O que se ficou a saber (ou não) sobre Tancos em 30 horas no Parlamento

Certezas e dúvidas sobre o assalto que trouxe os paióis às primeiras páginas, segundo quem comandou a sua defesa.

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Rui Gaudencio

As declarações dos comandantes das unidades de Infantaria, Engenharia e Pára-quedistas encarregadas de fazer a segurança aos paióis nacionais de Tancos, em quase 30 horas de audições, levaram aos seguintes factos explicativos e ou interpretativos das condições que afectaram aquelas instalações e levaram ao assalto.

Suspeita confirmada: inexistência de um comando único

Já tinha sido referenciada em Tancos 2017, Factos e Documentos, a compilação efectuada em Março do ano passado pelo Ministério da Defesa Nacional, ainda com o ministro Azeredo Lopes à frente. Tal situação levava a que as orientações de gestão e de vida a vida dos paióis estivessem afectas à Brigada de Reacção Rápida e a segurança, numa espécie de subcontratação, aos regimentos de Infantaria 15, Engenharia 1 e Pára-quedistas. Era pretendida uma complementaridade de funções que, na prática, segundo os oficiais que ousaram questionar este sistema definido hierarquicamente, consagrava uma dualidade.

Dúvida a esclarecer: por que razão havia menos efectivos nas rondas

A par da degradação progressiva dos elementos físicos de segurança – sensores não operacionais, redes corroídas e videovigilância inexistente -, os efectivos passaram de 44 para oito homens por um período de 24 horas para uma área a vigiar de quase 40 hectares. A decisão foi tomada pelo tenente-coronel Marques Tavares por despacho de Fevereiro de 2006, e a sua audição, que não constava do rol das 62 inicialmente pedidas, foi já solicitada. Acresce que, no dia do assalto, não houve rondas durante as 20 horas anteriores à descoberta do arrombamento dos paióis 14 e 15.

Revelação: exonerações e estratégia de comunicação

Dois dos cinco comandantes exonerados após o assalto clarificaram quais os motivos que levaram a hierarquia a tal decisão. O general Rovisco Duarte, então à frente do Exército, informou-os de que a exoneração era para não perturbar as investigações, mas, na verdade, era para dar uma imagem de transparência à opinião pública, cientes que estavam as chefias do grau de sensibilidade da questão e desprestígio dos militares na sociedade. Terminado o inquérito, os exonerados temporariamente durante 15 dias foram readmitidos e dois admitidos ao curso de oficial-general.

Outra dúvida que subsiste: assalto de amadores?

As facilidades objectivamente existentes para a intrusão no espaço dos paióis de Tancos, mais as que se fizeram sentir a 27 de Junho, data presumível do assalto, com a inexistência de ronda durante 20 horas e um elemento a menos na equipa de segurança, segundo foi detectado nas averiguações do Exército, cataloga o ocorrido como roubo de oportunidade. Ou seja, activado sem grande planeamento, até porque estavam previstas obras para melhorar a segurança. Daí que o coronel pára-quedista Alves Pereira tenha posto em questão os profissionalismo dos assaltantes. Foi o único oficial que comentou as falhas de uma acção que, como destacou, não conseguiu escoar o material roubado e o devolveu.

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