Portugueses já consomem mais álcool do que os russos. OMS quer preços mais altos

Organização Mundial de Saúde defende aumento da taxação e estabelecimento de preço mínimo para bebidas alcoólicas, além da diminuição da exposição à publicidade e ao marketing.

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Margarida Basto

Os europeus, em geral, estão a consumir menos bebidas alcoólicas mas a Europa continua a ser a região com maior consumo per capita de álcool no mundo. Ao mesmo tempo, nos países do Sul da Europa os níveis de consumo não se alteraram de forma significativa nos últimos anos, ao contrário do que aconteceu em alguns países do Leste, onde se observou uma quebra acentuada. Um fenómeno que fez com que vários países — e Portugal está incluído neste grupo — já tivessem ultrapassado os russos no que ao consumo de álcool puro per capita diz respeito, enfatizou esta segunda-feira Carina Ferreira Borges, do gabinete regional da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Europa, num encontro em Santo Tirso.

São as estimativas mais recentes (relativas a 2016) da OMS. O último estudo da organização, que foi apresentado no final do ano passado, indicava que o consumo nacional anual per capita de álcool puro (a partir dos 15 anos) era então de 12,3 litros por ano (9,8 na região europeia) e de 11,7 na Federação Russa. No topo estava a República da Moldova, com 15,2 litros per capita.

À margem de um encontro com representantes de organizações da sociedade civil para discutir o grau de implementação do Plano Europeu de Acção para a Redução dos Malefícios Associados ao Consumo de Álcool 2012-2020, a perita da OMS recordou este e outros dados para sublinhar que "ainda há muito a fazer" nesta área.

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Carina Ferreira Borges defendeu, logo à cabeça, o aumento da taxação e o estabelecimento de um preço mínimo para as bebidas alcoólicas. Foi graças a medidas deste tipo que a Rússia conseguiu diminuir o consumo de bebidas alcoólicas, apesar de a Escócia ter sido o primeiro país a avançar com o estabelecimento de um preço mínimo, “com muita resistência por parte da indústria das bebidas alcoólicas, e que levou a grandes discussões ao nível dos tribunais”, recordou.​

A outra área de acção prioritária para a OMS passa pela diminuição da exposição à publicidade e ao marketing das bebidas alcoólicas, sobretudo nas redes sociais. Oito anos após o arranque deste plano de acção — que foi aprovado por 53 Estados-membros —, a terceira área específica em que a organização preconiza um maior investimento é a que está relacionada com a disponibilidade e o acesso a bebidas alcoólicas (nomeadamente nas escolas).

São três das dez áreas para a acção definidas pela OMS no plano europeu e que são "curiosamente" aquelas em que são menores os índices de concretização, lamenta. "São áreas onde menos foi feito e que têm um impacto extremamente importante" na mortalidade associada ao consumo de álcool, reforça, advogando que Portugal discuta a introdução deste e de outro tipo de medidas porque fazem com que o álcool - que "não é uma substância igual a qualquer outra" — seja menos acessível.

Três dezenas de organizações

O encontro com três dezenas de representantes de organizações da sociedade civil de 15 países europeus em Portugal segue-se a uma consulta efectuada aos Estados-membros sobre esta matéria, na semana passada. "Queremos perceber onde estamos, o que podemos fazer para melhorar, quais são os desafios", sintetiza a especialista, lembrando que um milhão de pessoas morre todos os anos na Europa devido ao consumo de álcool, doenças cardiovasculares na sua maior parte, mas também cancros, cirroses, acidentes.

"As áreas do marketing e do preço das bebidas terão um grande impacto em termos da redução da mortalidade ligada ao álcool e Portugal tem uma mortalidade que é importante e que precisa de ser mudada", nota. "Quem está exposto consome mais, e nos jovens [este nível de exposição ao marketing] é extremamente problemático, porque não só consomem mais como de uma forma diferente, com maiores danos".

De acordo com um comunicado divulgado no encontro (que é organizado pela Câmara de Santo Tirso), o número de mortes ligadas ao álcool é elevado entre jovens — "uma em cada sete mortes entre os 15 e os 19 anos" e "uma em cada cinco mortes entre os 20 e os 24". No ano passado, porém, o SICAD (Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e Dependências) lembrava, a propósito deste relatório da OMS, que a taxa global de problemas associados ao álcool é inferior em Portugal quando comparada com a média da União Europeia (UE), tal como a mortalidade  — que era (em 2016) de 282 por milhão de habitantes no país, contra 383 na UE.

"Temos hoje suficiente evidência científica que nos permite dizer que há coisas que têm de ser mudadas. Não podemos manter os mesmos discursos", argumenta Carina Ferreira Borges. No encontro, que termina terça-feira, vão estar ainda em debate medidas como a da alteração da rotulagem das bebidas alcoólicas. A Irlanda aprovou em 2018 aprovar um pacote de medidas que inclui a equiparação na rotulagem das bebidas alcoólicas ao tabaco (risco de cancros). Isto não será ir demasiado longe? "Há evidência científica de que o consumo de álcool está ligado a uma maior risco de cancro", diz. Sublinhando que o consumidor tem direito a ser informado, a especialista dá um exemplo: "A maior parte das mulheres não sabe que o álcool é um dos factores de risco para o cancro da mama".