Vang Vieng, o lugar do Laos onde a vida acontece sem pressas

A leitora Patrícia Caeiros partilha a sua experiência no país asiático.

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A verdade é esta: rendi-me ontem ao Laos numa carrinha a caminho de Vang Vieng atolada de coreanos e ao lado da Marta, e hoje no assento de trás de uma mota enquanto o Ignacio nos conduz aos dois com poucos destinos pelas estradas de Vang Vieng.

Cheguei a Vang Vieng ontem na companhia da Marta, que conheci há dois dias no avião de Banguecoque para Vienciana, e há outra verdade que é esta: quando abres o peito e deixas as expectativas atrás das costas, e te arriscas a partir sozinha, conheces pessoas como a Marta, com quem te partilhas de tal forma fácil que as conversas que tens são daquelas que importam e os julgamentos não têm lugar. Numa dessas conversas, perguntei-lhe, se vamos amanhã para o mesmo lugar, porque não vamos juntas? E assim foi, e assim viemos.

O verde que se impunha a cada curva erguia‑se com uma imponência até ao céu que eu nem queria acreditar no que os meus olhos viam. Fomos horas em silêncio a partir da capital num aperceber do que existe quando saímos da nossa zona de conforto e, quando chegámos a Vang Vieng, esta aproximava‑se e abria-se numa passagem entre as montanhas com o entardecer a esconder-se em tons que explodem no céu por detrás de picos rochosos tão altos e erguidos. Tão bonito. Mesmo.

Laos, a floresta canta mais alto do que a modernidade

Nessa noite, conhecemos o Ignacio no hostel em que ficámos hospedadas, e, como as ligações que se criam por aqui são tão simples, ou então sou eu que tenho sorte, quando no dia seguinte tive que dizer adeus à Marta, continuei esta minha viagem a solo com ele.

Sem ambos termos planos do que visitar, e sem ambos também nos identificarmos com as actividades que trazem os backpackers aqui, ou querermos descer o rio numa bóia de borracha, porque, ao fim e ao cabo, o Tubing é o motivo pelo qual tanta gente vem a Vang Vieng, decidimos alugar uma mota e ir por aí explorar este lugar.

E o que acontece quando deixas que a vida se encarregue de te mostrar o que há de bom é que surge um monge que já não é dos campos que te leva à entrada de uma montanha que no topo tem o miradouro Pha Ngeun, cuja vista te abre a boca num espanto que não sabes fechar; conversas lá no alto de uma tábua com miúdos que não falam a mesma língua que tu, mas que te ensinam palavras que são deles; aventuras-te a dois por uma gruta (Tham Phu Kham) com uma lanterna na cabeça mergulhada num daqueles barulhos que se adensam na pele; descobres um café à beira da estrada (Organic Farm) onde te sentas em paz e num silêncio que não incomoda com quem conheceste há um dia.

E os teus dedos aventuram-se a escrever, enquanto o rio corre castanho e veloz na tua frente, e o único som que interrompe esse conforto debaixo de uma chuva que decidiu aparecer num borrifo e um vento que arrefece o suor na pele, é um trovão que chega aos ouvidos de nuvens que vieram densas e que trazem consigo uma tempestade. E terminas o dia a conversar num tempo sem pressas e debaixo de um telhado que se improvisou na trovoada que de repente se abateu bem por cima da tua cabeça.

Dizem que Vang Vieng é o lugar das festas onde a diversão é levada ao limite ou do barulho que se faz até tarde, mas para mim Vang Vieng é um lugar onde a minha vida acontece devagar, sem pressas, onde a paisagem se estende numa beleza rara e intocada, onde os campos verdes de arroz se repetem num lugar que eu nem sabia que podia ser tão bonito, e onde um improviso me faz crescer uma vontade de ter sempre um sorriso nos lábios e me desenha o meu dia de amanhã.

Patrícia Caeiros