Paulo Pimenta
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Paulo Pimenta

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A sorte que temos em tê-los

A semana que passou foi mais uma evidência de que devíamos tratar melhor quem escolhe Portugal para viver. Porque há sempre quem subverta a imigração para uma lógica populista de criminalidade inevitável. Nada mais errado e injusto. Especialmente porque somos um país com milhões de emigrantes.

O momento em que conhecemos alguém que vai ser importantíssimo na nossa vida devia vir legendado. Do estilo: “Atenção, manusear com especial cuidado este ser humano”. Só deste modo poderíamos absorver como esponjas os ensinamentos que essas pessoas trazem aos nossos cérebros. Uma das últimas vezes em que esse momento me aconteceu foi com o Matheus. Trabalha comigo diariamente há um ano, mas é muito mais do que um simples colega de trabalho. Porque traz no sangue a filosofia valiosa de outra cultura (ajudou-me a ultrapassar os meus ataques de ansiedade com uma frase só: “O aço é forjado em fogo e porrada”), porque tem uma música nas palavras à qual estou pouco habituado. Mas, para alguns portugueses, o Matheus tem um defeito — como tão bem denuncia aquele matreiro “th”: não é português.

O Matheus é brasileiro, mas não é esse o motivo que me leva a gostar tanto dele, porque ser do Brasil não é uma qualidade por aí além, do mesmo modo que ser português também não é grande coisa enquanto cartão de visita. Dá-se o caso de se ter nascido, sem pedir, num espaço de terra circunscrito a uma fronteira que uns senhores inventaram e rabiscaram num pedaço de papel há muito tempo. Nada mais do que isso. Mas a verdade é esta: não fosse a imigração e eu não teria um irmão de outros pais e de outro país.

A semana que passou foi mais uma evidência de que devíamos tratar melhor quem escolhe Portugal para viver. Porque há sempre quem subverta a imigração para uma lógica populista de criminalidade inevitável. Nada mais errado e injusto. Especialmente porque somos um país com milhões de emigrantes. Ora, por essa lógica, todos os nossos parentes na diáspora estariam agora atrás de grades de outros países. Não é assim, pois não? Claro que não. Pior: todos nós ouvimos as histórias de emigrantes que tiveram de aguentar o preconceito dos nativos dos países onde procuraram uma vida melhor. Eu posso contar as que conheço bem.

O meu avô esteve 30 anos num país estrangeiro, onde chorou muitas e muitas noites por não ter forma de ter uma vida digna no seu país e por não poder ver crescer os seus dois filhos. Passou longos anos em camaratas com outros portugueses, até ao momento em que conseguiu, finalmente, uma renda baixa o suficiente para ter uma casa só para si. A minha mãe viveu uma pequena parte da infância nesse mesmo país e, quando saía da escola, não era raro ter coleguinhas a atirar-lhe pedras porque não era “uma das nossas” — até porque nós, “os brancos”, em países mais a Norte, não somos brancos coisa nenhuma. Nós, portugueses, somos um país de emigrantes, mas nem sempre tratamos com dignidade os que, à nossa semelhança, tiveram de sair de casa para conseguir viver melhor. E melhor, entenda-se, não significa confortavelmente. Porque muitos imigrantes não têm os privilégios dos nativos: o acesso a emprego, saúde, educação e habitação são muito mais difíceis. E, para dificultar ainda mais a coisa, os autóctones ainda os tratam com o rótulo de “este não é dos nossos”, como se se tratassem de humanos de segunda.

Os imigrantes, assim como os “nossos” emigrantes, são audazes. Provavelmente, porque não tiveram escolha – é difícil imaginar as dificuldades por que alguém tem de passar antes de decidir fugir para um país do qual desconhece praticamente tudo: a língua, os hábitos, até as leis ou as taxas de câmbio. Atrevo-me a dizer que, se pudessem, estas pessoas estariam no país que as viu nascer, mas não podem. Vive-se melhor aqui – e quem pode condenar uma decisão destas? Quem, em plena consciência, poderia agarrar num ser humano e atirá-lo para um destino incerto, de dores incalculáveis ou, pior, de morte certa? Se o fizermos ou se o desejarmos, somos nós os selvagens. Não eles. Nunca eles.

Jon Ronson diz, muito acertadamente, que há dois tipos de pessoas no mundo: as que colocam a ideologia acima dos humanos, e as que colocam os humanos acima da ideologia. Eu voto nesta última, sem hesitar. Porque só assim posso continuar a ter a honra de ter pessoas como o Matheus na minha vida. Para poder ouvi-lo dizer que não acredita em Deus, mas tem uma devoção imensa nos poderes de Caetano Veloso. Para poder debater com ele, nas longas viagens que temos de fazer, volta e meia, sobre as insanidades maravilhosas de Elon Musk ou sobre esse mistério insondável que é o sexo feminino.

O Matheus costuma dizer que teve muita sorte em ter vindo cá parar, mas eu prefiro acreditar que a sorte é toda nossa, por termos o Matheus por cá.