Marie Kondo
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Marie Kondo mudou a forma como vemos — e sentimos — a nossa casa

Se falar em organizar a casa é algo que pode soar aborrecido e desnecessário, a nova série de Marie Kondo na Netflix permite mostrar o contrário. É um processo profundo, terapêutico e catártico.

Desde há muito que existem livros, artigos ou programas sobre a organização e melhoria da logística da nossa casa. Quais os melhores armários para guardar pratos, como dobrar umas calças para que ocupem o mínimo espaço possível, como aproveitar todos os centímetros na despensa para que caibam ainda mais coisas?

Uma abordagem quase "dona de casa que faz bricolage para fazer caber muita coisa em pouco espaço", que até chega a incluir fórmulas matemáticas para saber quantos livros, copos ou camisas precisamos.

Pessoalmente, nunca me senti inspirada a organizar quando lia estes artigos, de tão frios e impessoais que são. Apesar de terem surgido, entretanto, alguns autores que interpelam esta questão da tralha e da organização de uma forma mais humana, a japonesa Marie Kondo destacou-se. De uma forma simples e descomplicada, usando uma linguagem assertiva e explorando o lado emocional que carregam os nossos pertences, trouxe o tema para um público alargado, tornando-se assim um sucesso mundial com o seu livro de 2011 Arrume a Sua Casa, Arrume a Sua Vida (editado em língua portuguesa pela Pergaminho, em 2015). 

Oito anos passados, a Netflix decide fazer uma série para avivar ainda mais o tema — sim, porque o que a Netflix lança é sempre tendência. Marie Kondo em acção, a melhorar a vida das pessoas ao ajudá-las a organizar a sua casa.

Se falar em organizar a casa é algo que pode soar aborrecido e desnecessário, esta série permite mostrar o contrário. É um processo profundo, terapêutico e catártico. 

"O processo de arrumação é uma oportunidade única de compreender o que é importante na vida." E, apesar de parecer pretensioso, a verdade é que nos faz pensar realmente sobre quem somos hoje, o que valorizamos e como queremos passar o nosso tempo. Começamos a pensar não só nos objectos, mas em tudo o resto que nos rodeia no dia-a-dia: obrigações, actividades, projectos, pessoas.

A primeira coisa que se nota nesta série é que a desorganização é mais comum do que aquilo que se possa pensar. Pode abranger todas as idades, estratos sociais, fases da vida ou personalidades. Ninguém nasce a saber organizar, é algo que se aprende e não há vergonha se ainda não se aprendeu. E ao ver a série percebemos o natural que é relacionarmo-nos de imediato com as sensações e sentimentos de frustração de cada um: "Torna-se stressante cuidar da casa, mesmo quando estou a descontrair sinto que devia estar a limpar ou organizar"; "Sinto-me tenso em casa por causa desta confusão"; ou, até, "Não tínhamos capacidade de nos livrarmos das coisas, de arrumar. É algo que nos dominou por tanto tempo" são desabafos que facilmente nos soam familiares.

De seguida vê-se quão simples — e com isto não quero dizer fácil — é fazer a selecção daquilo que queremos manter. Resume-se a uma pergunta principal: traz-me alegria? Ao responder a esta questão, começamos a fazer escolhas conscientes de todo e qualquer pertence que tenhamos. E assim, sem darmos por ela, fazemos uma análise daquilo que queremos que nos rodeie e que queremos levar connosco para o futuro, revelando os nossos valores e a nossa visão de vida ideal.

É uma viagem com uma direcção simples, mas que abarca muitas emoções e insights. Exige coragem e uma imagem clara daquilo que queremos. Percebe-se que não é uma empreitada fácil nem rápida (chega a demorar várias semanas ou até meses). É algo que demora tempo e consome energia, por isso só se consegue levar o objectivo avante quando estamos verdadeiramente prontos para a mudança e empenhados em não recuar no compromisso. 

E não te deixes enganar, o método KonMari pode parecer doce com a questão da alegria, mas é exigente física e emocionalmente. Antes de mais, tudo fora dos armários. O primeiro passo é juntar tudo da mesma categoria (roupa, sapatos, livros, panelas…) num monte. Ver tudo empilhado dessa forma obriga-nos a enfrentar as nossas coisas de um modo diferente e chocante. Só assim nos conseguimos aperceber que, de facto, temos coisas a mais. 

Outro detalhe inspirador é o reforço da ideia da casa como um local onde articulamos as nossas relações e onde cada um que lá vive desenvolve o seu sentido de companheirismo, responsabilidade e respeito pelo espaço do outro. Não interessa a idade, até as crianças conseguem organizar, assumir deveres e participar no todo que é a dinâmica do lar.

Apesar de tudo — já que se percebe claramente que todo este método pode ser avassalador a dada altura —, senti que falta a componente de maior apoio pessoal durante o processo. Dá a ideia que Marie apenas aparece para dar ensinamentos e só volta daí a uma semana para ver os avanços. Penso que seja essencial para bons resultados poder dialogar e contar a história das nossas coisas de forma a elucidar-nos sobre os sentimentos que temos por elas e, assim, decidir melhor.

No final, queremos sentir o que eles sentem: alegria e paz ao estar em casa, um lar que nos dá as boas vindas de cada vez que abrimos a porta. Esta série lembra-nos que não precisamos de muitas coisas à nossa volta para sermos felizes e, assim que acaba cada episódio, apetece-nos logo começar a organizar.

E venha mais uma temporada.