Opinião

Penáltis, quando a ciência vence o improviso

O acaso desempenha um papel secundaríssimo quando se trata de um teste de competências.

Na lista de escolhas de Marcel Keizer para abordar o desempate por grandes penalidades na final da Taça da Liga, foi o nome de Bas Dost que surgiu à cabeça. Não foi por acaso. A expertise e a taxa de sucesso do holandês, que minutos antes já relançara o jogo da marca dos 11 metros, inflacionavam as possibilidades de êxito e prometiam uma rampa de lançamento importante para o Sporting nesse tira-teimas. O avançado cumpriu e validou não só a opção do treinador, mas todo um trabalho de bastidores que hoje reduz ao mínimo a suposta aleatoriedade da saga dos penáltis.

Na verdade, o acaso desempenha um papel secundaríssimo quando se trata de um teste de competências. Especialmente nos dias que correm, em que o cruzamento refinado de dados e a sua análise detalhada são já parte do quotidiano do futebol profissional, lugares-comuns como “lotaria” ou “jogo de sorte e azar” fazem cada vez menos sentido.

Para compreendermos quão profunda é a aposta neste gesto particular, basta atentarmos no facto de grande parte das equipas orientar a selecção dos cinco jogadores inicialmente escalados para o remate com base em dados científicos e em informação psicométrica, que permite avaliar quem reage melhor a um ambiente de pressão acrescida.

Comecemos por aí, pela preparação mental. Há estudos, como o que foi conduzido pelo investigador Ken Bray, da Universidade de Bath (autor do livro How to Score: Science and the Beautiful Game), que apontam para dois tipos de stress, um sintomático (que provoca garganta seca ou aumento da frequência cardíaca) e outro cognitivo (que gera pensamentos negativos).

Para os contornar, o autor sugere que os jogadores devem visualizar a bola a entrar na baliza e construir imagens na cabeça que lhes elevem os níveis de concentração. Ou que adoptem um outro procedimento, mais personalizado, que optimize os índices de atenção. A esse respeito, há quem aponte o “ritual” de Cristiano Ronaldo antes das bolas paradas como um exemplo elucidativo: o recuo de forma quase robotizada, o afastamento das pernas e o modo enfático como enche e esvazia o peito de ar.

“Um marcador de penáltis deve ter uma linguagem corporal correcta, que o torne difícil de decifrar. O peito deve estar aberto, os ombros para trás e deve sempre olhar o guarda-redes quando recua a partir da marca de penálti”, sugere Daniel Memmert, que trabalhou como consultor para a federação alemã de futebol.

Depois, entra a questão técnica na equação e a tentativa de apontar àquela porção da baliza considerada como “zona indefensável”. Tendo em conta o limite de alcance dos guarda-redes, os alvos preferenciais serão as zonas acima do ombro de quem defende e o mais possível junto a um dos postes — segundo as estatísticas, quatro em cada cinco remates dirigidos para esta área são bem-sucedidos. Para isso, é preciso garantir um gesto perfeito, tendo um estudo da Universidade de Portsmouth concluído que uma abordagem à bola entre 45 e 60 graus pode alterar a técnica de remate, ao influenciar a rotação da pélvis e a forma como a coxa se movimenta para proporcionar um melhor contacto com a bola.

É vasto, pois, o conjunto de variáveis a controlar no exacto momento da execução, desde a colocação dos apoios à gestão da relação força/precisão, por exemplo, mas um marcador “glaciar” tem de ter também a capacidade de não se deixar abalar pela interacção visual com o guarda-redes. E convém levar em linha de conta que hoje os guarda-redes têm a lição mais bem estudada do que nunca.

Para essa mudança, tem sido decisivo o advento das empresas especializadas em estatísticas e no tratamento de dados. Por um valor generoso (nalguns casos a subscrição trimestral do serviço custa ao clube cerca de 350 mil euros) é possível ter uma radiografia da performance de cada atleta e até um modelo estatístico complexo, que avalia a sequência dos últimos penáltis cobrados, para tentar prever qual a opção seguinte do marcador.

É um upgrade face à célebre base de dados da federação germânica, que esteve na origem da cábula utilizada por Jens Lehmann para travar duas grandes penalidades diante da Argentina e garantir o acesso da Alemanha às meias--finais do Mundial de 2006. Nesse encontro, provavelmente como em nenhum outro, ficou provada à saciedade a necessidade de o marcador diversificar as decisões tomadas em cada desafio apresentado. Afinal de contas, e em última análise, o penálti há-de sempre ser um jogo de enganos.

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