Crítica

Fernando Tordo com canções para brilhar, partilhar e balançar em palco

Um octeto a soar como orquestra e um balanço a puxar o swing: Fernando Tordo estreou Duetos no CCB em boa forma e boa companhia, com Héber Marques, Maria João, Rita Redshoes, Ricardo Ribeiro, Marisa Liz, Carlos Moisés, Filipe Tordo e Capicua (esta em gravação). Dia 2 de Fevereiro estará no Coliseu do Porto.

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Fernando Tordo com Ricardo Ribeiro no CCB PEDRO SOARES
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Fernando Tordo com o octeto no CCB PEDRO SOARES

Começou bem, no CCB, a apresentação pública do novo disco de Fernando Tordo, Duetos – Diz-me Com Quem Cantas. Pena foi que, ao contrário do anunciado, não houvesse disco físico para mostrar e vender, mas um inesperado atraso no acabamento adiou a saída. Deve estar disponível, asseguram-nos agora, durante o mês de Fevereiro, em data a anunciar.

O arranque fez-se “à antiga”, com um apresentador (raros espectáculos os têm, hoje em dia) e essa tarefa, por convite, coube a Júlio Isidro, provavelmente o nome mais transversal a todos os géneros musicais e a diferentes eras e estilos que Portugal já conheceu, tantos os artistas que já apresentou, entrevistou e, nos seus programas, ajudou a divulgar. Com o seu habitual profissionalismo, poupou-se a encómios: recordou o Fernando Tordo do seu trato pessoal, das histórias de infância, dos episódios de bastidores. A música, essa, viria depois.

Com uma sala a caminho de encher-se (pena foi que não estivesse mesmo cheia), logo os músicos ocuparam os seus lugares. E o que primeiro se ouviu, com Tordo já em palco, foi o embalo jazzístico de Lisboa de feira, o octeto a soar a big band e tudo a destilar swing. A canção seguinte, Só ficou o amor por ti, manteve viva a sensação de uma maior orquestra, acentuando Tordo, no refrão facilmente assimilável, uma sugestão de dança. Vieram, depois, os convidados. Sim, porque Duetos, o disco, são 17 canções partilhadas com nomes de diferentes gerações, novos e veteranos. E o espectáculo, não podendo replicar o disco (vários dos participantes estavam noutros lugares, em espectáculos próprios ou a caminho de outros palcos; e isso sucedeu com Camané, Carminho, Rui Veloso, Jorge Palma ou Herman José, por exemplo), quis ao menos aproximar-se dele. Convém, antes, observar que, se há discos de duetos que ajudam a lançar novos nomes ou promessas em ascensão, beneficiando os mais novos da fama e reconhecimento de veteranos, neste caso isso não sucede; uns e outros, Tordo e convidados, têm o seu reconhecimento assente, junto dos respectivos públicos (que nalguns casos se misturam ou confundem). Por isso, a valia desta aproximação será ainda mais genuína, com o trabalho em conjunto a dever-se sobretudo a uma empatia ou reconhecimento mútuos, conferindo maior prazer à partilha da música. Se isso é a consumação de algo passageiro ou o começo de qualquer coisa mais profunda, só o futuro o dirá. Para já, da experiência ficam (ficarão) alguns momentos inesquecíveis.

A canção Adeus tristeza, no seu enquadramento original, era algo que dificilmente se podia associar a um cantor como Héber Marques, dos HMB. Mas ele, nascido em Cascais e filho de imigrantes angolanos, desviou-a para a sua linguagem pop com laivos de funk e soul e, mais no disco do que no palco (onde houve ligeiros desacertos), conferiu-lhe alma nova. Fernando Tordo, por sua vez, deixou-se conduzir para tais territórios sem perder a bússola que norteou tão memorável canção. E fê-lo mostrando uma voz clara, límpida, mais nova a cantar até do que a falar (os 70 anos, a caminho de 71, aparentemente não lhe pesam), com um domínio certeiro dos tempos e do ritmo, ao que não será alheio o seu amor pelo jazz.

E por falar em jazz, O café, com letra de Ary dos Santos e música de Tordo (como seriam grande parte das canções ouvidas na noite), também aí perto nos conduziu, antes do dueto com Rita Redshoes (que não levava sapatos vermelhos, “ironia” que Tordo apontou) em N.º 2 – 6.º andar frente. Também no disco soa melhor, já que as palavras ditas por ela no início perderam força no palco, talvez devido a algum desajuste no microfone. Mesmo assim, a canção teve passagens de pleno acerto, em particular nos momentos de dueto vocal.

O Novo fado alegre, que bem conhecemos na voz de Carlos do Carmo, arrancou aplausos à plateia, com Fernando Tordo (agora a solo) a puxar pela força intrínseca das palavras. Veio, depois, para cantar com ele a quase onomatopaica O rato roeu a rolha, “a enormíssima e inexplicável” Maria João, palavras certeiras com que Tordo definiu a cantora que, a cada aparição em palco, espanta e encanta. Inexplicável, na verdade. O público sentiu o impacto daquele exercício que uniu ambos numa torrente vocal e dedicou-lhes uma das maiores ovações da noite. Depois, Balada para os nossos filhos trouxe consigo não só memórias da família (Tordo desceu à plateia para, procurando-os, abraçar filhos e netos) mas também a celebração da poesia de José Carlos Ary dos Santos. Tordo pediu ao público que batesse palmas a cada repetição do refrão e isso, cumprido à risca, foi uma merecida homenagem.

Depois, mais dois convidados: Marisa Liz, dos Amor Electro, que ele apresentou como “grande intérprete da canção, grande cantora” (em O amigo que eu canto); e Ricardo Ribeiro, que Tordo já apontara como “um dos mais fabulosos cantores que alguma vez apareceu em Portugal” e ali sublinhou ser “um homem da música.” Cantaram juntos, e muito bem, Se digo meu amor (uma das menos conhecidas grandes canções da dupla Ary-Tordo), arrancando à plateia a segunda maior ovação da noite; e, em seguida, mudaram de rumo: Tordo pegou na viola para tocar uma canção que ele próprio compôs a partir de Alza tus brazos, do poeta argentino Juan Gelman (1930-2014), deixando os vocais a Ricardo. Em seguida ficou este sozinho, acompanhando-se à viola na moda As mondadeiras, que nos trouxe a densidade telúrica do Alentejo numa voz que espraia o fado por outras latitudes.

Mais uma reunião de família, esta musical. Fernando Tordo chamou o seu filho Filipe Manzano Tordo, pianista clássico e professor no Conservatório, para o acompanhar ao piano numa canção emotiva dedicada a todos os cantores portugueses, Os cantores da minha terra. Muito aplaudida, ficou depois Filipe sozinho em palco para tocar uma peça jazzística do pianista e compositor ucraniano Nikolai Kapustin (nascido em Gorlovka, em 1937, e formado no Conservatório de Moscovo) e mostrar, nela, os seus dotes pianísticos. A peça, unindo modulações suaves do jazz ao sincopado vibrante do ragtime, arrancou também merecidos aplausos, a dividir entre o compositor e o pianista seu intérprete.

Por fim, Coisas da malta (num dueto com Carlos Moisés, da Quinta do Bill) e Tourada (com voz gravada de Capicua, que está a dois passos de ser mãe, daí não estar presente) fecharam oficialmente o espectáculo, apresentando Fernando Tordo, antes, os músicos participantes (no espectáculo, que no disco foram bem mais): Valter Rolo (piano), Pedro Vicente (teclados), Sertório Calado (bateria), Nuno Fernandes (baixo), Lino Guerreiro (saxofones), Pedro Azevedo (trompete), Ruben Luz (trombone), Filipe Cordeiro (trompa).

Guardado para o encore, ficou o tema que (já antes ali pedido pelo público) que Fernando Tordo gravou no disco em dueto com Jorge Palma: Cavalo à solta. Um bom final para um espectáculo que, ao sublinhar a intemporalidade e relevo da produção musical de Fernando Tordo, acabou por ser também um exercício de partilha artística entre géneros e gerações e uma porta para um futuro de colaborações musicais – que só pode melhorar com o tempo.

O próximo espectáculo será no Porto, no Coliseu, dia 2 de Fevereiro às 21h30. O disco deverá ser posto à venda durante o mês de Fevereiro, segundo os promotores.