“Ordem! Ordem!” O speaker de língua afiada está a mudar as regras – e talvez o “Brexit”

O presidente da Câmara dos Comuns não usa martelo, embora possa dar a impressão de que o faz. Mas não. John Bercow levanta-se, aponta o dedo, sacode o monte de papéis, levanta a voz e grita a palavra “ordem” vezes sem conta.

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Bercow já acusou os deputados de serem "delinquentes incorrigíveis" Reuters TV

O Reino Unido vai ficar mais uma vez colado à TV Parlamento esta semana, para ver o próximo episódio da comédia de sucesso conhecida como “Brexit”. O canal de serviço público da BBC tornou-se tão popular que superou, por alguns momentos, a MTV. E a estrela da comédia é John Bercow, de 56 anos, um pequeno disciplinador e mestre em chacota que é a 157.ª pessoa a carregar a maça cerimonial. Bercow é o speaker mais teatral e pró-activo dos tempos modernos.

Tradicionalmente, o presidente da Câmara dos Comuns desempenhava um papel de baixo destaque. Encarregava-se de manter a ordem na barulhenta câmara, escolhia os membros que podiam fazer perguntas ao primeiro-ministro, e que perguntas – para além de controlar a contagem do tempo.

Mas o “Brexit” virou tudo de pernas para o ar e Bercow transformou-se numa personagem extraordinária, com uma interpretação livre das regras parlamentares e uma tendência para pôr em causa as tradições.

“Ele não pode ser comparado a nenhum speaker anterior”, disse Bobby Friedman, autor da biografia Bercow, Mr. Speaker: Rowdy Living in the Tory Party. “A palavra speaker [orador] é enganosa. Antes de Bercow, não se esperava que o speaker falasse. Os speakers presidem aos debates. Mantêm a ordem, tomam decisões sobre o procedimento e limitam-se a permitir que todos falem ordeiramente. Mas Bercow transformou o cargo”, disse Friedman.

O Governo da primeira-ministra Theresa May enfrenta na terça-feira uma série de votações permitidas por Bercow que podem mudar a trajectória do “Brexit”. É muito possível que os membros votem para adiar a data de saída, marcada para 29 de Março, ou até mesmo para impedirem que o Reino Unido deixe a União Europeia sem acordo.

Essas iniciativas são valorizadas pelos deputados menos influentes, a quem Bercow prestou atenção, e por aqueles que querem que o Parlamento seja mais assertivo a lidar com Downing Street. Mas o speaker da Câmara dos Comuns aborreceu os tradicionalistas e é odiado pelos defensores do “Brexit”, convencidos de que ele tem actuado com o objectivo de impedir a saída do Reino Unido da UE.

Depois de Bercow ter permitido, no início do mês, uma votação em que deu apenas três dias úteis a Theresa May para apresentar o seu “Plano B” do “Brexit”, o jornal britânico Daily Mail criticou Bercow chamando-lhe “egoísta, presunçoso e arrogante” e acusando-o de “pôr descaradamente o seu preconceito anti-‘Brexit’ à frente do interesse nacional”.

O jornal The Sun chamou-lhe “Speaker do Diabo” e redobrou a sua fúria contra “a tentativa de Bercow de arruinar o ‘Brexit’”.

Após a sua eleição, os speakers devem descartar a sua filiação partidária e mostrar-se neutros em relação à política. Mas o The New York Times noticiou este mês que o Governo de May ameaçou punir as “inclinações antigovernamentais” de Bercow, tornando-o no primeiro speaker em 230 anos a ver negada a nomeação como par vitalício e uma cadeira na Câmara dos Lordes.

Mas Bercow dá sempre o seu melhor. O speaker é tão extravagante como as suas gravatas com padrões esquisitos. Uma vez, sugeriu a Philip Hammond – responsável pelas Finanças e segunda figura mais poderosa do Governo – que se limitasse a usar “o seu ábaco”.

Bercow aconselha regularmente os deputados mais agitados, muitos deles idosos que apreciam um copo de vinho ao almoço, a tomarem os medicamentos para baixarem os níveis de stresse. Certa vez, dirigiu-se a um deputado barulhento e disse: “Você é um indivíduo muito entusiasmado. Tem de escrever mil vezes: ‘Vou portar-me bem durante as perguntas à primeira-ministra’”.

Na semana passada, para acalmar o burburinho na sala, gritou: “Acalmem-se, pratiquem ioga!” Noutro momento, após gritar “ordem”, proferiu a sua citação habitual: “Calma. Moderação. Paciência”.

Bercow luta contra a “gritaria habitual” e o “apontar de dedos” dos deputados. E já acusou os legisladores de serem “delinquentes incorrigíveis”. Um deles sugeriu que Bercow dorme com um dicionário. 

O speaker não teme os principais ministros. Na verdade, parece deliciar-se a pôr água na fervura. Uma vez, usou os seus dons oratórios contra Jeremy Hunt, ministro dos Negócios Estrangeiros, por este ter olhado para o telemóvel durante o debate: “Mexer ostensivamente num dispositivo electrónico desrespeita a convenção estabelecida da câmara.” E acrescentou: “É um ponto tão óbvio que só uma pessoa extraordinariamente inteligente e sofisticada poderia deixar de o compreender.”

Em resposta a uma reclamação de Andrea Leadsom, a líder do grupo conservador da Câmara dos Comuns, Bercow argumentou: “A nobre senhora pode dizer ‘pooh’ se quiser. A nobre senhora aceitará a decisão do speaker e comporta-se ou sai da câmara. Não me importo com o que escolhe.”

Na semana passada, o correspondente do jornal The Guardian em Bruxelas escreveu que os europeus adoram Bercow, dando como exemplo o título de um perfil do speaker feito pelo jornal holandês De Volkskrant: “Ninguém na ilha britânica consegue gritar ‘ordem, ordem’ de forma mais bela do que John Bercow.”

Durante a sua candidatura a speaker, em 2009, Bercow escreveu no jornal Independent que “durante muito tempo a Câmara dos Comuns foi administrada como pouco mais do que um clube privado por e para cavalheiros”.

John Bercow não é um deputado comum, nascido num meio privilegiado e com uma educação de “Oxbridge”. É filho de um taxista do Norte de Londres e frequentou a Universidade de Essex. Iniciou a sua carreira como conservador de extrema-direita. Mas voltou-se para a esquerda e começou a defender questões socialmente liberais, como os direitos dos homossexuais, muito antes de isso ser moda entre os conservadores.

A sua mudança para a esquerda, em conjunto com o seu temperamento e uma tendência para provocar discussões, resultou em relações tensas com alguns dos seus companheiros de partido. Ninguém gosta de ser humilhado publicamente.

Friedman disse que Bercow é “conflituoso, arrogante, muito pomposo” e “irrita as pessoas com muita facilidade”.

Na sua investigação sobre o tratamento dos funcionários da câmara, no ano passado, a BBC acusou Bercow de ser um “bully”. Num inquérito independente sobre intimidação e assédio na câmara, Bercow não foi mencionado, mas foram expostas algumas dúvidas sobre o que deveria ser alterado na actual liderança.

Anne Main, deputada do Partido Conservador, disse na altura: “É o velho ditado de que o peixe apodrece pela cabeça.” Bercow nega as acusações de “bullying” e prometeu tratar melhor as preocupações dos funcionários.

Durante um recente debate, um deputado disse que a imparcialidade de Bercow devia ser questionada devido a um autocolante que dizia “Bollocks para o Brexit” (slogan do movimento anti-“Brexit”) no seu carro. Bercow disse que o autocolante em questão estava no carro da sua mulher.

“Tenho a certeza de que o ilustre cavalheiro não sugeriria nem por um momento que as mulheres são, de forma alguma, propriedade dos seus maridos”, disse ele, provocando uma onda de aplausos dos deputados da oposição. “Ela tem direito às opiniões dela.”

John Bercow é casado com Sally Bercow, ex-publicitária e activista política. Sally regressou recentemente à rede social Twitter, depois de se ter afastado quando difamou um político conservador. Na sua biografia, descreve-se como “100% partidária e política”. O casal vive num apartamento no Palácio de Westminster com os seus três filhos.

No primeiro dia de uma sessão parlamentar, o speaker dirige-se para o trabalho precedido de um porteiro e do sargento de armas, seguindo-se o capelão, o secretário e um funcionário que segura a bainha do manto dourado do speaker.

Bercow dispensou as tradicionais culotes, meias de seda e peruca. Prefere fatos e gravatas com padrões. Embora tenha sugerido que as gravatas não são obrigatórias na Câmara dos Comuns, o que chocou os deputados mais conservadores.

Tony Travers, professor de Política na London School of Economics, disse que Bercow provavelmente não se via a si próprio no papel de impedir os sonhos dos defensores do “Brexit”, mas sim no papel de “dar poder ao Parlamento” num momento em que “o Governo e o Parlamento não concordam com o que o ‘Brexit’ realmente significa”. 

Ou pode simplesmente dizer que se vê apenas a restaurar a “ordem”.

Exclusivo PÚBLICO/The Washigton Post