tornada pública pelo Comando Metropolitano do Porto da PSP e da PSP de Loures, que terão informado os clubes de futebol que, a partir de Março, vai deixar de existir policiamento nos jogos considerados de risco normal ou reduzido, nomeadamente nos escalões de formação dos campeonatos distritais (salvo em condições e situações tidas como excepcionais). Segundo as fontes policiais, não está em causa a redução de efectivos, mas apenas o cumprimento do decreto-lei 216/2012, que estabelece a não aceitação de pedidos de policiamento remunerados para eventos desportivos em que a requisição não seja obrigatória ou cuja regra seja a dispensa de policiamento.

Olhando também para o regulamento, este prevê que, na eventualidade de não existir polícia no recinto de jogo, o clube que joga em casa tem de indicar dois delegados de apoio à organização dos jogos, tendo de comunicar a hora e o local do jogo às autoridades, para prevenir qualquer eventualidade.

Ora, burocracias e decretos-lei à parte, todos sabemos, sobretudo quem foi árbitro, que a simples presença no campo de um único agente de autoridade é por si só dissuasora de alguns comportamentos físicos de violência, mas que, ainda assim, e são muitos os casos conhecidos, mesmo com a presença de polícia as agressões acontecem, seja entre o público, jogadores e ou sobre os árbitros.

Independentemente das medidas financeiras e da poupança de custos que possa estar por trás desta decisão, o importante mesmo é que os actos de violência sejam erradicados do desporto, mas temo que, com medidas desta natureza, tal não só não venha a acontecer, como o cenário possa vir a agravar-se.

Sempre tive a ideia de que quem elabora este tipo de decretos não tem bem a noção do que se passa no mundo real, ou seja, há claramente uma discrepância entre os gabinetes e as realidades sociais, neste caso concreto desportivas. Fruto da sociedade em que vivemos, os comportamentos e as atitudes das pessoas traduzem uma intolerância cada vez maior, e é no desporto em geral e no futebol em particular que têm vindo a reflectir-se cada vez mais todas essas frustrações. Os árbitros das competições amadoras têm sentido isso mesmo na pele.

Por último, expresso o desejo de que as pessoas que têm responsabilidades ao nível das decisões possam, em tempo útil, arrepiar caminho para que, no futuro, não tenhamos uma tragédia que todos nós tenhamos de lamentar. Estou certo de que a APAF está atenta a tudo isto e estará no terreno a fazer aquilo que sempre fez e faz, a defesa superior dos interesses dos árbitros.