O desastre na ferrovia não é um activo eleitoral

Uma coisa é assumir que não se fez nada porque o dinheiro não dá para tudo, outra muito diferente é encenar realidades virtuais com anúncios de obras que não existem ou lançar promessas de milhões para o futuro quando não há obras para mostrar nem dinheiro garantido para as fazer.

O desastre da ferrovia é uma das falhas mais nítidas da gestão das infraestruturas por parte do Governo. O estado deplorável das linhas ou do material circulante resulta de um longo processo de abandono no qual todos os governos das últimas décadas têm responsabilidade, mas, como hoje se noticia nesta edição do PÚBLICO, é impossível não notar que na presente legislatura esse abandono atingiu um nível de degradação impensável.

E se podemos aceitar que esse estado resulta de opções políticas que determinaram a cativação das verbas destinadas ao investimento para se obter um equilíbrio orçamental crucial para o futuro do país, custa assistir ao programa de propaganda com que o ministro Pedro Marques e o Governo tentam dourar a situação.

Uma coisa é assumir que não se fez nada porque o dinheiro não dá para tudo e depois do resgate da troika era fundamental mostrar à Europa e ao mundo que Portugal é um país responsável e credível; outra muito diferente é encenar realidades virtuais com anúncios de obras que não existem ou lançar promessas de milhões para o futuro quando não há obras para mostrar nem dinheiro garantido para as fazer.

Que o Governo diga que o PETI, o programa de investimentos de Passos Coelho, só se executou em 20% por falta de dotação orçamental, faz parte das regras do jogo político. Mas que o Ferrovia 2020 lançado com pompa pelo actual Governo tenha três anos depois uma taxa de execução de apenas 9% é outra muito diferente. Aqui não há desculpas para passar a outrem. O Governo não cumpriu o que prometeu e deve reconhecê-lo com modéstia e explicações.

Não o fazendo, todo o festim de anúncios organizado nas últimas semanas em torno do Programa Nacional de Investimentos até 2030 soa a uma evidente campanha de propaganda que só se percebe com a putativa candidatura de Pedro Marques ao Parlamento Europeu. Técnico competente, conhecedor profundo dos dossiers relacionados com os fundos europeus e negociador implacável com as instâncias de Bruxelas, Pedro Marques devia dispensar-se dessas manobras eleitoralistas.

Se há uma vítima da legítima e defensável opção do Governo que condenou o investimento público a limiares mínimos de execução é ele. Ficava-lhe melhor, a ele e ao PS, apresentar-se aos eleitores pela sua valia intrínseca em vez de o adornar com façanhas que não resistem à prova dos factos. Não o fazendo, a oposição agradece. É fácil desgastar um ministro que se promove com obras quando as obras não existem.