Colecção de fotografia do Novo Banco encontrará casa nova “ao longo deste ano”

Novo Banco distribuiu 22 pinturas por 12 museus espalhados pelo país em 2018, mas ainda lhe falta dar um destino à “jóia da coroa” do seu acervo de arte – a colecção de fotografia. Ministra prometeu encontrar-lhe um espaço até ao final de 2019. Para já estão previstas duas exposições com algumas das suas obras no MAAT e no Museu do Dinheiro.

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Graça Fonseca comprometeu-se a encontrar um espaço para expor a Colecção de Fotografia Contemporânea do banco até ao final de 2019 Rui Gaudencio

Faz precisamente um ano que o Novo Banco e o Ministério da Cultura inauguraram a sua parceria celebrando a chegada ao Museu Nacional dos Coches de um óleo que mostra o Terreiro do Paço antes do Terramoto de 1755. Desde aí, outras 21 pinturas que pertencem ao antigo BES foram depositadas em 11 museus nacionais, regionais e municipais distribuídos pelo país, sem esquecer as ilhas. Por isso se usaram tanto as palavras “descentralização”, “periferia”, “coesão” e “território” na conferência que esta terça-feira à tarde fez o balanço de 365 dias de Novo Banco Cultura, a marca criada para gerir os quatro acervos que a instituição tem à sua guarda: 94 pinturas, mais de 13 mil moedas com 2000 anos de história, uma biblioteca de estudos humanísticos com edições raras e uma importante colecção de fotografia dos séculos XX e XXI.

“Jóia da coroa” das “colecções” do banco — assim se referiu a ela o primeiro-ministro António Costa há um ano, assim lhe chamou esta terça-feira o presidente executivo do Novo Banco, António Ramalho — a Colecção de Fotografia Contemporânea continua à espera de uma solução que permita a sua fruição pública permanente. Há mais de um ano que o Ministério da Cultura procura um espaço onde possa ficar em exposição e até já chegaram a ser noticiadas negociações com a Câmara Municipal de Coimbra para que viesse a ocupar boa parte das galerias do renovado Convento de S. Francisco, um imóvel autárquico inaugurado em 2016 como centro cultural depois de uma requalificação que custou 40 milhões de euros, mas até aqui nada foi anunciado.

“Estamos a trabalhar intensamente com o Ministério da Cultura para encontrar um espaço”, disse ao PÚBLICO o presidente do Novo Banco à saída da sessão, explicando que é fundamental que o destino a dar-lhe garanta a sua “homogeneidade” e “integridade”. É que, ao contrário das 94 obras de pintura europeia que foram compradas em diferentes momentos para os gabinetes e outras dependências do banco — a que foi para os Coches, por exemplo, estava na sala de jantar, disse-o esta terça-feira António Ramalho —, o acervo de fotografia contemporânea começou a ser reunido em 2004 com o propósito específico de criar uma colecção, tendo até uma curadora (Alexandra Fonseca Pinho).

“Estamos a considerar várias autarquias”, acrescentou António Ramalho, um naipe que deverá deixar de fora Lisboa e Porto, de acordo com o que Costa defendeu em Janeiro do ano passado, no lançamento desta parceria Estado-banca. Por sua vez, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, lembrou esta terça-feira que a colecção de fotografia “exige condições particulares do ponto de vista técnico”, o que torna mais difícil encontrar-lhe uma “casa final”.

“Quando decidirmos há que ter todas as garantias de que as condições estão asseguradas”, disse a ministra, revelando-se em seguida confiante de que já não faltará muito. “Ao longo do ano iremos apresentar uma solução”, afirmou, sem se comprometer com a possibilidade de este acervo empresarial de arte contemporânea, que no ano passado foi dado como exemplo de boas práticas no que toca ao mecenato cultural pelo Parlamento Europeu, vir a morar em Coimbra.

Para já, acrescentou António Ramalho, está garantida a sua fruição pública nas agências e sede do banco, na Arco Lisboa e, sobretudo, nas duas exposições previstas para a capital — no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), em Março, e no Museu do Dinheiro, em Maio.

Esta colecção arrancou há 15 anos com um quarteto de luxo — Jeff Wall, Cindy Sherman, Thomas Struth  e Candida Höfer — e tem hoje 1000 obras de 300 autores de quase 40 países, um naipe que inclui muitos dos mais importantes artistas a trabalhar com fotografia nos séculos XX e XXI. Dele fazem parte John Baldessari, Irving Penn, Stan Douglas, Vik Muniz, Nan Goldin, Robert Frank ou Christian Boltanski, mas também portugueses de várias gerações, como Gérard Castello-Lopes, Helena Almeida, Jorge Molder, Paulo Nozolino, José Luís Neto, Vasco Araújo, Daniel Blaufuks, Filipa César, Adriana Molder, João Tabarra e a dupla Pedro Paiva/João Maria Gusmão. O seu valor de mercado nunca foi divulgado oficialmente pelo banco nem pelo Governo, mas os jornais falaram já numa soma que andará entre os 15 e os 20 milhões de euros.

Pinturas espalhadas pelo país

Já no seu destino — a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa — estão os mais de mil livros de autores como Dante, Petrarca, Erasmo, Camões ou Sá de Miranda que pertenceram ao professor José de Pina Martins. Segundo o presidente executivo do Novo Banco, este acervo deverá ser apresentado, e disponibilizado, já em Março.

No que toca à pintura europeia, do século XVI ao XXI, a “distribuição” já começou e vai continuar. Obras de artistas como Jean-Baptiste Pillement, Élisabeth-Louise Vigée Le Brun, Jan Fyt , Nikias Skapinakis, João Hogan, José Malhoa, Júlio Resende, João Vaz, Silva Porto, Josefa de Óbidos ou Jorge Pinheiro foram cedidas a 12 museus de nove regiões. E se é verdade que há museus nacionais nesta lista — os já referidos Coches, o Museu Nacional de Arte Antiga (Vigée Le Brun) ou o Grão Vasco (Pillement) — também é verdade que a maioria é regional ou autárquica. O Museu da Guarda e o José Malhoa, nas Caldas da Rainha, estão entre os “contemplados” de 2018, assim como o Paço dos Duques de Bragança (Guimarães), os museus municipais de Óbidos e Setúbal e o de Arte Contemporânea da Madeira.

Para 2019 estão agendados depósitos em museus de Ponta Delgada, Angra do Heroísmo, Faro, Peniche, Beja, Crato, Évora e Lamego. Na próxima quinta-feira, por exemplo, o Museu Carlos Machado, em S. Miguel, recebe dois portulanos (mapas antigos dos portos conhecidos) da autoria de José Fernandes Portugal e, a 27 de Abril, o futuro museu de Peniche acolhe uma pintura francesa do século XVIII.