Crítica

A mulher polícia

Uma excelente Nicole Kidman num policial que faz pensar em Pakula ou Bigelow, mesmo que demasiado sisudo.

Kidman é excelente no seu cansaço existencial, no conformismo quase sem esperança
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Kidman é excelente no seu cansaço existencial, no conformismo quase sem esperança
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Sempre que uma “estrela” de Hollywood abandona o glamour e a maquilhagem para fazer um papel sério, a máquina de promoção lá começa à procura dos encómios todos para dizer que é uma performance para as calendas, que finalmente vamos perceber o seu talento, etc., etc. Na maior parte dos casos, é tudo areia para os olhos: no caso em questão, estamos fartos de saber que Nicole Kidman é uma óptima actriz, e que não é preciso pôr-se feia para o confirmarmos. Destroyer, regresso à mó de cima da americana Karyn Kusama, limita-se a colocar a actriz num registo diferente, um pouco como Meg Ryan fez na sua colaboração com Jane Campion em Atracção Perigosa: um policial negro, duro, sisudo, onde Kidman interpreta uma detective de Los Angeles que ainda transporta as feridas do período que passou como agente infiltrada num gangue de assaltantes.

Kidman é muito boa; o seu cansaço existencial, de um conformismo quase sem esperança, faz pensar, por exemplo, na Jane Fonda do Klute de Pakula, num filme cujo olhar encandeado pela luz dura de Los Angeles remete muito para o “novo cinema americano” dos anos 1970 e para as variações sobre o policial de gente como Robert Altman ou Hal Ashby. Mas a genealogia de Destroyer está noutro lado — na energia directa-ao-assunto de uma Kathryn Bigelow ou da corrupção sem fuga possível dos romances de James Ellroy, ambos referências no modo como Kusama encena, com inteligência e alguma desenvoltura, a sua história desencantada, tragédia em câmara lenta da qual todos os pingos de romantismo foram cuidadosamente eliminados.

Apesar de tudo isto, Destroyer não acerta a cem por cento no alvo — porque Kusama não resiste a carregar a traço grosso na dimensão existencial, emprestando uma sisudez supérflua, lânguida, e uma necessidade de ser significativo de que a história da mulher polícia a tentar ultrapassar os seus traumas não precisava. Lamenta-se isso, mas não é razão para passar ao lado de uma entrada bem válida na categoria dos noir de L. A.