Crítica

O punk não morreu

O trio de Hugo Costa, Gonçalo Almeida e Philipp Ernsting leva-nos numa descida aos infernos, entre a improvisação jazzística e o punk hardcore.

Um <i>power trio</i>  e a sua música assombrada, obscura, turbulenta, aterradora, suja
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Um power trio e a sua música assombrada, obscura, turbulenta, aterradora, suja

O título e a capa não enganam: o quadro de Reubens é uma representação visual da queda dos pecadores condenados para o inferno. A música deste trio confirma: revela-se diabólica, infernal. Os Albatre são uma espécie de power trio, um grupo radicado em Roterdão formado por dois músicos portugueses e um alemão: Hugo Costa nos saxofone alto (e efeitos), Gonçalo Almeida no baixo eléctrico (e teclados e electrónica) e Philipp Ernsting na bateria (e electrónica). O grupo nasceu em 2011 e tem cimentado um percurso sólido, onde se incluem discos marcantes como A Descent Into Maelström (2013) e Nagual (2015), além de dezenas de concertos pela Europa e Japão.

No centro desta música está o baixo pulsante de Gonçalo Almeida, músico que tem exibido a sua versatilidade e proficiência em diferentes contextos musicais. Integra os grupos The Attic (com Rodrigo Amado e Marco Franco), The Selva, LAMA, Spinifex, Tetterapadequ e um trio com Tobias Klein e Martin van Duynhoven, entre outros projectos, discos e colaborações. Junta-se o saxofone de Hugo Costa, saxofonista luso que integra o trio Anticlan, que aqui expõe os motivos de forma repetida e lança gemidos intensos. E o grupo completa-se com a bateria do alemão Philipp Ernsting e as suas descargas enérgicas.

Com essa base metal/punk/improv, esta é uma proposta pouco consensual: é uma música assombrada, obscura, turbulenta, aterradora, suja, extremada; mas não se trata de música caótica ou atabalhoada. Assenta na numa interpretação rigorosa. Enquadra-se no chamado jazzcore, combinação de jazz e punk hardcore, corrente popularizada por John Zorn no seu projecto Painkiller e pelos italianos Zu. À base rítmica vibrante, juntam-se riffs enérgicos, repetidos de forma obsessiva, num ambiente metal, com improvisação jazzística e exploração noise. Ouvem-se vozes dissonantes que se cruzam, embaladas em ritmo trepidante, evoluindo em crescendos de energia que explodem.

Em 1959 Ornette Coleman publicou The Shape of Jazz to Come, abrindo o jazz à improvisação aberta; em 1998 a banda punk Refused editou The Shape of Punk to Come, desafiando as fronteiras do punk. Este disco, The Fall of the Damned, cruza os universos daqueles dois discos clássicos e vai mais além, mergulha no metal e no noise. O disco é editado na Shhpuma, sub-label da Clean Feed dedicada ao jazz que atravessa geografias sonoras, e faz todo o sentido. O punk não morreu, mas agora não vive apenas de guitarras e ganhou outras formas.