Não ouça o mal, não fale do mal, não veja o mal

Perante tamanho escândalo na Caixa, alguém escuta um burburinho sequer vagamente parecido àquele que ouvimos quando o VAR falha um fora de jogo no Porto-Benfica?

Se alguém me perguntar qual é o grande problema de Portugal, aquele que mais contribui para a sua paralisia social e estagnação económica, a minha escolha não vai para a escassez de produtividade, nem para a falta de formação, nem para o peso da dívida. O maior problema português é a incapacidade em aprender com os erros cometidos, em inscrever na memória colectiva as consequências dos grandes falhanços nacionais, em reflectir seriamente sobre aquilo que se passa à nossa volta, e em punir (seja politicamente, seja judicialmente) os responsáveis por falhanços catastróficos.

A grande tragédia portuguesa não está tanto no número e na dimensão das nossas asneiras, mas na forma como elas adormecem num limbo de espanto e de indignação, sem que jamais consigamos arrancar dali uma força transformadora, que ao menos obrigue a que as coisas sejam diferentes no futuro e que os erros do passado não se repitam. Ficamos todos a resmungar, estacionados no “como foi possível?!?”, e nunca damos um passo em direcção ao mais importante de tudo: analisar o que aconteceu para que não volte a acontecer.

Portugal é um dos maiores especialistas internacionais nesta espécie de inimputabilidade, e o caso da Caixa Geral de Depósitos é um excelente exemplo daquilo que estou a dizer. Nós já conhecíamos os milhares de milhões de euros que lá tinham sido enterrados, mas o relatório preliminar da auditoria à CGD é absolutamente chocante quanto aos métodos: são empréstimos de centenas e centenas de milhões de euros feitos sem uma avaliação séria do risco, ou contra o conselho das equipas que avaliaram esse risco, ou sem garantias de quem pediu o dinheiro emprestado, ou sem a necessária documentação. Não foi apenas um grande conjunto de asneiras – foram procedimentos criminosos que delapidaram o património do banco e exigiram aos contribuintes portugueses mais um esforço hercúleo na sua recapitalização. O dinheiro que se esvaiu na Caixa não se deveu a negócios que inesperadamente correram mal. Deveu-se a negócios que previsivelmente correram mal.

Estes são os factos. Que consequências tiramos deles? Se depender dos nossos políticos, da própria Caixa ou do Banco de Portugal, as consequências são zero. Nicles. Nenhumas. E nada – nem sequer os roubos colossais – é mais chocante do que isso. O banco público português esbanjou quatro mil milhões de euros em seis anos, e não parece haver um só grupo parlamentar genuinamente interessado em apurar até ao último detalhe o que se passou. O PS não quer porque isso demonstra que a governação de Sócrates foi o maior assalto ao Estado desde Alves dos Reis. O PSD e o CDS querem pouco porque a CGD sempre foi o paraíso do Bloco Central. E o PCP e o Bloco não querem lá muito porque bater em instituições públicas é coisa de neoliberais. Quem sobra? Quem nos defende? Quem analisa tudo isto para que nunca mais volte a acontecer? Ninguém.

OK, melhoraram-se alguns procedimentos internos no Banco de Portugal. A CGD está mais abrigada de boys incompetentes. E a auditoria segue para o Ministério Público, provavelmente para concluir que a maior parte dos crimes já prescreveu. Mas, perante tamanho escândalo, alguém escuta um burburinho sequer vagamente parecido àquele que ouvimos quando o VAR falha um fora de jogo no Porto-Benfica? Tal como os três macacos sábios, nós somos aconselhados a não ouvir, a não ver e a não falar. Infelizmente, se de macaco isto tem muito, de sábio não tem nada.